SEGUNDA IMPRESSÃO, por ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

 

O meu amigo Praxedes acordou hoje bem disposto, com a inteligência lúcida e a boca fresca. Antes de mais nada, reclamou o jornal. Logo na primeira página, vinha a notícia do comício dos inquilinos. Praxedes, que acabava de ser aumentado violentamente na renda da casa, exclamou:

― Marotos! Imaginavam que isto ficava assim? Era melhor. Um cidadão a trabalhar duas horas por dia numa repartição para ganhar o pão da família e a farinha Nestlé dos filhos e a ser espoliado por um bandido qualquer. É senhorio do prédio? E depois? Que tem isso? Quem sabe lá onde ele iria buscar o dinheiro com que mandou fazer a casa. Oh Genoveva!

Sua esposa Genoveva compareceu.

― Tira-me para fora a sobrecasaca e a bengala de unicórnio. Esta tarde vou ao comício.

― Oh filho! Não te exaltes. Vê lá se te partem a bengala, que é de estimação.

― Não há dúvida. Isto não fica assim. Com este aumento inesperado como havia eu de pagar aqueles cinquenta mil reis que o meu compadre me emprestou, há dois anos, e que fiquei de liquidar a cinco mil reis por mês?

E, firme no propósito de ir ao comício, continuou Praxedes lendo o jornal. Começaram a aparecer as tentações: concurso hípico, touros em Algés, as hortas com o peixe frito, a música na Avenida, exposição de pintura e de flores, o diabo enfim. Tudo isto ― mais o sol que entrava pela janela dentro ― mudou a cor dos pensamentos de Praxedes.

Ao rebentar das três aconselhou à mulher:

― Oh Genoveva. Veste o vestido claro e tira-me para fora o fato de alpaca. Vamos até à feira.

― Então não vais ao comício?

― Eu não. Está muito calor.

― Pois tu deixas passar, assim sem mais nem menos, estas poucas vergonhas do aumento da renda?!

― Sei lá! Eu não gosto de andar metido em chicanas. Já reflecti que o melhor é pagar o que o senhorio quer e ficar a dever os cinquenta mil reis ao meu compadre.

E o Praxedes foi para a feira.

25 de Maio de 1913

IN PRAXEDES, MULHER E FILHOS. CADASTRO DE UMA FAMÍLIA LISBOETA. 1916, GUIMARÃES & C.ª, EDITORES. RUA DO MUNDO, 68 – 70. LISBOA.

Esperamos que não levem a mal termos actualizado a ortografia deste texto com quase cem anos.

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