PRAXEDES E AS CIFRAS, por ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

 

Praxedes, ontem á noite ao chá, ao ler nos jornais a nota do Dr. Afonso Costa, ficou dez minutos olhando para tudo aquilo como um burro para um palácio.

Por fim cortando,  com desvanecida expressão de orgulho  no seu rosto plácido, uma fatia e barrando-a de manteiga, declarou a D. Genoveva, sua esposa:

― Aposto que não sabes, filha, quanto temos à nossa disposição no estrangeiro, para pagar o que devemos?

― O quê?

― Temos Lbr. 679.261.17,6 mais Fr. 28.954, 07 mais Mr.os 75.535,15= Esc. 3.124.245$. E sabes tu, Genoveva Praxedes, o que são Esc. 3.124.245 com um cifrão adiante? São três mil e tantos contos.

― Oh Praxedes, tu estás bêbado.

― Digo-te isto. Vem no jornal. Tudo isto é nosso e com isto vamos resgatar as onze mil virgens, quero dizer: as onze mil obrigações.

― Oh filho. Já agora era melhor pagar aqueles cinquenta mil reis ao teu compadre, que é chefe de família, e comprar um chapéu para a Fifi, que também é virgem.

― Não percebeste nada. As mulheres não percebem nada de finanças. Esse dinheiro tem outro destino. Com ele restabelecemos o nosso crédito.

― Olha que já não é sem tempo. Na mercearia ainda esta tarde disseram à criada que não fiavam nem mais cinco reis em chegando ao fim do mês.

― Mau! E tu a dares-lhe com a mercearia…

― E o Quico precisa de umas botas para ir ao colégio.

― Que me importam essas futilidades mesquinhas? O que enche o meu peito de orgulho é que a diferença entre o débito em 30 de Dezembro de 1912, que era de 9.327.334$ e em 21 de Julho de 1913, que será de 4.198.250$. Fica sendo para menos de 5.129.084$.

― Está bem, Praxedes. Não gosto de te contrariar; mas, olha lá, tu tens bem a certeza do que estás dizendo?

― Como não hei de ter? Devemos menos 55% do que deixámos.

― E posso mandar fazer um vestido de alpaca?

― Não. Suspende, Genoveva!… Pois tu ainda não percebeste que este dinheiro todo quem o tem é o Afonso Costa, que não o dá a mais ninguém?

19 de Junho de 1913

IN PRAXEDES, MULHER E FILHOS. CADASTRO DE UMA FAMÍLIA LISBOETA. 1916, GUIMARÃES & C.ª, EDITORES. RUA DO MUNDO, 68 – 70. LISBOA.

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