EDITORIAL – O significado das Manifestações de ontem

Diário de Bordo - II

Fala-se num milhão e meio de manifestantes nas ruas do País, sendo oitocentas mil em Lisboa e quinhentas mil no Porto. È muita gente, mas temos a convicção de que a situação não se resolve com manifestações; em todo o caso, a adesão maciça que estas manifestações de protesto contra este executivo, são um sinal inequívoco de que o descontentamento é geral. É também significativa a recuperação de “Grândola, Vila Morena” como «hino» do repúdio generalizado.

Dizemos que não é com manifestações que se resolve esta situação complicada em que nos encontramos – um governo eleito de acordo com os princípios institucionais e que, apoiando-se nesses princípios, retira a protecção que a Lei Fundamental garantia às classes trabalhadoras. Nem com manifestações, nem com greves, nem com o uso da liberdade de expressão, nem (muito menos) com as intervenções das oposições no Parlamento. Também compreendemos que uma intervenção das Forças Armadas não se justifica – a não ser que se faça no sentido estrito de repor a legalidade constitucional violada por este bando de crápulas que ascendeu ao governo. Mas sabemos, e o general Pezarat Correia já no-lo recordou, que as intervenções militares fazem «Revoluções de cravos», mas também podem dar passagem a ditaduras, como aconteceu em 1926.

Este executivo, apoiado pelas forças internas e externas do poder económico, é surdo a protestos, a greves, a artigos de opinião, a discursos parlamentares… Numa conferência do PSD, em Lisboa, um dos seus elementos mais influentes, o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, propôs há dias atrás “alterações profundas do sistema político” no período pós troika. Não explicou no que consistiriam essas profundas alterações, mas é previsível que a ideia seja rever a Constituição à luz dos tais interesses de dentro e de fora, adequando-a, moldando-a a esses objectivos. Ou seja, com pezinhos de lã, sem aparato, anuncia-se uma contra-revolução. E nós com receio, com pruridos democráticos. A situação não se resolve com manifestações – perante o quadro que se está a esboçar, em que se apontam retrocessos, perda de direitos conquistados, em que se ameaça voltar a uma situação de injustiça social que parecia ultrapassada, o que se justifica é uma revolução.

Uma revolução que mobilize os trabalhadores europeus e crie um novo paradigma político, é a única maneira de erradicar do poder esta gente que, em Portugal e nos outros países europeus, fala em nome dos povos e, através de mecanismos democráticos, destrói a essência da Democracia. No entanto, manifestações como a de ontem, são sinais inequívocos de que quem oprime e quem rouba tem razões para ficar preocupado.

2 Comments

  1. Aristóteles, quando falava destas coisas, distinguia as revoluções das rebeliões. As primeiras realizavam-se contra regimes opressores, contra tiranos; as segundas, as rebeliões, verificavam-se em regimes democráticos pela população descontente com o rumo dos acontecimentos. Muitas vezes as revoluções acabavam em democracias e as rebeliões em tiranias. O general Pezarat Correia tem, por isso, razão e bom senso no que diz.

    Regressando aos nossos tempos, que oscilam entre democracia e pós-democracia, julgo que o poder político tem de ser conquistado no jogo da democracia e não contra ela. Os cidadãos preocupados devem em primeiro lugar, organizar-se, invadir o espaço político e não só o público, com o seu discurso. Devem integrar partidos ou constituir partidos alternativos aos tradicionais e fazer valer as causas que defendem contra os poderes instalados, antagonizando nas novas e nas velhas “ágoras”.

    Devem ser colocadas novas questões em cima da mesa da política, como por exemplo:

    – Como combater o desemprego e visar o pleno emprego?
    – Deverá Portugal continuar na Zona Euro ou deverá sair e aliar-se aos outros países da U.E. que mantêm as suas moedas e por isso não perderam soberania nem um poderoso instrumento – a política monetária – para enfrentar a crise financeira, económica e social? Afinal, de que nos serve um Euro sobrevalorizado (uma moeda forte), ao gosto alemão, se precisamos de exportar mais?
    – Deve Portugal abandonar a U.E.?
    – O que deve permanecer no Estado e o que pode ser privatizado?
    – As portagens deverão ser retiradas das auto-estradas? Que custos e benefícios uma decisão dessas acarretará para os cidadãos e para a economia?
    – Deverá haver um tecto para as pensões mais elevadas?

    Etc., etc., etc.

  2. Excelente comentário. A questão que quisemos colocar foi – é possível corrigir uma realidade jogando um jogo cujas regras são ditadas por um adversário que as vai mudando de acordo com os seus interesses? Todas as questões que coloca são pertinentes, mas insolúveis se quisermos seguir «o jogo democrático». Daí o necessitarmos de uma Revolução (de Aristóteles aos nossos dias, o campo semântico de palavras como «rebelião» e «revolução» foi enriquecido com exemplos históricos, com abonações que lhes conferem espaços significantes mais precisos). Uma rebelião seria uma agitação da turba ou populaça (como Platão define na sua “República” – Uma Revolução, uma transformação social feita de acordo com os interesses da maioria, é aquilo de que, na nossa opinião, necessitamos.

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