NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 92 – por Manuela Degerine

Excesso

Fazemos parte de um mundo superabundante. Nem aponto os nossos armários entulhados com roupa, as nossas casas atravancadas com objetos, os nossos caixotes a transbordar inutilidades… Não, estou sobretudo a pensar na atividade cultural. Os filmes, os livros, os espetáculos, a Internet, as exposições, as visitas guiadas… Acumulei – para ouvir – algo como dois meses, isto é, mais de sessenta dias de vinte e quatro horas em programas da rádio francesa sobre história, literatura, filosofia, pintura… Todos excelentes. Não viverei o tempo suficiente para ler um décimo dos meus livros, para ouvir um décimo dos CD, para ver um décimo dos DVD…

Hoje a dificuldade não está no acesso à cultura, com ou sem dinheiro, mesmo que vivamos nas Sarzedas do Vasco. Para um habitante deste lugar que tenha televisão e se inscreva na biblioteca municipal, acessível a pé, onde há Internet e computadores, para além de livros e jornais, a dificuldade já se situa na capacidade de escolha. E na ciência do tempo. É portanto urgente alertar os portugueses para as práticas cronófagas. Não perder os serões com futebol ou telenovelas. Não passar a noite na rede social. Não ler isto mas reler aquilo… A vida é curta demais para que descuremos a sua matéria principal – o tempo – e a maneira como a utilizamos. Matar tempo é uma forma de suicídio.

Eça de Queirós ficionalizou esta dificuldade do homem contemporâneo no conto “Civilização”. Entretanto à superabundância de Jacinto juntámos a rádio, o cinema, a televisão, o CD, o DVD, o MP3, a Internet, o telemóvel… Jacinto era em 1892 um homem supercivilizado, em 2013 somos todos superjacintos; e o nosso justo emblema é a obesidade.

Felizmente Eça de Queirós também nos forneceu a receita que cura esta doença: trata-se de reduzir e selecionar. Preferir a qualidade à quantidade. Transformar o menos em melhor. Mais vale um bom móvel do que todo o IKEA (e mais ainda um espaço vazio). Mais vale meio queijo de Serpa do que cinco pizas (e apenas quando o apetite o sublimar). Mais vale ler um bom livro do que cinquenta “bestas céleres”. E, claro… Mais vale um amigo verdadeiro do que quinhentos no Facebook.

O mundo em que vivemos solicita-nos de maneira excessiva, de maneira ilusória, do que resulta – na vida de tantas pessoas – um permanente zapping, uma trapalhona superficialidade, uma paradoxal repetição, um desperdício de sensações, um défice de experiências diretas… O nosso recurso é o travão. O nosso luxo é a lentidão. Caminhar. Parar. Reler. Olhar. Sentir. Compreender. Absorver o que lemos, o que vimos, o que ouvimos…  Pensar. Repensar. E ao contrário dos que atravessam o museu em meia hora – para quê? – nós vamos lá para ver um quadro. Dentro das possibilidades concretas de que dispomos, há pequenas modificações de comportamento, esta ou aquela opção que pode simplificar – e melhorar – a vida a partir deste instante. Só depende da nossa vontade.

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