CUIDEMOS DA TERRA E DO UNIVERSO. E ELA E ELE CUIDARÃO DE NÓS – por Mário de Oliveira*

Com a devida vénia e os nossos agradecimentos, transcrevemos o Editorial  nº 55 do jornal Fraternizar

Sem papa no Vaticano – aquele que estranhamente ainda lá está, já não está, e tem, por isso, tudo de papa-fantasma! – e com dirigentes da União Europeia, todos muito mais papistas que o Papa – tão cristãos laicos/ateus, eles são! – os povos, cidadãos europeus, andam por aí perdidos/deprimidos, a pensar no suicídio, sem termos sequer notícia deles, já que todas as tvs existem só para nos entreter e esconder a realidade, servir-nos overdoses de novelas e de jogos de futebol, de escândalos sexuais de bispos e de padres – atirem-se à lei do celibato obrigatório, estúpidos, não aos padres e aos bispos, vítimas dela! – e, nestes nossos dias de início de Março 2013, também overdoses de enviadas, enviados especiais ao Vaticano, para nos mostrarem as barrigas grandes dos cardeais, as vestes vermelhas, os anéis e os barretes dos cardeais, as poucas vergonhas dos cardeais, juntamente, com a sumptuosidade dos palácios e das basílicas de Roma, sem nunca a contrastarem com a indignidade humana dos milhões e milhões de europeus sem casa, sem trabalho, sem família, sem afectos, sem projectos, sem sonhos, e, por isso, medonhamente, paralisados de medo.

A verdade é que já estamos a bater no fundo na Grécia, na Irlanda, em Espanha (mais de 5 milhões de desempregados, é muito desempregado, porra!), em Portugal, onde o Estado, em 2014, tem de desembolsar, só em juros da dívida, 7,8 mil milhões de euros (é muito euro, porra! e só em juros de dívida; calculem, agora, de quantos mil e mil milhões será a dívida e, por fim, quando é que nos vamos ver livres dela!), e também na Itália e na França, embora, nestes dois países do grande capitalismo, o fundo onde já se está a bater, seja um pouco mais almofadado. Mas de nada adianta, quando os povos esfarrapados da União Europeia se levantarem, desarmados, e, com eles, levantarem a Europa.

Não há capitalismo que resista, quando as suas inúmeras vítimas se levantam, desarmadas, da vala comum, em que jazem, sistematicamente condenadas pelos seus algozes. Até agora, as vítimas têm sido levadas a pensar que o são por vontade de Deus, por destino, ou pela natureza das coisas. O cristianismo de Pedro e de Paulo, de Constantino e do Papa de turno, como o das igrejas protestantes, formatou, durante estes dois mil anos, como bem lhe apeteceu, a mente/consciência dos povos. Ensinou-lhes essa enormidade antropológica-teológica plenamente obscena. Mas, neste início do terceiro milénio, o próprio cristianismo está também a bater no fundo e, neste caso, felizmente, porque, com o fim do cristianismo, está cada vez mais próxima a hora da nossa libertação, como Povos da Europa e do Mundo.

Precisamos, entretanto, de nos libertarmos rapidamente de toda a idolatria religiosa, beata, sacrificialista e, até, turística, do cristianismo católico romano e também do fundamentalismo bíblico do cristianismo protestante. Para começar, devolvamos a Bíblia aos Judeus, porque ela é deles e eles que façam com ela o que entenderem. Fiquemos apenas com os 4 Evangelhos em 5 volumes, escritos na clandestinidade contra o cristianismo nascente, e que estão, abusivamente, na Bíblia judeo-cristã, mas não são dela. E, com eles, lidos/interpretados na clandestinidade, até, talvez, os Judeus da actualidade ainda cheguem a descobrir que, entre meados do ano 28 e Abril do ano 30, desta nossa era comum, viveu e pregou na sua Galileia de então, um judeu camponês-artesão de Nazaré, que teve o arrojo de atirar com a Bíblia dos antepassados às urtigas, já que, com base nela, os camponeses eram todos os dias esmagados/condenados à condição de escravos no seu próprio chão, na altura, militarmente, ocupado pelos exércitos do império de Roma, a mesma, onde hoje ainda impera o seu sucessor, o Papa, com tudo de divino e, por isso, de perverso, de faz-de-conta, nada de humano. Quando se apela à Bíblia (= livros), ou a um outro livro sagrado qualquer, para perpetuar e justificar o intolerável, concretamente, a existência de pobres e de pobreza em massa, quanto mais de Deus tais escritos se reclamarem, mais têm de ser atirados às urtigas, ou lançados fora, para serem pisados pelos homens, já que, como o sal que perde a força de salgar, nem para a esterqueira servem.

O Cristo/cristianismo de Pedro e de Paulo, de Constantino e do Papa de turno, católico romano ou protestante, roubou-nos, e aos Povos, Jesus e o seu Projecto político e, com este seu crime de lesa-realidade/verdade e de lesa-humanidade, conseguiu manter-nos e aos Povos, submissos, paralisados, cegos, coxos, surdos, mudos, servos-da-gleba, pagadores de promessas e de dízimos, numa palavra, crucificados na cruz que o império romano inventou para aterrorizar/castigar, de forma exemplar, quem se levantasse politicamente contra ele. Por sinal, essa mesma cruz que o Cristo/cristianismo de Pedro e de Paulo, de Constantino e do Papa de turno, tanto cultua, beija, adora e tem-na, até – é o cúmulo da desfaçatez e do cinismo! – como a salvação/redenção dos Povos! Felizmente, está a chegar ao fim o tempo de toda esta mentira antropológica-teológica. Esta é, já, a era pós-cristã. Tem de começar a ser a era de Jesus e do seu Projecto político maiêutico, em que os Povos são os únicos protagonistas, nunca mais o Poder financeiro, político e religioso-sacerdotal.
Alerta, pois, Povos da Terra. Já se ouvem os rumores da chegada da nossa libertação. Sem messias/cristos, nem intermediários de nenhuma espécie. Deixemos definitivamente vazios os templos e os santuários, as catedrais e as basílicas. Nem como turistas lá entremos. Das suas paredes e obras de arte, escorrem rios e rios de sangue das vítimas sacrificadas, nestes dois milénios, ao Deus dos seus sádicos sacerdotes e pastores. Deixemos também vazios, os palácios do Poder. Como espaços-fantasma de um passado que nunca mais há-de voltar. Ocupemos o tempo uns com os outros, braços abertos, como meninas, meninos. O Poder que se lixe. A Terra e o Universo são dos Povos, não do Poder. Cuidemos de uma e de outro. E ela e ele cuidarão de nós, num estilo de vida quotidiana, plena e integralmente, humana, feita de simplicidade, de afectos partilhados, de sororidade maiêutica, de mesas comuns, por isso, de liberdade. Sempre com Deus. E sempre como se Deus não existisse. Eis.

Leave a Reply