Pentacórdio para Terça-feira 19 de Março

por Rui Oliveira

 

 

helder costa   A Terça-feira, 19 de Março é pobre em novos acontecimentos culturais, pelo que o regresso a Lisboa, estreando-se na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro (Estrada de Telheiras, 146 – Antigo Solar da Nora) às 21h30, da peça “As Aventuras do Menino Paulinho (A verdadeira história de um politico honesto)” seja um dos eventos do dia, pela forma mordaz como o autor critica a ascensão dos elementos da nossa sociedade, que utilizando a corrupção, influências duvidosas e total ausência de escrúpulos, alimentam o proxenetismo social, político e religioso.paulinho 2

   Da autoria de Hélder Costa (foto) em 2003, esta produção do “VicenTeatro” tem encenação de João Carneiro e interpretação dos actor(es) Helena Macedo, Paula Cunha Rosa e Osvaldo Canhita, permanecendo em palco mais na Quarta 20 e Sexta 22, às mesmas 21h30.

paulinho 1   Sinopse divulgada : «D. Paulinho de Silveira e Montezinho, filho de uma família aristocrática completamente falida, com educação religiosa (até ajudou à missa), obrigado a frequentar lições de “saber estar em sociedade”, “brincou” com as criadas, utilizou o famoso “lápis azul” e cantou a “Grândola”. Mais tarde, recuperou os contactos com marquesas e baronesas, o seu anel de brasão, começou a organizar festas onde até havia meninas de espírito livre, ajudou a fundar um partido e veio a tornar-se um pensador.

   Hoje, bem instalado na vida, sem nenhum processo em tribunal que o possa levar à cadeia, vive num bairro fino. Acabou de receber vários convites, só falta escolher: Secretário Geral da ONU, Presidente dos Mormons, Presidente do Banco Mundial, Chefe dos Seguros Japoneses ou Papa? Não. Ele, quer ser o Rei do Mundo ».

 

 

 

   Dois filmes ainda, daqueles extra-circuito (presume-se que daqueles em circuito comercial o leitor tem promoção suficiente nos meios de comunicação…), poderiam merecer a atenção do Pentacórdio.

 

   Uma das sessões cinematográficas tem lugar no Institut Français de Portugal e integra-se na Festa da Francofonia ali em curso a que já nos referimos em Pentacórdios anteriores.

mon_village_au_unavik   Trata-se da exibição, às 19h desta Terça 19 de Março com entrada livre, do filme “Mon village au Nunavik” (Canada, 1999), realizado por Bobby Kenuajuak (foto) e produzido por Nicole Lamothe.

bobby   O documentário propõe um olhar sem nostalgia e voltado para o mundo, dum jovem Inuit que é Bobby Kenuajuak, de 23 anos, apaixonado pela sua aldeia de Puvirnituq em Nunavik, situada nas margens da baía de Hudson, no Norte do Québec.

    Sinopse : «Durante três estações, Bobby dirige a sua máquina de filmar para aquilo em que assenta a alma do seu povo : o seu espaço, o seu humor, a sua história. Recusa abdicar da cultura dos seus antepassados mas valoriza as incursões das gentes do Sul para Norte. De Puvirnituq a Akulivik, passando por Maniitouk e Qikisitarvik, os gansos selvagens fazem as pessoas virar a cabeça, o mar regurgita de peixes e a tundra estende-se a perder de vista …».

   O leitor interessado poderá, se quiser, antever o documentário aqui : 

Mon village au Nunavik par Bobby Kenuajuak, Office national du film du Canada

 

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   Após o filme e também patrocinado pela Embaixada do Canadá, Michèle Therrien (foto acima) profere uma conferência intitulada “L’Arctique – Les Inuits du Nunavik”.

   Sabe-se que, durante séculos, no Ártico canadiano, os Inuits foram, numa adaptação forçada aos períodos de aquecimento e arrefecimento climáticos, mudando as características da sua ocupação do espaço, das suas tecnologias, da sua organização social e das suas cosmologias. As regiões que habitam e que apelidam de Inuit nunaat são actualmente objecto de questionamentos ambientais, socio-económicos, políticos e mesmo estratégicos que dizem respeito à  totalidade do planeta.

 

 

 

Tinta_Roja_2000   A outra sessão cinematográfica  decorre no Instituto Cervantes que exibe no seu ciclo fílmico “Ciclo peruano : El Universo de Lombardi”, esta Terça-feira 19 de Março, às 18h30, no seu Auditório (Rua de Santa Marta, nº 43 r/c), a película “Tinta roja” (Peru/Espanha, 2000) do realizador peruano Francisco J. Lombardi, sobre uma novela de Alberto Fuguet (adaptada por Giovanna Pollarolo), com Gianfranco Brero, Giovanni Ciccia, Fele Martínez e Lucía Jiménez nos papéis principais.

tinta roja   Sinopse : «Um jovem candidato a escritor aprende algumas dsagradáveis lições sobre si mesmo neste drama. Alfonso (Giovanni Ciccia) é um aspirante a romancista que, como parte duma bolsa de estudo num programa de escrita criativa, tem de estagiar num jornal tablóide, bem como a sua namorada Nadia (Lucía Jiménez). Aí é feito assistente de um dos redactores principais, Faundez (Gianfranco Brero), o que se revela uma tarefa muito exigente. Acompanhado pelos seus motorista Van Gogh (Carlos Gassols) e fotógrafo Escalona (Fele Martinez), Faundez parte dia a dia à recolha de histórias através de intimidação e manipulação emocional, sem qualquer escrúpulo no uso de fontes em seu benefício próprio. Alfonso fica chocado pela ética miserável de Faundez e a sua falta de cavalheirismo para com as mulheres mas começa também a mergulhar nesse estilo e, quando as circunstâncias o forçam a ter de substituir Faundez por um tempo, surpreende-se ao descobrir quão semelhante se havia tornado ao homem que ele desprezava …»

   Eis o seu breve filme-anúncio :

 

 

 

 

    Por último, nesta magra agenda, lembremos – como é usual – algumas mostras de artes plásticas variadas cujo encerramento se aproxima.

 

   Uma que a crítica tem salientado elogiosamente é a que a Câmara Municipal de Lisboa e a “Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV)” promovem na Galeria Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, na Av. da Índia em Lisboa e que fecha no próximo Sábado, 23 de Março, estando aberta diariamente até às 18h. Esta exposição “OLHA” reúne um conjunto de trabalhos do fotógrafo Valter Vinagre, sendo o resultado de uma colaboração com a APAV, com o objectivo de retratar o universo das vítimas de crime em Portugal.olha_imagem_vv_64u7utyfgh

   «Como fotografar o silêncio? Como fotografar o invisível ou o velado?» – pergunta o crítico Celso Martins (Atual) no livro que acompanha a mostra. « Desde que há fotografia – melhor seria dizer, desde que há imagem – que o problema se põe. Seja porque o que está em causa são conceitos e não realidades tangíveis, seja porque essas realidades se furtam absolutamente ao olhar da câmara. A violência doméstica, entendida como fenómeno alargado, é um destes casos. É omnipresente em todas as sociedades, mas invisível. É ilegal (é mesmo um crime público) na nossa, mas resistente à sanção social e à lei. O que é novo na modernidade não é a violência, mas, por um lado a natureza dessa violência e, por outro, o modo como a vemos e a enquadramos entre o espaço público e privado. O seu território, o seu capital de impunidade é precisamente esse círculo fechado que constitui a privacidade, que deixa à porta o Estado, as leis, a urbanidade exigível aos comportamentos. (…) Poucos assuntos podiam ser menos atraentes e mais destituídos de glamour e de fotogenia como a vida das pessoas vítimas de violência. O circuito mediático guarda-as normalmente para encarniçar em nós a faceta humanista que todos julgamos ter. A serenidade cúmplice das imagens de Valter Vinagre recusa liminarmente essa parasitagem. No fundo elas dizem uma só coisa de diferentes maneiras. Olha. Compreende o que puderes. Se puderes. E age. Se puderes».

 

 

   Outra exposição que igualmente encerra no Sábado 23 de Março é a da artista plástica sintrense Conceição Abreu que a denominou “Entretempos” e se encontra na Caroline Pagès Gallery (Rua Tenente Ferreira Durão, nº 12 – 1º, a Campo de Ourique), aberta até às 20h.

   Do texto de Francisco Providência que acompanha a mostra, retiramos :

8331380425102e18fb8fa8_sala4_web   «Como no mito grego de Penélope, Conceição Abreu tem vindo a tecer malhas, ninhos, vestidos, cachecóis, redes, teias e, como Penélope, também neste tecer parece haver um adiar que se constrói como produção − Penélope tecia de dia e desmanchava de noite o sudário para Laerte (pai de Ulisses), assim evitando aceitar o desaparecimento do seu noivo Ulisses. Como se tem afirmado na genealogia da sua obra (a propósito das malhas cromáticas 2003, dos bordados 2006, dos ninhos de elástico 2007, dos vestidos abrigos, dos atilhos 2008, das meadas 2009 e dos puxos 2010), a obra de Abreu é identificada como sensual (novelos sensuais), constituída por imagens indissociáveis do seu fazer laborioso, (de) gestos repetidos e minuciosos, femininos (que evocam as tarefas femininas de outros tempos) e intimistas (vindos de uma intimidade que comunica) mas privativa (preservando a sua discreta privacidade), ainda que com o propósito social de construir sentidos através de desenhos (…quase) objectuais, inexoravelmente remetidos para o corpo das suas memórias (um trabalho que traz consigo a memória do corpo que o fez)…

277114_462330810493822_656566016_n… No texto que acompanhou a exibição das suas obras mais recentes em Guimarães capital europeia da cultura …, Conceição Abreu escreve: lançar, tecer, fazer, repetir, continuar, mover, (…) desenhar, construir, como processo de ser e, consequentemente, propondo o trabalho artístico como condição de vida, ou como processo de habitar. Desenhar e tecer vêm aqui identificados como semelhantes, partindo ambos de uma postura de concentração, que conjugam, no gesto, o corpo e o espírito. No contínuo movimento de cadência embalada e ritmada deste fazer, nascem as linhas com que se edificam as construções

As redes vulvas radialmente construídas em torno do nada (buraco), são a tentativa criativa para que deixem de ser barreiras de obscurecimento e passem a ser médias de informação entre a autora e os outros. O objecto, ao tornar-se transparente para os outros, isto é, contributo de resistência à reificação do corpo, convoca a verdade não tanto como reflexão sobre o género, mas como recurso solitário de sobrevivência à morte da alienação mediática. Genitálias são precisamente isso: órgãos que produzem vidas».

 

  

 

(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Domingo aqui)

 

 

 

 

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