FERNÃO ÁLVARES DO ORIENTE
( c. 1530 – c. 1600)
“ARMADA D’ASPEREZA, MINHA ESTRELA”
Armada d’aspereza, minha estrela
a nova dor me leva e m’encaminha,
mas s’uma glória vi perder-se asinha,
foi, por quem a perdi, glória perdê-la.
Sucede nova dor, nova querela,
à liberdade que gozado tinha.
Não sei remédio dar à mágoa minha,
e quem lho pode dar não sabe dela.
Que alívio logo em meu tormento espero,
se a que mo causa n’alma não o sente,
senão se o vê nos olhos com que a vejo?
Porém, ah doce amor, eu antes quero
passar convosco vida descontente,
que contente viver sem meu desejo.
(de “Lusitânia Transformda”)
O soneto faz parte da novela pastoril “Lusitânia Transformada”, obra só publicada em 1607. O autor, feito “cavaleiro fidalgo” em 1517, tomou parte em várias expedições e campanhas no Índico, ficou prisioneiro em Alcácer-Quibir, teve cargos importantes no tempo dos dois primeiros Filipes, embora na novela pareça lamentar a perda da independência (Óscar Lopes).

