BARDAMERDA OU BERDAMERDA? – por Carlos Loures

Já contei esta história num outro blogue, mas vou contá-la de novo. É sobre o rigor da linguagem.  Há tempos atrás, o António Gomes Marques trouxe-me uns livros que julgava perdidos – coisa que andava por fora há mais de 50 anos. O nosso António Gomes Marques, trouxe-me os tais livros e notícias que me transportaram para décadas atrás e me levaram a evocar um jovem que fazia do rigor da linguagem uma profissão de fé. Vamos lá então à história.

Muito antes de existir a cadeia de supermercados Pão de Açúcar, havia um café com este nome na Alameda D. Afonso Henriques, na esquina com a Av. Almirante Reis, do lado esquerdo de quem vai na direcção do Areeiro. Ainda existe, pois a amiga Maria Monteiro é cliente assídua e deu-me a informação. Aí, na segunda metade da década de cinquenta, se reunia uma tertúlia constituída na sua maior parte por estudantes. Numa altura em que era, vagamente, estudante e, ainda mais vagamente trabalhador, nessa tão conveniente terra de ninguém da existência, em dias de ociosidade total, passava a manhã no «Chiado», a tarde no «Chave d’Ouro» e a noite no «Pão de Açúcar» ou, em alternativa, no «Ribatejano» (nos Anjos) e para jogar xadrez no «Continental», da Praça do Chile – uma agenda preenchida, como se vê. Foi antes de frequentar o «Gelo» e o «Restauração». As pessoas com quem me encontrava eram diferentes – tertúlias diferentes, Interesses diferentes, gostos diferentes,

No «Pão de Açúcar» a tertúlia era de gente quase toda muito nova, apenas um dos membros era uns anos mais velho (já licenciado e professor, veio depois do 25 de Abril a ser Governador de um distrito, creio que pelo PS). Falava-se, sobretudo, de garotas e, às vezes, comentava-se livros ou filmes. Um dos membros do grupo, hoje um ilustre advogado, tinha na altura a mania de corrigir o português a toda a gente. Uma versão ambulante, avant la lêtre e reduzida (pois é baixito) do acordo ortográfico. Corrigia, inclusive, o mais velho, o professor, que dava, a ele também, gratuitamente, explicações de latim aos necessitados de tal saber. Como um Smart com buzina de camião TIR, o nosso amigo tinha uma voz estentórea. Usava uma barba grande e descuidada. Alguém lhe pôs a alcunha de “Thunder”, pela razão que se adivinha. “Thunder”, bom rapaz, era um tormento.

«Não se diz “à última da hora”, basta “à última hora”; dizer «outra alternativa é» está errado, basta dizer «a alternativa é», não é «ciclo vicioso, é círculo vicioso»… Havia dias em que não se podia aturar. Uma noite, não me lembro porquê, alguém mandou outro «bardamerda». A coisa estava feia, à beira do confronto físico, quando o “Thunder” salta da cadeira e corrige com a sua voz possante: « Alto lá! Não se diz bardamerda, diz-se berdamerda».

Banzados, os dois que se estavam a pegar esqueceram-se da zanga e sentaram-se. Todos escutámos atentamente as razões do Thunder: primeiro, disse que se tratava de um «chulismo» e nós ficámos na mesma – sinónimo de «palavrão», «asneira», explicou. Houve perguntas. Esclarecidas as dúvidas voltou-se à berdamerda. Explicou que o termo se aplicava a um tipo sem valor, a um zé-ninguém – desses se dizia serem uns berdamerdas. Mas também se podia usar como interjeição – «Ora, vai berdamerda!», exemplificou, o que ia dando para os dois continuarem a discussão onde tinham parado. Aceitámos a explicação do “Thunder”, mas um rapaz que andava no Técnico, objectou: «Eu cá vou continuar a dizer bardamerda». E ficámos por ali. Chegado a casa fui ao único dicionário que na altura tinha (e que conservo) o da Porto Editora, de J. Almeida Costa e A, Sampaio e Melo, e procurei – nada. Nem bardamerda, nem berdamerda… Fiquei convencido de que o “Thunder” inventava coisas, falsas erudições, só para nos poder corrigir.

E procurei noutros dicionários que fui comprando, ao longo dos tempos, alguns de grandes conteúdos. Até hoje. Ao confirmar, para um trabalho chato que estou a fazer, uma acepção de «berchémia» ou «berchemia», nem queria acreditar, o dedo deteve-se primeiro, os olhos logo a seguir e ao cérebro chegou o milagre: ali estava a entrada «berdamerda» e até explicava que se tratava de um «tabuísmo» cuja forma popular é «bardamerda»., um tab. pop – tabuísmo popular, vi no quadro de abreviaturas. Até aprendi uma expressão nova – tabuísmo = tabu+ismo. O “Thunder” estava certo. Já é noite avançada, devia ter-me ido deitar mas vim escrever este texto, partilhando convosco este sentimento de estar tardiamente a fazer justiça ao saber de um amigo. Porque a justiça nunca se deve deixar para o dia seguinte. – “Thunder”, para que conste: – és o maior!

Já agora: o dicionário que, cinco décadas depois, vem fazer justiça ao Thunder, é o do Antônio Houaiss.

Quem se enganou também foi o almirante Pinheiro de Azevedo. A 12 de Novembro de 1975,estando o Parlamento cercado por operários da construção civil em greve, alguns manifestantes chamaram fascista ao primeiro-ministro, o almirante Pinheiro de Azevedo. A resposta não se fez esperar: “Bardamerda para o fascista!”. Nos meios de esquerda (e não só), o almirante passou a ser conhecido pelo «Bardamerda». No vídeo, vemos e ouvimos a entrevista que o almirante deu aos jornalistas quando saiu do sequestro. Não consegui encontrar vídeo do momento da famosa resposta.

1 Comment

  1. O almirante não se enganou, Carlos. O almirante usou a forma popular…
    Agora, em “tabuismo popular” (pelos vistos, “berdamerda” será a forma erudita) é que nunca tinha ouvido falar. De facto, a minha concepção (que acreditava correcta) deste conjunto de palavras, a que os confrades da D. Bobone usam chamar “palavrões” e que os dicionários resolveram, finalmente, acolher sob a designação (infeliz, do meu ponto de vista) de “tabuísmos”, é de que se trata de designações populares para coisas e actos de que era proibido falar (pela “madre egreja” e outros zeladores dos bons costumes e da ignorância – que, por isso, por vezes se adjectiva de “santa”). Ora, como, em geral, do que se trata aqui é dos chamados “factos da vida” (que as pessoas “de bem” só enfrentavam nas casas de putas, que frequentavam – os machos dessa espécie – por causa da sua “higienezinha”, como dizia a personagem do Eça), havia que os nomear, o que o povo, naturalmente, fez e bem. Donde, na verdade, o tabu deveria referir-se às designações eruditas, de que as pessoas “decentes” fugiam (excepto nas tais frequências…) e os profissionais que eram obrigados a estudá-las – médicos, veterinários, juristas e outros sofredores – obliteravam, recorrendo, para a sua nomeação e descrição, ao recato do latim… Afinal, eu estaria errado. Estamos sempre a aprender!

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