CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 19 – por José Brandão

 Um reinado menos devasso.

Em comparação com o reinado precedente (o de D. Duarte), a moralidade da corte do Mestre de Avis era mais respeitada e, consequentemente a devassidão mais punida.

O caso de Fernando Afonso, seu camareiro-mor, é uma prova bem frisante desse rigor. Este fidalgo esteve de amores com uma das damas da rainha D. Filipa. Surpreendido quase em flagrante, o rei mandou-o prender. Porém, ele conseguiu fugir e refugiou-se na igreja de Santo Elói. Mas não tardou que o facto chegasse aos ouvidos do rei e D. João I mandou-o queimar.

Mas não se pense com isto que o Mestre de Avis era um santo. A este propósito Alexandre Herculano refere numa das suas obras que apesar de D. João I «não ter sido exemplo de fraquezas humanas», D. Filipa teve mais de uma vez razão de se queixar «das infidelidades do seu real esposo.»

Por seu lado, Pinheiro Chagas faz a seguinte observação: «Diz a tradição popular que D. João I, passeando em Sintra, com D. Filipa e as suas damas, foi-se desviando um pouco do rancho com um donzela por quem tinha alguma predilecção e a quem furtou um beijo, no momento em que a rainha voltando-se o surpreendeu em flagrante: Foi por bem – tentou explicar o monarca. Uma pêga! – disse-lhe a rainha. Ouvindo a frase, D. João volta para junto da sua esposa, tentando desculpar-se mais uma vez da atitude que teve.»

Em memória do caso, construiu-se nos Paços de Sintra a célebre Sala das Pêgas, onde inúmeras destas aves estão pintadas, com a divisa “Por Bem” a sair-lhes do bico.”

Sob os mais diversos aspectos da vida portuguesa a acção de D. João I estimulou o povo a ser cada vez mais um elemento importante da Nação.

A lição da crise de 1383-1385 deu os seus frutos. Todos compreendiam a necessidade de fortalecer o País. Era necessário conseguir que a agricultura, o comércio e a indústria, como bases da riqueza nacional, progredissem, o que não se obtinha sem muitos sacrifícios. Naquela época, eram frequentes as calamidades que se sobrepunham às melhores intenções. Entre as maiores estavam as epidemias. Muitas vezes, essas epidemias vinham até nós trazidas, involuntariamente, por estrangeiros ou portugueses vindos do Estrangeiro. Outras vezes, as epidemias resultavam de maus anos agrícolas, quando as tempestades destruíam as searas ou as grandes secas não as deixavam nascer, e a debilidade física facilitava o acesso e o contágio de doenças graves. A medicina estava muito longe ainda de obter os meios de combate a esses males estranhos, de origem então desconhecida, e que aniquilavam, por vezes, povoações inteiras.

Também estes flagelos, que causavam muito mais vítimas que as próprias guerras, o rei combatia, procurando, por todos os meios ao seu alcance, limitar o mal à região onde surgisse e combatê-lo pelos processos então considerados eficientes.

Não se pense, portanto, que só havia motivos de felicidade, e lembremo-nos de que a rainha D. Filipa de Lencastre, depois de tanto bem praticar e de ser a excelente educadora de seus filhos, também morreu vítima da peste, nas vésperas da expedição a Ceuta, depois de abençoar os filhos que iam partir.

Estava-se em vésperas da conquista de Ceuta quando D. Filipa, subitamente, adoeceu. Lavrava em Lisboa uma grande peste, tendo os reis partido para Sacavém a fim de se refugiarem do mal. Ali começaram, contudo, também a adoecer algumas pessoas, o ar tornou-se pestilento e a epidemia repentinamente alastrou. Terá sido então que a rainha de igual modo a contraiu e, já sem remédio nem esperança de cura, e de pouco lhe valendo uma apressada deslocação para Odivelas, onde se refugiou no Mosteiro. Estava D. Filipa contaminada. Condenada e perdida, por conseguinte.

Conta o cronista Gomes de Zurara que, ao saber ou suspeitar do facto D. João I desesperou.

Após referir que «tamanho era o sentimento que el-rei tomava pela enfermidade da rainha que lhe privava o comer e o dormir» descreve o derradeiro encontro, a separação final e a última despedida entre marido e mulher.

Treze dias durou em Odivelas a agonia fatal de D. Filipa de Lencastre. Em vão lutaram os médicos contra a morte. Percebendo achar-se próximo do fim, pediu a rainha a assistência de clérigos e preparou-se espiritualmente para ela. No dia 18 de Julho de 1415 expirava.

Quase vinte anos sobreviveu D. João I à sua consorte. No decurso deste lapso de tempo, foi transferindo paulatinamente para os ombros do filho mais velho, herdeiro da Coroa, os encargos da regência. Tendo revelado, ao longo da sua vida, sólida visão política, apego ao bem comum, espírito de justiça e firmeza de direcção, a partir de certa altura começou a sentir-se velho e abatido: vacilavam-lhe as forças para continuar a comandar a nau do reino. Desta feita, os últimos anos do governo de D. João I são já de desapego, de renúncia, de transferência efectiva de poder político.

Em 1426, encontrando-se em Sintra, no Paço da Vila, sabe-se que mandou lavrar testamento.

Por fim, e já dobrados os 75 anos, sentiu D. João I a morte aproximar-se. Foi no Verão de 1433. Fez-se então transferir de Alcochete, onde se encontrava a gozar a frescura da lezíria ribatejana, voltou para Lisboa, capital do reino. Aqui chegado, ordenou o rei tudo quanto competia ao seu estado e dignidade: deslocou-se à Sé, onde ficou, meditativo; visitou depois a Igreja de Santa Maria da Escada, onde também orou; e recolheu enfim ao Paço Real, que ficava no castelo de São Jorge. Arribando ao Paço, recebeu os últimos sacramentos.

Foi no dia 14 de Agosto, aniversário da batalha de Aljubarrota.

Meio século havia corrido sobre a data em que D. João I fora aclamado rei de Portugal. À custa de muito sangue, trabalhos e tribulações, a poder de muitas renúncias, encargos e trabalhos, tinha conseguido entretanto, consolidar a independência do reino. Mais: reconhecendo que Portugal era apenas uma nesga de terra entalada na esquina da Península, fora o primeiro rei a cravar uma lança em África, dando assim início ao processo de expansão ultramarina.

A 14 de Agosto de 1433, dia em que completava 77 anos, morria D. João I, por tudo o de Boa Memória.» *

* José Brandão, A Vida Dramática dos Reis de Portugal, pp. 95-105.

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