POESIA AO AMANHECER – 151 . por Manuel Simões

poesiaamanhecer

FERNÃO ÁLVARES DO ORIENTE

( c. 1530 – c. 1600)

“ARMADA D’ASPEREZA, MINHA ESTRELA”

Armada d’aspereza, minha estrela

a nova dor me leva e m’encaminha,

mas s’uma glória vi perder-se asinha,

foi, por quem a perdi, glória perdê-la.

Sucede nova dor, nova querela,

à liberdade que gozado tinha.

Não sei remédio dar à mágoa minha,

e quem lho pode dar não sabe dela.

Que alívio logo em meu tormento espero,

se a que mo causa n’alma não o sente,

senão se o vê nos olhos com que a vejo?

Porém, ah doce amor, eu antes quero

passar convosco  vida descontente,

que contente viver sem meu desejo.

(de “Lusitânia Transformda”)

O soneto faz parte da novela pastoril “Lusitânia Transformada”, obra só publicada em 1607. O autor, feito “cavaleiro fidalgo” em 1517, tomou parte em várias expedições e campanhas no Índico, ficou prisioneiro em Alcácer-Quibir, teve cargos importantes no tempo dos dois primeiros Filipes, embora na novela pareça lamentar a perda da independência (Óscar Lopes).

 

Leave a Reply