NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 83 – por Manuela Degerine

 De Riachos a Tomar

Parto agora, sexta-feira, dia 1 de fevereiro de 2013, com a intenção de voltar a percorrer o Caminho da Golegã a Tomar: cerca de trinta quilómetros. Quando ali passei pela primeira vez, em outubro de 2011, o excesso de calor tornou-me a jornada particularmente penosa, não corro hoje tal risco, não pela data, em Portugal o mês de fevereiro, tal como o de outubro, não é garantia de frescura, mas por a meteorologia prever o máximo de catorze graus e até, o que me convém menos, chuvadas a partir da tarde. Por ora há nevoeiro.

Apanho na estação do Oriente o comboio das oito e cinquenta e seis para Riachos. Passo às nove e meia na Azambuja e nem os prédios ao lado da estação consigo ver… Começo a sentir-me inquieta. Não corro o risco de me perder? Saio do comboio às dez e dez. O nevoeiro persiste. Não vejo nada, ignoro a que distância se encontra a Golegã, ignoro como se vai para lá, ignoro em que direção cumpre seguir… Consigo avistar um indivíduo com o telemóvel na orelha. Aproximo-me. A criatura vira-me costas. Dou-lhe a volta:

– Para que lado fica a Golegã?

Ele aponta com o braço e, de facto, poucos metros mais adiante, uma placa que, por causa do nevoeiro, eu não vira, indica a Golegã. Encontro-me, passada a rotunda, a caminhar à beira de uma estrada sem berma, com bastantes carros que, felizmente, por causa do nevoeiro, não circulam todos demasiado depressa. Eu caminho sempre alerta e, quando um camião passa, desço para a vala; os camiões são numerosos. Verifico – uma vez mais – a falta de respeito das autarquias pelos cidadãos. Uma estação ferroviária tem que estar ligada à localidade por acessos não só automóveis mas também pedonais.

Chego ao centro da Golegã por volta das onze horas. Entro num café. O comboio indicava uma temperatura exterior de sete graus mas, com o stress e a caminhada, sinto calor, embora tenha o cabelo todo molhado. Tanto aqui dentro como através das ruas, os goleganeses que se forçaram a sair de casa, hirtos no interior dos casacos, xailes e cachecóis, temem a morte em cada inspiração de ar fresco e, embora habituados a ver andarilhos de mochila, miram-me com pasmo e silêncio. Vou a pé. Vou sozinha. Vou através dos campos com este frio. O próprio homem do café me fita assombrado quando encomendo um galão, depois mostra o papel com o preço em vez de me dizer quanto devo e por fim analisa com desconfiança a nota de dez euros que eu trouxe de outra galáxia.

Apesar disso… Sinto-me bem, mil vezes melhor do que quando aqui andei no mês de outubro e, como a frescura deve igualmente atemorizar os malfeitores, encontrar-me-ei mais protegida no nevoeiro do que durante a precedente passagem por esta etapa.

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