PRAXEDES ANTI-SUFRAGISTA, por ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

 

Esta manhã encontrei o Praxedes arreliado.

― Que tem você, homem, que traz essa cara de sexta-feira? ― inquiri com a simpatia que me merece tão prestimoso cidadão.

― Ora imagine que esta manhã tive que dar com um prato de açorda na cara de minha mulher…

― Porquê! Foi receita de médico?

― Não. Foi por causa disto.

E Praxedes saca do bolso um jornal da manhã, que insere o retrato da marechala sufragista norte-americana a cavalo, com um chapéu masculino na cabeça e umas botas até aos sovacos.

― Não percebo…

― Eu explico-lhe. Esta manhã abro esta gazeta. Estávamos à mesa e digo para a minha metade, mostrando este boneco: ― É para que vejas, Genoveva, até onde pode chegar a madureza de certas mulheres! ― Que tem isso? ― pergunta ela abespinhada. ― O que tem? Pois tu não vês esta madama montada num bucéfalo, capaz de cair e partir a cabeça e tudo isto para ter voto nas eleições! ― Faz ela muito bem. Nunca o assento doa a essas que, de cima de uma cavalgadura, pugnam pelos direitos do meu sexo. Chegou a hora de nós, as escravas, arvorarmos o pendão da revolta! ― Oh filha, então tu queres arvorar o pendão contra mim, que te faço todas as vontades, que sou um pau mandado nas tuas mãos, que me deixo governar só para não te ver zangada?! Que mais queres tu? Votar? Tu que entendes de política? Queres ser deputada? Queres ser presidenta do conselho?― E porque não? ― perguntou  ela, toda senhora do formidável nariz que herdou da família ― E, enquanto tu estivesses a falar nas Cortes, quem é que arrumava a casa, me cosia a roupa, dava ordens à Balbina, nossa sopeira? ― Eu sei lá! ― Isso é um disparate. Não digas mais asneiras, Genoveva, e almoça, anda. ― Já não quero almoçar. Tens o condão de me tirar o apetite! Ah! Bem me dizia minha mãe, quando éramos noivos, que não casasse com semelhante papa-açorda.

― Pois a D. Genoveva disse-lhe isso? indaguei  eu surpreso.

― Diz-mo sempre quando está zangada. E eu, que sei que sou um papa-açorda, mas não gosto que mo chamem, quis fingir que o não era e zás! Ferrei-lhe na cara com o prato que tinha adiante de mim.

― Oh! Numa mulher nem com açorda se bate! ― exclamei, todo Marivaux.

― Isso sei eu. O resultado foi que, para a amansar, tive que lhe prometer que ia arranjar um camarote de borla para o teatro, que no domingo a levava aos touros e que para Agosto lhe comprava um vestido branco. Ah! É verdade. Ainda tive que limpar o oleado da açorda entornada. Veja, meu amigo! No fim de tudo isto, ainda as mulheres querem o direito de voto.

4 de Junho de 1913

IN PRAXEDES, MULHER E FILHOS. CADASTRO DE UMA FAMÍLIA LISBOETA. 1916, GUIMARÃES & C.ª, EDITORES. RUA DO MUNDO, 68 – 70. LISBOA.

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