Responsabilidade social: que responsabilidade, para quê e para quem? Por José de Almeida Serra

Parte III

(conclusão)

5 – Certamente não se chegou aqui por acaso, antes em consequência de opções e de políticas. Na Europa, que fora eternamente um continente de insuficiências e de guerras, já foi enterrada a última “geração do sofrimento” – a dos que viveram ou combateram mesmo na Segunda Guerra Mundial. E as novas gerações convenceram-se, pelo menos aparentemente, de que têm garantido, porventura para a eternidade, o patamar alcançado. Terão?

As políticas económicas e sociais traduzem, com total clareza, o posicionamento fundamental imperante na(s) sociedade(s) europeia(s) – o da falta de solidariedade, da falta de responsabilidade, do “deixar andar”, do  “não te rales nem te preocupes”. Até quando?

A evolução operada tem de ter – e teve – consequências, em particular nos escalões médios e inferiores da Sociedade, sobretudo em matéria de desemprego, oportunidades para os jovens (ou falta delas), pobreza e exclusão social. Mas também as chamadas classes médias – elementos estruturantes da coesão social – estão desagregando rapidamente, sem que, em relação a estas, se venha a produzir informação com a acuidade e pertinência que se constata para os extractos mais carenciados.

Atente-se ao que se vem passando em Portugal e na Europa em matéria de desemprego.

Almeidaserra - II

Que solidariedade existe hoje na Europa para com os desempregados? Será possível conviver, no médio e longo prazo, com taxas de desemprego da ordem dos 20%, 15% ou mesmo 10%? Será exequível? O que se passou em outras épocas históricas quando nos confrontámos com situações idênticas? Ontem mesmo e nesta Europa dita civilizada e solidária?

E os jovens? É possível a sobrevivência de uma Sociedade em que 40% dos seus jovens não encontra emprego? Em que, tal como está, muitos jovens poderão nunca ter qualquer emprego na vida?

Que repartição de bens materiais e culturais? Que posicionamento perante a pobreza que se estende, que se amplia?

Segundo a Comissão Europeia (ver documento de imprensa, STAT/12/21 de 8 de Fevereiro de 2012), em 2010 quase ¼ da população europeia (23,4% representando um total de 115 milhões) encontrava-se em perigo de pobreza ou de exclusão social já que se confrontava com pelo menos um de três critérios definidores daquelas situações (risco de pobreza, situação material grave, ou vivendo em fogos caracterizados por fraca intensidade de trabalho – conceitos devidamente definidos nos trabalhos publicados). A referida percentagem agravava-se para os menores de 18 anos, subindo para 27%. O panorama descrito permanecia, ou agravara-se, em final de 2012 conforme decorre da leitura de outro documento oriundo também da Comissão Europeia (Eurostat, documento de imprensa, STAT/12/171, de 3 de Dezembro de 2012).

Almeidaserra - III

Mais especificamente sobre os jovens, a Comissão Europeia apresentou, em Setembro de 2012, um Relatório da UE sobre a juventude e apelou a que fosse dada prioridade ao emprego e à inclusão social dos jovens. Segundo um comunicado de imprensa, publicado em 10 de Setembro de 2012 “o desemprego na UE na faixa etária de 15-24 anos aumentou 50% desde o início da crise, passando de uma média de 15% em Fevereiro de 2008 para 22,5% em Julho deste ano (…) na UE, mais de 30% dos jovens desempregados estão nessa situação há mais de um ano”.

Risco de pobreza e de exclusão social, por grupos de idades, 2011 (em %)

População total

Menores de 18 anos

18-64 anos

Mais de 65 anos

EU-27

24,2

27,0

24,3

20,5

Portugal

24,4

28,6

23,2

24,5

Fonte: Eurostat, Comunicado de imprensa, STAT/13/28 de 26 de Fevereiro de 2013

6 – Conclusão : podemos (e devemos) analisar as questões pertinentes à responsabilidade social, mas nada alcançaremos sem uma efectiva prática – individual, social, política, em qualquer caso, colectiva – de responsabilidade e responsabilização social e sem que a Sociedade no seu todo – Estados, Governos, grupos sociais e políticos – readquira um efectivo poder de condução e controlo social, desenvolvendo e mantendo equilíbrios sociais e políticos fundamentais, livremente escolhidos e aceites pela maioria dos cidadãos, suficientemente discutidos e explicitados e devidamente sufragados pela maioria dos interessados. Mais do que o discurso sobre a responsabilidade convirá passar à prática dessa mesma responsabilidade (e inerente responsabilização). Afinal, os peixes só sentirão a necessidade da água em que vivem no dia em que se encontrarem fora dela.

Gostaria de ter a certeza de não ser esta a situação em que (já?) vivemos.

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