A IGREJA, A DITADURA E O PAPA – por Gilberto Calil e Marcos Vinícius Ribeiro

Artigo transcrito, com a devida vénia e os nossos agradecimentos, do blogue CONVERGÊNCIA http://blogconvergencia.org/ 

Parte II

(conclusão)

O significado da eleição de Bergoglio e as perspectivas de seu papado

Logo após a renúncia de Bento XVI, a impressão geral era que a Igreja Católica iniciava um processo de renovação, para recuperar a credibilidade perdida. Para uns poderia ser o início de uma renovação profunda, enquanto outros mais prudentes imaginavam mudanças cosméticas e superficiais. Assim, a muitos pareceu surpreendente a avaliação publicada no jornal espanhol El País, de que a renúncia de Bento XVI seria na realidade um golpe impulsionado pelos setores mais fundamentalistas, ou a extrema-direita católica, em especial o superpoderoso cardeal Angelo Scola.(15) Frente ao conhecido conservadorismo de Ratzinger, tal conspiração parecia em um primeiro momento inverossímil, mas uma análise mais cuidadosa da trajetória e das posições políticas de Bergoglio parece indicar o acerto daquela avaliação. Se no campo moral a tendência é continuidade no imobilismo, na intervenção política é provável uma intervenção mais ativa e de conteúdo mais ferrenhamente contra-revolucionário, muito distinta do conservadorismo passivo de Bento XVI.

Em vista disto, só podemos considerar como extremamente ingênuas as expectativas de renovação manifestadas por religiosos oriundos da teologia da libertação, como Frei Betto e Leonardo Boff. O primeiro considera que “o fato de ele escolher o nome Francisco é um sinal muito positivo, porque São Francisco foi o reformador da igreja. Acho positivo também para a América Latina, continente com o maior número de católicos. O que importa é que ele seja uma pessoa aberta para as demandas que a igreja exige hoje. A idade não importa. João 23, o papa mais revolucionário dos últimos séculos, também foi eleito com quase 80 anos”.(16) Já Leonardo Boff considera que “o importante é o nome, Francisco, significa um programa de uma igreja simples, pobre, amante da natureza, ligada ao povo, e disso é que estamos precisando hoje”.(17) Muito mais realista parece-nos a lembrança de Dom Pedro Casaldáliga, uma voz cada vez mais isolada na hierarquia católica, que lembra que “paira na memória histórica a atitude da hierarquia argentina nos tempos da ditadura militar. Dessa atitude se reclama a omissão e a colaboração com um regime sangrento. Será bom que o papa Francisco aproveite as ocasiões para condenar profeticamente essa e outras ditaduras; até pedindo perdão em nome de toda a Igreja”.(18) Nada indica, no entanto, que Bergoglio vá reconhecer o envolvimento da Igreja com a ditadura, e menos ainda, que pedirá perdão…

Nada de novo na moral católica

Não é certamente no campo moral que haverá qualquer movimento de renovação, muito pelo contrário, pois as posições ultra-conservadoras de Bergoglio são sobremaneira conhecidas e apontam para uma rígida defesa de uma moralidade medieval. Sua posição relativa ao matrimônio homossexual e sua visão acerca das mulheres são suficientes para esclarecer a questão. Quanto ao primeiro declarou, no contexto da discussão de um projeto de regulamentação da união civil entre pessoas do mesmo sexo na Argentina: “Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política; é a pretensão destrutiva ao plano de Deus. Não se trata de um mero projeto legislativo (este é apenas o), mas de uma jogada do Pai da Mentira que pretende confundir e enganar aos filhos de Deus”.(19) Suas primeiras manifestações públicas como papa, recolocando a figura do “diabo” no centro do discurso católico, expressam claramente sua perspectiva contra-reformista. Em relação às mulheres, é conhecida sua manifestação pronunciada em 4 de julho de 2007, às vésperas do lançamento público da candidatura presidencial de Cristina Kirchner, quando o então Arcebispo de Buenos Aires declarou: “As mulheres são naturalmente ineptas para exercer cargos políticos. A ordem natural e os fatos nos ensinam que o homem é o ser político por excelência; as Escrituras nos demonstram que a mulher sempre é o apoio do homem pensador e atuante, mas nada mais do que isto. É necessário ter memória: tivemos uma mulher como presidente da Nação e todos sabemos o que se passou (referindo-se à Isabelita Perón)”. Esta declaração, no contexto em que foi emitida, remete igualmente a outra questão que transcende a pregação moralista: a intervenção política de Bergoglio, última questão que trataremos aqui.

A política do papa Francisco

As primeiras ações de Bergoglio como papa pretendem criar a imagem de um papa humilde e apolítico. A humildade do novo papa, na versão laudatória disseminada pela grande mídia, se expressaria na escolha do nome Francisco (omitindo-se a dubiedade da escolha, que poderia remeter igualmente a São Francisco Xavier, fundador da Ordem dos Jesuítas) e aos “hábitos simples” de um papa que costumaria se locomover de metrô – algo que é desmentido categoricamente pelo seu ex-motorista Mom Debussy.(20) De muito mais relevância é seu suposto apoliticismo, que é facilmente desmentido mesmo sem que se recorra à sua intervenção na ditadura. Bergoglio sempre assumiu posições políticas muito explícitos, e em particular sob os governos dos Kirchner alinhou-se à oposição de direita, apoiando vigorosamente o paro agrário,(21) através do qual os latifundiários pretendiam pagar menos impostos e denunciando o suposto caráter “populista” dos governos de Néstor e Cristina Kirchner e suas articulações com o chavismo, grande inimigo a ser combatido.

A escolha de um papa latinoamericano, ao contrário de sugerir uma abertura e uma renovação da Igreja, parece expressar a perspectiva de intervenção política mais ativa na oposição ao chamado “populismo” que, com todos os seus limites e contradições, coloca em prática políticas heterodoxas e desafia o ordenamento global unipolar. Para o cientista social argentino Julio Gambina, assim como “um papa polaco chegou à Igreja para acompanhar o princípio do fim da experiência socialista”, Bergoglio teria a missão de confrontar o eixo constituído em torno das experiências venezuelana e boliviana, fortalecendo as oposições de direita, tal como sempre fez na Argentina dos Kirchner:

“O rumo unipolar está sendo desafiado pela mudança política em nossa América com o ressurgimento do socialismo, seja da mão da revolução cubana ou pelos processos específicos que emergem em alguns países (Venezuela ou Bolívia), inclusive em vários movimentos políticos, sociais, intelectuais, culturais, em nossa região.

Com a morte de Chávez e milhões mobilizados para constituir-se em sujeitos pelo cumprimento do legado revolucionário e socialista de Hugo Chávez, a Igreja lança o anel do símbolo de um Chefe da Igreja nascido no Sul e compenetrado com o projeto do Norte.

O Papa argentino, Francisco, vem cumprir o projeto do poder mundial para disputar o consenso da sociedade, especialmente dos povos. Não se trata somente de sustentar posições contrárias ao matrimônio igualitário, ou contra o aborto, amplamente difundido pelo bispo Bergoglio, mas gerir uma consciência de disciplinamento para a ordem contemporânea, reacionária, de dominação transcendental.

Nossa América é hoje um laboratório de mudanças políticas. A Igreja instituição quer intervir nesse processo não para empurrar essas mudanças, mas para freá-las. A disputa é pelas consciências. É uma batalha de ideias pela mudança ou pelo retrocesso. Preocupam-se com o efeito Chávez na região. Preocupam-se com a sucessão política na Venezuela e a capacidade de estender o rumo socialista. Necessitam disputar o consenso.

Mas, por mais que as tentativas institucionais para acompanhar a ofensiva do Capital contra o trabalho, os trabalhadores e os setores populares, inclusive a igreja dos pobres, o movimento religioso popular, persistem na busca de organizar a sociedade do viver bem (Bolívia), o bem-viver (Equador), o socialismo cubano, ou a luta pela emancipação social de grande parte da baixa sociedade em nossa América.”(22)

Não é necessário concordar integralmente com a avaliação exageradamente otimista de Gambina em relação aos avanços do chavismo e ao seu caráter socialista para compartilhar com sua conclusão de que os setores mais conservadores “preocupam-se com o efeito Chávez na região”. De fato, mesmo para aqueles que sempre estiveram na oposição pela esquerda ao governo Kirchner, não é difícil perceber que a nomeação de Bergoglio tem como finalidade fortalecer a oposição de direita. O PTS argentino avalia que a eleição de Bergoglio significa “o fortalecimento de uma instituição reacionária e um potencial baluarte estratégico para as classes dominantes” e que sua eleição representa na Argentina “um incentivo para a oposição patronal, mais que para o kirchnerismo. Bergoglio sempre foi porta-voz de slogans que coincidiam com os da oposição e tem relações muito próximas com Gabriela Michetti do PRO ou Elisa Carrió. Ainda que tenha tido maior enfrentamento com Néstor Kirchner do que com Cristina (em parte porque apesar de leis como o matrimônio igualitário, CFK segue sendo fiel opositora ao direito ao aborto legal, seguro e gratuito), Bergoglio sempre se situou na oposição política ao kirchnerismo.(23)

Uma nota final: ao mesmo tempo em que repudiava as denúncias contra Bergoglio como obra da “esquerda anticlerical”, o Vaticano enviava um convite para a cerimônia de coroação do papa Francisco a Carlos Pedro Blaquier, dono do Engenho Ledesma e processado pelo sequestro e desaparecimento de 29 dirigentes sindicais e trabalhadores de sua empresa durante a ditadura.(24) Blaquier é provavelmente o empresário cuja colaboração com a repressão é mais conhecida. O processo em que é acusado tramita na justiça argentina e ele é proibido de sair do país. Ainda assim, aproveitando-se do convite, Blaquier pediu autorização urgente ao Juizado Federal de Jujuy (onde corre seu processo). O convite enviado pelo cardeal argentino Marcelo Sánchez Sorondo (embaixador da Academia de Ciências Sociais do Vaticano) é muito revelador do tratamento da Igreja para com os terroristas de Estado da ditadura argentina: “Sei que com todos os compromissos importantes que tens na Pátria não te será fácil decidir-te a vir, mas sendo tu um doutor do Laterano, me parece que tua presença em Roma constitui uma obrigação moral ineludível. (…) Além disso, há outro motivo para que participe na cerimônia, representas um dos setores mais pujantes do país, que fez esta revolução agrícola e industrial, modelo internacional e celeiro para o mundo”.(25)

Sorondo, Bergoglio e a hierarquia católica argentina expressam o rumo tomado pela Igreja Católica. Suas ações e omissões, suas articulações e sua posição política não deixam dúvidas do que se pode esperar do papado que se inicia e desnudam a ingenuidade das esperanças de renovação de alguns, bem como a omissão do passado e das posições políticas de Bergoglio revelam a dimensão da operação midiática voltada à promoção de sua imagem como religioso apolítico e humilde, sobre cujo passado pouco se fala.

Notas:

(1) Disponível em http://www.publico.es/internacional/452122/bergoglio-oculto-la-complicidad-del-episcopado-argentino-con-la-junta-militar-del-dictador-videla

(2) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-144092-2010-04-18.html

(3) Ver farta documentação disponível em seu sítio eletrônico http://iglesiaydictadura.wordpress.com/tag/bergoglio/

(4) http://oglobo.globo.com/mundo/irma-de-jesuita-preso-durante-ditadura-contesta-escolha-do-papa-7834066

(5) http://ea.com.py/los-vinculos-del-nuevo-papa-con-la-dictadura-argentina-la-patota-salio-del-colegio-maximo/

(6) Idem.

(7) Idem.

(8) http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/03/novo-papa-sequestro-bebes-ditadura-argentina.html

(9) http://oglobo.globo.com/mundo/irma-de-jesuita-preso-durante-ditadura-contesta-escolha-do-papa-7834066

(10) Idem.

(11) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215950-2013-03-16.html

(12) http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21748

(13) Idem.

(14) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215951-2013-03-16.html. Deve-se mencionar ainda a manifestação de Adolgo Pérez Esquivel, respeitável militante dos direitos humanos na Argentina, que sustenta que Bergoglio não era cúmplice da ditadura. Sua breve manifestação, no entanto, é extremamente genérica e subjetiva e passa ao largo das denúncias concretas: “ Bergoglio é questionado porque se diz que não fez o necessário para tirar da prisão aos dois sacerdotes, sendo ele superior da Congregação dos Jesuítas. Mas eu sei pessoalmente que muitos bispos pediam à Junta Militar a liberação de prisioneiros e sacerdotes e não lhes era concedido.”. http://www.cunadelanoticia.com/?p=47844

(15) http://internacional.elpais.com/internacional/2013/02/11/actualidad/1360588257_314838.html

(16) http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1245823-escolha-do-papa-foi-mau-gosto-diz-hector-babenco-leia-o-que-falaram-outros-artistas.shtml

(17) http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1245929-escolha-de-argentino-e-novo-comeco-para-a-igreja-diz-leonardo-boff.shtml

(18) http://quemtemmedodademocracia.com/2013/03/14/casaldaliga-sobre-o-novo-papa-deve-pedir-perdao-em-nome-de-toda-a-igreja/

(19) Idem.

(20) http://ea.com.py/los-vinculos-del-nuevo-papa-con-la-dictadura-argentina-la-patota-salio-del-colegio-maximo/

(21) http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/27808/novo+papa+ajudou+ditadura+argentina+reitera+jornalista.shtml

(22) http://www.brasildefato.com.br/node/12323

(23) http://www.pts.org.ar/spip.php?article22115

(24) Blaquier é acusado de ser o mentor de dois seqüestros. O primeiro em 24 de março de 1976, de 3 dirigentes do Sindicato dos Operários de Ledesma, dentre os quais o ex-prefeito de Ledesma e assessor do sindicato, e outro ocorrido em julho do mesmo ano, na chamada “Noite do Apagão”, quando foram seqüestrados 26 operários, familiares e militantes apoiadores do Sindicato, coordenadamente em três localidades próximas à planta principal do Engenho Ledesma. Os seqüestros foram executados usando-se veículos e motoristas do Engenho.

(25) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215944-2013-03-16.html

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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