CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 37 – por José Brandão

Estava prestes a sair de Lisboa para Roma o marquês das Minas, D. Francisco de Sousa, nomeado embaixador com a missão de prestar obediência, em nome do regente D. Pedro, ao papa Clemente IX. Foi o marquês encarregado de fazer viagem pela ilha Terceira, a fim de acompanhar ali D. Afonso. Para ficar no castelo da Terceira com el-rei e governar-lhe a casa foi escolhido Francisco de Brito Freire, que na guerra se distinguira por seu valor; porém, à última hora esquivou-se Francisco de Brito, e foi a mesma comissão dada a Manuel Nunes Leitão.

A 17 de Junho de 1669 chegou à vista do porto de Angra a armada em que ia el-rei com o marquês das Minas. No dia 21 desembarcou o monarca, diz uma testemunha presencial, «e encostado aos braços do marquês veio a pé, com mostras da lesão do seu achaque de estupor, que lhe provinha dos anos da infância, por cuja causa, como trôpego, chegou a um plano onde o esperava uma liteira, na qual se meteu com o marquês».

No castelo «aposentou-se a pessoa de el-rei nas casas e galeria onde o governador habitava, em um quarto dividido, que consta de uma galeria de quarenta côvados de comprido e nove de largo, e uma câmara quadrada, e duas casas mais, uma que servia de guarda-roupa e outra de mesa. Nos quartos inferiores se aposentaram os capitães da guarda e alguns dos criados de maior foro».

Ali passou o infeliz monarca cinco anos, não mais amargurados para ele do que para aqueles que o serviam. Levava vida irregular e com as turbulências do costume. O padre Manuel Luís Maldonado, que era capelão do castelo, diz que el-rei «de Verão e Inverno se costumava levantar da cama das onze para o meio-dia, e mais tarde o fizera a não ser a devoção de ouvir missa todos os dias, em razão do qual (sic) jantava das três para as quatro da tarde, e tudo o que restava até às onze para a meia-noite, em que fazia colação, de mui pouca quantidade, procedia nas travessuras da absoluta criação que teve; tanto inclinado a inquietar, nenhum criado em sua presença sossegava seguro de toda a hora e instantes se não ver descomposto em suas mãos, que a ter pés ninguém o suportara».

Adiante diz o padre Maldonado:

«Não faz dúvida que a condição feroz de el-rei por quase insuportável, era de martírio àqueles que de necessidade lhe assistiam, porque como a inclinação pendia à parte do mal, nas propriedades adquiridas, o que nos prudentes é vício, era em el-rei como hábito. E como quer que o leso lhe privava a perfeição cabal, quase que o melhor ser não tinha, e se em parte eram lúcidos instantâneos, que nunca cabais tiveram o complemento da razão.

Queixavam-se seus criados do áspero trato de seu serviço, se bem confessando o pouco respeito, davam causa a muitas mágoas, porque se da sua parte estava a compaixão, da outra estava o ser da monarquia, se bem o que mais penalizava eram os públicos defeitos, que dele patenteavam proferidos sem decoro, que suposto que verdadeiros alguns, contudo sempre o mal soante desagrado aos ouvidos da moléstia.»

Pelos fins de 1673 urdia-se em Lisboa uma conspiração em que entravam alguns nobres de combinação com o embaixador espanhol. O plano era enviar à ilha Terceira certo advogado que sublevasse os moradores, o governador do castelo seria assassinado e D. Afonso transportado a Espanha, a pretexto de que casaria com a rainha viúva e deste modo voltaria a Portugal. A conjuração foi descoberta, quando ia começar a execução do plano, e os conjurados foram condenados à pena última.

Depois disto resolveu D. Pedro mandar regressar seu irmão a Lisboa, numa armada que foi à ilha Terceira sob o comando de Pedro Jaques de Magalhães. Embarcou D. Afonso VI a 24 de Agosto de 1674; partiu a armada da ilha no dia 30 e chegou a Lisboa a 20 de Setembro.

D. Afonso VI no paço de Sintra

Durante a viagem da ilha Terceira para Lisboa, el-rei foi acometido de uma das suas fúrias, com a mania de que havia de matar Manuel Nunes Leitão, o governador do castelo da Terceira, que também vinha a bordo. Foi necessário trazerem o pobre louco fechado na sua câmara. No Tejo, chegando o duque de Cadaval ao navio e sabendo como D. Afonso estava, disse que lhe abrissem a porta para ir lá dentro. Foi beijar a mão a el-rei e este abraçou-o e chamou-lhe seu amigo, e fixo — estribilho que usava. Disse-lhe o duque:

— Senhor, venho livrar a Vossa Majestade de um grande perigo, porque este navio se está indo a pique; saimos depressa, que o navio nada importa e a vida de V. M. muito.

El-rei, sobressaltado, disse:

— Vamos já.

Saiu ao colo de dois marinheiros, que o puseram na chalupa.

«Chegou a terra o duque, e meteu-o na liteira, e querendo-se pôr a cavalo, não quis el-rei senão que fosse com ele. ‘Perguntou no discurso do caminho pelos seus petiscantes?’, respondeu-lhe o duque que o povo alterado lhes metera tamanho horror, que tinham desaparecido. Disse-lhe [el-rei] que o marquês das Minas o tinha enganado, porque lhe tinha dito que estavam embarcados e que também o príncipe lhe faltara, porque lhe não tinha mandado para a ilha os músicos que ele pediu de lá e os cavalos; perguntou no caminho por Henrique Henriques de Miranda e disse-lhe que aquele era fixo, e que levasse o diabo o conde de Castelo Melhor, que o deitara a perder. O duque lhe dava as respostas que as perguntas mereciam.»

Chegaram à meia-noite ao Palácio de Sintra e ainda durava em D. Afonso a mania de matar Manuel Nunes; foi necessário evitar que este lhe aparecesse.

O palácio ficou guardado por trezentos infantes e uma companhia de cavalos. D. Pedro encarregou o duque de Cadaval de velar pelas comodidades de D. Afonso, pelo que tinha o duque no Palácio de Sintra um quarto para sua assistência.

Ali encarcerado passou o monarca nove anos, saindo do seu quarto apenas para ouvir missa na capela, por uma abertura praticada por cima do coro, de modo que não podia ser visto pelo povo. Tem o quarto onde esteve el-rei D. Afonso, além da porta de saída, outra que deita para um cubículo onde ficava António Rebelo da Fonseca, que o acompanhou até à morte. Ali passeava o infeliz monarca horas esquecidas junto à parede do lado do poente. Com o arrastar dos pés durante aqueles passeios infindáveis, foi-se gastando o pavimento de ladrilho.

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Viveu el-rei D. Afonso em Sintra nove anos — diz o autor da Anticatástrofe. Na madrugada de 12 de Setembro de 1683 começou a gritar que o vestissem, porque queria ir ouvir missa, todos estranharam, porque não era nele costumada aquela devoção. Estando à missa, quando o sacerdote ia fazer a consagração, entrou el-rei em ânsias, e como alguns criados lhe dissessem que se recolhesse, respondeu que queria adorar a Deus, e assim fez. Chamaram o médico, e querendo levá-lo para a cama, não consentiu nisso, e começou a dizer em altas vozes: «Senhor! Perdoai-me os meus pecados», o que repetiu muitas vezes, com edificação de todos os presentes.

Antes de findar a missa cresceram as ânsias e perdeu o pouco juízo que tinha. Levado para a cama, chegou o confessor, e quando el-rei o viu começou mais sossegadamente a chamá-lo:

«Venha cá, meu padre.»

«Dê-me a sua mão», disse-lhe o confessor. «Quer Vossa Majestade confessar-se?» Respondeu el-rei que sim. Como crescessem muito as ânsias, disse depois que não podia confessar-se. Apertou muito a mão do confessor, que lhe deu a absolvição. Já moribundo, disse-lhe o confessor que, se queria que o absolvesse, que lhe apertasse a mão, e tornando a absolvê-lo, expirou.

Com grande solenidade foi o cadáver de Afonso VI levado para a Igreja de Belém, onde ficou depositado numa urna.» *

* Fortunato de Almeida, História de Portugal, Vol. IX, pp. 129, 134-143, 147-153, 154-156, 157-161.

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