Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota
Lições dos anos de 1930
The Economist, Lessons of the 1930s
Parte III
(CONTINUAÇÃO)
A lógica de Snowden de ontem
A política monetária que hoje é aplicada ainda não é uma política deliberadamente de taxas de juro altas, como o foi então na América, na década de 1930. Como o The Economist passou a considerar, esperava-se que o Banco Central Europeu (BCE) anunciasse uma nova redução nas taxas de juros. Mas, em muitos lugares a política orçamental está a mover-se rapidamente naquela direcção. A política de relançamento da economia desencadeado por Obama está a reduzir-se; continuam os cortes orçamentais ao nível do governo local e federal. Os candidatos republicanos à Presidência com os seus argumentos fazem lembrar fortemente os argumentos de Morgenthau, pretendo-se ou defendendo-se que o défice financiado pelo estímulo tem poucos efeitos positivos sobre a economia mas que aumenta sobretudo as obrigações dos futuros contribuintes. O Presidente Obama, tal como Roosevelt, começou por insistir na necessidade de cortes orçamentais. Se os actuais cortes de folha de pagamento de impostos e se os subsídios de desemprego da situação de emergência foram revogados, o crescimento durante o próximo ano seria reduzido em um por cento do PIB.
E a América não está sozinha. Sob a direcção de David Cameron, o governo britânico extremamente endividado introduziu um programa rigoroso de consolidação orçamental em 2010, para evitar uma perda de confiança na sua capacidade de obtenção de crédito. A lógica era semelhante aos cortes efectuados pelo Chanceler Philip Snowden com um orçamento de austeridade para a situação de emergência que ele aplicou em 1931, com o seu endurecimento na tributação e de cortes nas despesas públicas. Nessa ocasião não foi restaurada a confiança, e a Grã-Bretanha foi forçada a desvalorizar a libra e a abandonar o padrão-ouro. Nessa ocasião as medidas impostas teriam certamente impulsionado a confiança dos investidores, e assim os rendimentos dos títulos da dívida pública; mas agora o país ainda enfrenta uma segunda recessão que é em grande parte devido a problemas na zona euro. Dito isto, a possibilidade de tais choques deve ser sempre tomada em conta e exigir cuidado quando um governo embarca numa política de consolidação orçamental.
Alguns dizem que a consolidação orçamental não precisa de ser dolorosa. Em 2009, Alberto Alesina e Silvia Ardagna, de Harvard, publicaram um livro em que defendem que a austeridade poderia ser expansionista, sobretudo se for centrada em cortes nas despesas públicas e não em aumentos de impostos. Os cortes no orçamento que reduzem as taxas de juros estimulam os investimentos assim como facilitam a obtenção de empréstimos e mudando as expectativas sobre as futuras cargas da dívida pública também podem estimular o crescimento. Outros economistas duvidam disto. Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de Julho deste ano considerou que Alesina e Ardagna identificaram mal os episódios da austeridade e assim exageraram os benefícios das reduções no orçamento, que normalmente trazem a contracção económica e não a expansão da economia.
Roberto Perotti da Universidade Bocconi estudou exemplos de expansão em tempos de austeridade e mostrou que esta expansão está quase sempre ligada ao crescimento das exportações ligadas à depreciação da moeda. Na década de 1930 o impacto na contracção da economia devido aos cortes orçamentais na América foi mitigado, em certa medida, por uma melhoria nas exportações líquidas; a posição do comércio externo americano passou de um défice de 0,2% do PIB para um excedente de 1,1% do PIB entre 1936 e 1938. Agora, muitos dos países à escala mundial estão a cortar nas despesas públicas e não é provável que haja alguma destas economias que possa reduzir a sua recessão pelo aumento das exportações.
A importância da política monetária na década de 1930 pode sugerir que os bancos centrais poderiam compensar os efeitos dos cortes fiscais. Em 2010, o FMI escreveu que uma política monetária expansionista da Grã-Bretanha deve atenuar o impacto recessivo dos grandes cortes no orçamento e “estabelecer as bases para uma recuperação sustentável”. Ainda agora a Grã-Bretanha está cada vez mais perto da recessão e o desemprego é crescente, sugerindo que há limites para o que um banco central possa fazer.
O movimento para a austeridade é mais dramático na zona euro — pelo menos para aqueles que a têm de fazer . Ao operarem sem moedas flutuantes ou sem um refinanciador de última instância, a sua situação presente faz relembrar fortemente os dolorosos ecos do mundo do padrão-ouro da década de 1930.
Em meados de 1920, depois de uma programação inicial de pagamentos de reparações de guerra verdadeiramente insustentável ter sido revista, os credores franceses e americanos impressionados com a possibilidade de um rápido crescimento da combalida economia alemã começaram a investir neste país. O fluxo maciço de capitais ajudou a Alemanha a ter capacidade para financiar o pagamento das suas obrigações soberanas e levou a que os salários aumentassem fortemente. A Alemanha foi assim sujeita a um boom estimulado pelo crédito como o que foi visto na periferia europeia em meados da década de 2000.
Em 1928 e 1929, a festa terminou e o fluxos de capital inverteram-se. Primeiro, os investidores enviaram o seu dinheiro para os Estados Unidos para apostarem agora no seu mercado em expansão crescente. Em seguida, eles saltaram para fora da Alemanha, em resposta ao pânico financeiro. Para defender as suas reservas de ouro, o Reichsbank alemão foi obrigado a aumentar as taxas de juros. De repente, privado de dinheiro estrangeiro, e incapaz de se apoiar nas exportações para o crescimento e como a situação anterior de boom económico tinha gerado um aumento insustentável dos salários, a Alemanha retomou as políticas de austeridade para tentar cumprir as suas obrigações, tal como a Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha o têm estado a fazer. Um país com uma moeda flutuante poderia esperar uma melhoria mesmo que ténue quanto às saídas de capital: a taxa de câmbio poderia cair e, com isso, aumentariam as exportações. Mas a taxa de câmbio da Alemanha estava fixada pelo padrão-ouro. A competitividade só pode ser restaurada através de um lento declínio nos salários, o que ocorreu tal como ocorreu o desemprego a aumentar .
À medida que as políticas de austeridade se tornavam cada vez mais fortes, os bancos passaram a ficar sob maior pressão. A economia austríaca enfrentou problemas semelhantes aqueles com que a Alemanha se debatia e, em 1931, a falência do maior banco da Áustria, Credit Anstalt, provocou uma perda de confiança nos bancos que rapidamente se difundiu. Com a pressão criada na Alemanha, os líderes das maiores economias repetidamente se reuniram para discutir a possibilidade de assistência para a economia em situação altamente insustentável. Mas os franceses, em particular, não queriam admitir nenhuma redução da dívida da Alemanha e dos pagamentos de reparações de guerra.
Reconhecendo que a ausência de um refinanciador de última instância, de último recurso, ia alimentando o pânico, o governador do Banco de Inglaterra, Montagu Norman, propôs a criação de um organismo que funcionasse como o credor internacional. Ele recomendou que fosse criado um fundo e capitalizado com US $ 250 milhões, a poder ser alavancado ainda por um adicional de US $ 750 milhões e com poderes para poder emprestar aos governos e aos bancos com necessidade de capital. O plano, provavelmente, muito modesto, não deu em nada porque a França e os EUA, detentores do ouro necessário para a alavancagem, não o aprovaram .
Assim, os dominós caíram. Apenas dois meses após a falência de Credit Anstalt deu-se a falência de um grande banco alemão, o Danatbank. O governo foi forçado a introduzir controlos de capital e suspendeu os pagamentos em ouro, com efeito desmaterializando a sua moeda que deixou de estar ancorada em ouro. A economia da Alemanha entrou em colapso, e os horrores da década de 1930 começaram.
É tudo tão terrivelmente familiar (embora nenhum país europeu esteja prestes a eleger um outro Hitler). A pertença ao grupo dos membros da zona euro , tal como a adesão ao padrão-ouro, significa que os países não competitivos não podem desvalorizar as suas moedas para assim poderem reduzir os seus défices comerciais. A austeridade traz consigo um ciclo vicioso de declínio, contraindo a procura interna e fazendo aumentar o desemprego, levando assim à queda dos rendimentos e à criação de grandes défices e levando inclusive à perda de confiança nos bancos e na dívida soberana. Como os residentes da periferia fogem com o seu dinheiro para os bancos mais seguros no núcleo da zona, para os países fortes, a oferta de moeda diminui, tal como aconteceu na década de 1930 (ver gráfico 2). As reuniões de alto nível com as nações credoras não trazem nenhum alívio, nenhuma descompressão à situação. Não há nenhum refinanciador de ultimo recurso, de última instância. Embora a criação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) tenha ido bem mais longe no papel do que o sistema de Norman, ao qual se assemelha assustadoramente, os líderes da zona euro ainda têm que encontrar uma maneira para alavancar os €440 mil milhões até €2 milhões de milhões.

