CARTA DE VENEZA – EXTRA – por Sílvio Castro

 “O fim em antecipação do papado de Bento XVI”

 

O anúncio feito em 11 de fevereiro deste 2013 pelo Papa Bento XVI quanto à sua intenção de renunciar à própria qualidade de bispo de Roma e consequente sucessor de Pedro, além de surpreender a quase absoluta maioria dos homens, historicamente transformados então em testemunhos de um evento epocal, leigos ou crentes que fossem, praticamente inaugura o novo milênio. Fixando com grande segurança e convicção o dia 28 de fevereiro do mesmo 2013, às 20 horas de Roma, o momento preciso do fim de seu papado, Bento XVI fez ressoar em todo o mundo a nova linha de modernidade que a Igreja Católica  assume e que deverá ser a imediata referência de comportamento para o próximo papa.

A modernidade do gesto de Ratzinger, além da clareza das diretas razões de saúde por ele comoventemente enunciadas, a velhice que a cada ano pesa sempre mais e a consequente perda de forças pessoais, está principalmente na dimensão ética que caracteriza a decisão histórica do Papa alemão. Nela, ao direto conceito expresso de renúncia, vai aliado aquele outro de demissão do governo da Igreja. O primeiro tem apôio nos cânones que guiam a posição do Papa na vida e na história do cristianismo. A renúncia, este segundo conceito impregnante do gesto papal, modifica até mesmo grandes fontes dos mesmos cânones e de toda a Igreja. Com ele, Papa Ratzinger faz com que o poder temporal da Igreja assuma dimensões até então encobertas, bem como esclarece o mais límpido pensamento de Bento XVI sobre a natureza de sua fé. Além de ser um ato de grande humildade, o é igualmente de clara razão pessoal e existencial.

Em verdade, desde a sua eleição pontifícia, Ratzinger sempre demonstrou

uma imediata predisposição à liberdade pessoal quanto às questões de ética. Ele assim se comportava, possivelmente, por ser um Papa alemão, de cultura religiosa e teológica sempre em confronto com a longa tradição luterana de sua terra; por ter demonstrado sempre um acurado sentido de liberdade nos seus atos pessoais; bem como por ser também um professor de filosofia. Por todas essas razões, Ratzinger  sempre apresentou-se como um Papa capaz de gestos de amplas dimensões. Mesmo quando expremia, em particular em suas viagens no exterior, conceitos que não sempre repercutiam como testemunhos de coerente reconhecimento dos ambientes visitados, mesmo então Bento XVI sempre sabia deixar atrás de si a presença de uma sua dimensão ética pronta a gestos revolucionários. Foi o que aconteceu na sua viagem ao Brasil quando, diante dos bispos brasileiros, a maioria dos quais partecipantes ativos do movimento Teologia da Liberação, Ratzinger não soube encontrar-se frontalmente com a linha de comportamento da mais moderna parte da Igreja brasileira.

No dia 11 de fevereiro, Ratzinger mudou a história da Igreja Católica. A sua demissão, feita com grande sentido de humildade e de grande firmeza, revela que o poder temporal da mesma deve ser criticamente dissociado daquele espiritual. A igreja é substancialmente o poder espiritual em ação, enquanto aquele temporal é uma circunstancial manifestação católica, justificada somente pela universalisação de seu espaço, o mesmo que tem no Vaticano a sede política privilegiada.

Ratzinger se dimete como qualquer chefe de estado ou de governo. Diante de tal gesto, o significado da renúncia papal assume dimensões de absoluta modernidade. Trata-se de um gesto único, diverso de quantos outros se contavam na história do catolicismo, mesmo se comparado àquele mais famoso de Celestino V.

Além da absoluta distinção entre as épocas dos dois eventos, na decisão de um “pobre cristão” do século XIII qual o era Celestino – papa eleito sem uma clara adesão pessoal ao novo encargo, para ele como incompatível com a sua irresistível predisposição à vida de eremita – reentra igualmente a dependência dos órgãos eclesiásticos aos soberanos da época. Por isso mesmo, Celestino V, logo depois de sua renúncia, foi arrastado de seu ermo reconquistado para as prisões do rei de Nápoles, com a benedição do novo Papa, Bonifácio VIII.

O “polvero cristiano“, ao contrário de como Dante o trata no canto II, de o Inferno, da Divina Comédia, vem colocado no homônimo romance de Ignazio Silone – do qual existe uma tradução portuguesa – como um herói da humanidade.

A decisão histórica de Bento XVI permanece um ato único na história da igreja católica. Joseph Ratzinger nasceu em Marktl am Inn, no Passau, Alemanha, no dia 16 de abril de 1927. Subiu à cátedra pontifícia no dia 19 de abril de 2205, assim fazendo-se o 265° Papa da história. O pontificado durou, até o dia fixado pelo mesmo Bento XVI, este 28 de fevereiro de 2013, 2.872 dias.

O Papa Woytila, antecessor de Bento XVI, morreu sem abdicar, mesmo se destruído em sua saúde, porque como dizem os seus mais diretos servidores, “não se pode descer daquela cadeira“. O Papa Ratzinger dela desceu conscientemente, negando com grande humildade, toda e qualquer condescendência com o poder absoluto daquela cátedra.

5 Comments

  1. Li, há muitos anos, um romance ou novela sobre a vida deste papa, ou inspirado nela. E era excelente. Como, quando se separou da minha mãe, o meu pai levou alguns dos livros a que estava mais ligado, é possível que este estivesse entre eles, já que nunca mais consegui encontrá-lo. Sei que não era o do Silone porque também já o li, mas no original italiano e muitos anos mais tarde. Alguém se lembra de qual poderá ser esse outro livro? Gostava de reencontrá-lo.

  2. De facto, não esclareci. O “Decameron” tenho, em tradução portuguesa, creio que completa. O livro que procuro é sobre o Celestino V. Não te ocorre nada? De qualquer modo, obrigado. E até ao abraço pessoal, em Abril. Vou ficar na Fondamenta Gerardini, a dois passos do Campo santa Margherita (se não houver greve da TAP…)

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