SEBASTIÃO DA GAMA – POESIA – por Álvaro José Ferreira

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Portinho da Arrábida

© Pedro Vidigal (24-Fev-2008)

O que é um poeta? Ser poeta é, em primeiro lugar, encarar de espírito aberto e atento a vida e o mundo, não destruindo, antes apreciando e desfrutando a beleza que uma e outro têm para nos oferecer. Uns possuem o talento de exprimir isso por palavras, outros não. Sebastião da Gama pertence à primeira categoria e é dele que ora se apresenta um belo poema intitulado “Poesia”, que Carmen Dolores em boa hora resgatou ao silêncio dos livros e deu voz, de forma admirável, no CD “Poemas da Minha Vida” (2003).

Aproveito o ensejo para voltar a apontar o dedo à direcção da Antena 2 por ainda não se ter dado ao cuidado de colmatar a lacuna de uma rubrica diária de poesia, decorridos mais de quatro anos sobre o fim d’ “Os Sons Férteis”, de Paulo Rato em colaboração com a actriz Eugénia Bettencourt. Interpelado com este assunto, calculo que Rui Pêgo alegue (hipocritamente) algo do seguinte teor: «Bem gostaríamos de ter na grelha um apontamento de poesia do género d’ “Os Férteis”, mas não há verba para contratar um ‘diseur’ e/ou uma ‘diseuse’ para esse efeito.» Pois eu respondo-lhe: Não é preciso! É perfeitamente possível manter na Antena 2 (vale o mesmo para as Antenas 1 e 3) um apontamento diário de poesia sem gastar um chavo. Basta fazer uso do fabuloso manancial existente (e a apodrecer) no arquivo histórico da RDP e, complementarmente, de edições discográficas, que as há e boas, como é o caso da que contém o presente espécime.

Se Rui Pêgo teimar na sua caturrice obscurantista de ostracismo à poesia, totalmente ao arrepio do que é expectável e razoável que aconteça no serviço público de rádio, ao menos que a administração tenha a clarividência de entregar a direcção de programas a alguém mais competente e ciente da missão cultural que cumpre à RDP prosseguir.

Para ouvir o poema dito por Carmen Dolores há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.pt/2013/03/sebastiao-da-gama-poesia.html

e clicar no “play áudio”.

POESIA

Poema de Sebastião da Gama (in “Serra-Mãe”, Lisboa: Portugália Editora, 1945; Lisboa: Edições Ática, Colecção Poesia, 6.ª edição, 1991 – págs. 132-133)

Recitado por Carmen Dolores* (in CD “Poemas da Minha Vida”, Dito e Feito, 2003)

Ai deixa, deixa lá que a Poesia
no perfume das flores, no quebrar
das ondas pela praia,
na alegria
das crianças que riem sem porquê
— deixa-a lá que se exprima, a Poesia.

Fica sentado aí onde estás, Poeta,
e não mexas os lábios nem os braços:
deixa-a viver em si;
não tentes segurá-la nos teus braços,
não pretendas vesti-la com palavras…

Se a queres ter,
se a queres sempre ver pairando à flor das coisas, fica aí
no teu cantinho, e nem respires, Poeta, e não te bulas,
p’ra que ela não dê por ti.

Não a faças fugir, toda assustada
com a tua presença…
Deixa-a, nua, pairando à flor das coisas,
que ela não sabe que a viste,
nem sabe que está nua,
nem sequer sabe que existe…

2-2-1945

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