Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Dois textos de Edward Hugh, um sobre a Espanha, outro sobre Portugal, dois textos que consideramos de leitura quase que obrigatória para quem quer perceber o que se está a passar, ou melhor, para quem quer perceber, e sem nenhuma ambiguidade, que o que se está a passar se deve à incompetência, à corrupção e à ignorância do conjunto daqueles que elegemos e que nos governam e daqueles que não sendo por nós directamente eleitos, e por isso são “independentes” , presidem ao destinos das grandes Organizações Internacionais e Regionais, como a OMC, o FMI, o Banco Mundial, o BCE. Estes últimos fazem dessa “independência” a pedra de toque para validar as medidas tomadas. De entre estes últimos referimos Mario Draghi, Christine Lagarde, Pascal Lamy e os homens do Bundesbank entre os quais está o director Jens Weidmann, antigo conselheiro de Angela Merkel.
E boa leitura.
Júlio Marques Mota
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O grande esvaziamento de Portugal
Edward Hugh
Parte I
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Fundo Monetário Internacional está a sofrer ou a ter a falta de um “voo para a integridade” e está a relegar-se ele próprio ao papel de um órgão de relações públicas para um grupo de atrapalhados políticos europeus |
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Estamos cada vez mais a trabalhar com problemas novos e complexos que nos são levantados no século XXI e que queremos resolver com o auxílio de fórmulas simplistas derivadas de [ maus] manuais de economia do século 20 |
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Na ausência de políticas que reconheçam a existência destes problemas e que os enfrentem, o que poderemos dizer é que nenhuma das análises de sustentabilidade sobre – a dívida, o sector financeiro, seja o que for – vale o papel em que elas mesmas forem escritas. |
Em cada dia que passa a situação económica de Portugal degrada-se cada vez mais enquanto há cada vez menos pessoas a permanecer no país para tentar pagar a dívida.
Como o afirmou já o Presidente da República de Portugal, Aníbal Cavaco Silva : “Um país sem crianças é um país sem futuro.” Ele estava, naturalmente, a referir-se à baixíssima taxa de natalidade do seu país, e que é apenas pouco mais de 1,3 (TFR) e que está pois abaixo do nível de reposição (2.1Tfr) desde o início de 1980. Em 2012, apenas nasceram no país cerca de 90 mil crianças, o número mais baixo desde há um século – é preciso voltar ao século XIX para encontrar números como os que agora se estão a ver e desde que a crise realmente se desencadeou.
Mas adicionado a este problema desde longa data não resolvido, há agora ainda um outro , tão perigoso ou mais perigoso ainda. O elevado nível de desemprego e da falta de oportunidades de emprego estão a levar um número cada vez maior de jovens portugueses a emigrar. Os números são grandes, possivelmente um milhão ao longo da última década, e estes migrantes são as vítimas da taxa de crescimento do país ridiculamente baixa – menos de 1% ao ano. E as partidas estão a aumentar de intensidade. José Cesário, secretário de Estado para as comunidades de emigrantes, estimava recentemente que mais de 240 mil pessoas podem ter deixado desde o início de 2011.
Naturalmente, esta é uma das razões que levam a que os números do desemprego portuguesas não tenham atingido os elevados valores de Espanha ou da Grécia. De acordo com dados do Instituto Português do Emprego e Formação Profissional, durante os primeiros nove meses do ano passado 24.689 pessoas cancelaram a sua inscrição no centros de emprego, o que é devido à tomada de decisão de irem emigrar. Isto deve-se comparar com as 16.977 saídas nos primeiros nove meses de 2011. Apenas em Setembro, 2.766 pessoas fizeram a mesma coisa e pelo mesmo motivo, um aumento de 49% relativamente a Setembro de 2011. Ainda sobre este tema, entre Janeiro e Setembro a taxa de desemprego harmonizada da UE para Portugal subia de 14,7% para 16,3%, sugerindo-se pois que sem tanta gente a fazer as malas, a deixar o país e a não fazer parte das estatísticas de residentes esta taxa de desemprego, esta taxa teria sido significativamente bem maior. Dá-nos igualmente uma explicação de porque é que as autoridades portuguesas não fazem nada mais para tentar travar o fluxo de saídas do país.
O Prémio Nobel da Economia Paul Krugman sugeriu ainda muito recentemente que, entre os graves problemas do Japão está o de que este país estava já a sofrer de uma escassez de japoneses. Ou, dito de outro modo, o muito lento crescimento do Japão é em parte um subproduto do envelhecimento do país e da redução da sua força de trabalho. Olhando para a dinâmica populacional do país, Portugal certamente parece um candidato provável para se considerar a convergir para a mais moderna das doenças de que um país pode sofrer. Não somente Portugal tem os ingredientes-chave que estão por detrás da redução da força de trabalho japonesa –uma muito baixa fertilidade de longo prazo – a que tem adicionado alguns outros problemas para não conseguir sair da situação . O Japão pode ser avesso à imigração, mas os seus habitantes não estão a fugir em massa do país.
(continua)



