REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota

Lições dos anos de 1930

The Economist, Lessons of the 1930s

Parte IV

(CONCLUSÃO)

 

Mesmo se forem bem sucedidos  isto poderia ainda ser muito pouco para acabar com o pânico que se tem estado a viver. Os investidores impulsionados pela turbulência nos mercados italianos estavam antecipadamente e por precaução  a reduzir a sua exposição aos bancos e aos títulos soberano de outros países da zona euro. Mesmo os países com economias relativamente robustas como a França e os Países Baixos não foram poupados. Não importa aqui como garantir a posição orçamental  de uma economia, uma crise de liquidez de curto prazo alimentada pelo pânico pode conduzi-la quase que inexoravelmente à  insolvência.

A História não precisa de se repetir. O Banco da Inglaterra de Norman foi criado no século XVII para emprestar dinheiro ao governo quando fosse  necessário; os bancos centrais sempre têm sido obrigados a emprestar aos governos, quando os outros não o fazem. O BCE poderia assumir esse papel. É proibido pelos seus estatutos que possa comprar dívida directamente aos governos, mas pode comprar títulos de dívida pública no mercado secundário. Ele tem sido levado a fazê-lo de forma bem gradual  e poderia declarar que é sua intenção fazê-lo sistematicamente. O seu poder para criar uma quantidade ilimitada de moeda permitiria que com credibilidade anunciasse  a sua disponibilidade para comprar quaisquer títulos nos  mercados e a quem os quisesse vender,  eliminando, assim, a principal causa de pânico e de contágio.

Esta semana, a França e a Alemanha propuseram a adopção de limites orçamentais juridicamente vinculativos, a chamada “regra de ouro” ou ainda a regra do travão da dívida,  pelos  membros da zona euro, numa  cimeira de líderes europeus em Bruxelas que ocorreu em  8-9 de Dezembro. Mario Draghi, o  novo presidente do BCE, sugeriu que fosse acordado um pacto orçamental a partir do qual  o BCE pode comprar títulos em maior escala. Que escala ele tinha em mente, porém, isso não é nado claro. Jens Weidmann, Presidente do Bundesbank da Alemanha e um influente membro do Conselho de Governadores do BCE, afirmou claramente que o BCE “não deve ser” o refinanciador, o credor da zona do euro,  o credor de último recurso, de última instância.

Para onde é que esta caminhada  nos  leva

Na presente situação, as condições nas economias desenvolvidas parecem piorar cada vez mais em vez de passarem a estar melhores . O crescimento na América e na Grã-Bretanha provavelmente será inferior a 2% em 2012 na base das políticas até agora seguidas e em ambos os países a recessão é perfeitamente possível. Uma recessão da zona do euro é provável. O BCE poderia melhorar as perspectivas económicas da zona do euro com o  afrouxar da sua política monetária, mas a incerteza e a austeridade generalizada representam  uma  situação difícil de ultrapassar. Tal como em 1931 e em 2008, a grave crise financeira pode provocar uma grande descida na produção de bens e serviços, ou seja, no PIB. Isto, por sua vez, iria colocar ainda mais pressão sobre as economias da zona euro que estão já a lutar para evitar a situação de incumprimento.

Tal como se fez com a situação de pânico  em 1931, e na sua consequência,  os países  depois debateram-se contra a fuga de capitais. O esforço para se defenderem  contra   os bancos  e contra os mercados cambiais levou a sucessivas rondas de austeridade  e a afundarem-se as fontes de financiamento  nas economias pressionadas, ajudando-se assim  a gerar-se  o colapso na produção e do emprego que transformam  a seguir uma desagradável recessão numa  violenta depressão. Foi esta trajectória económica e social que  levou ao fim do padrão-ouro, o que libertou os bancos centrais e lhes permitiu  expandir a oferta de moeda e relançar as suas economias, para assim se efectuar a recuperação económica. Hoje, o BCE tem as ferramentas necessárias para salvar a situação sem dar cabo do euro . Mas o facto do  BCE e dos governos da zona do euro terem opções de ataque à situação presente isso não significa que eles as venham a aplicar.

1930 - IV

Então e agora

O  colapso do padrão ouro levou à retoma económica  mas provocou  terríveis danos  económicos e em que os  países ergueram  barreiras comerciais para conter a avalanche de importações vindas daqueles que tiveram a desvalorização das  suas moedas. Os governos eleitos para combater o desemprego utilizaram controles de salários e de preços, a cartelização da indústria e outras intervenções que muitas vezes impediram  a recuperação que poderia ser dinamizada pelas  políticas monetárias e orçamentais expansionistas. Nos países mais atingidos os cidadãos face à intensidade do sofrimento causado   viraram-se   para o fascismo na falsa esperança de alívio.

O mundo hoje está melhor colocado para lidar com estes desastres do que era estava na década de 1930. Então, as maiores economias estavam regidas pelo quadro institucional do padrão-ouro. Hoje, a zona euro representa menos de 15% da produção mundial. O desemprego nos  países desenvolvidos, por grande flagelo que ele seja, e é, não conduz a uma situação de absoluta miséria, como aconteceu na década de 1930. Então, o mundo carecia de um líder mundial; hoje, a América é ainda muito provavelmente o país capaz de assumir a função de coordenar o trabalho  de resposta a catástrofes nestes tempos tão conturbados. As instituições internacionais são muito mais fortes e a democracia está muito mais firmemente instalada, aprofundada …

Mesmo assim, a prolongada debilidade económica está a contribuir para uma ampla reavaliação do valor do capitalismo liberal. Os países  a debaterem-se com o problema da contracção na sua procura  estão  agora a intervir nos mercados cambiais  — os suíços são a alimentar esta ideia de guerra das moedas    face à apreciação do franco suíço contra o euro . O Senado americano  procurou punir a China pela pressuposta  manipulação de moeda com a aplicação de tarifas. Na Europa a turbulência da crise do euro está a encorajar os  nacionalistas, o que é sempre mau, e em que alguns deles são racistas. O seu extremismo é suave quando comparado com os horrores do nazismo em que com este se arrasou todo o continente europeu pelo que dificilmente será bem-vindo.

A situação ainda não está para além  do que é reparável . Mas a tarefa de refazer os estragos já causados torna-se cada vez mais  difícil e tanto mais difícil quanto mais  esta crise se prolongar. As lições sobre a década de 1930 aprendidas pouparam o mundo a  muita dor  pela má situação  económica criada quando, e depois também, se deu  o  choque da crise financeira de 2008. Não é ainda demasiado tarde  para recordar outras lições essenciais da Grande Depressão . Se as ignorarmos, então a história pode bem repetir-se.

The Economist, Lessons of the 1930s, There could be trouble ahead, Dezembro de 2011.

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