Castelao (I) – por António Gomes Marques

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Pela importância reconhecida a Castelão o  argonauta António Gomes Marques dedicou-lhe um texto cuja publicação iniciamos hoje e que prosseguirá durante a semana.

castelão

Escritor galego, nascido em 30 de Janeiro de 1886, em Rianxo (assim em galego, como certamente ele gostaria), a quem deram o nome de Alfonso Daniel Manuel Rodríguez Castelao, mas sempre o referi apenas como Castelao, sendo este o nome que fixei desde os primeiros textos que dele li, embora apenas os seus desenhos fossem assinados só com este apelido. Viria a falecer na Argentina, em Buenos Aires, no dia 7 de Janeiro de 1950.

Tratando-se de Castelao, não podemos deixar de referir que no ano do seu nascimento acontece a «Revolta Camponesa na Corunha» e, no ano seguinte, os federalistas tornam público o seu «Projecto de Constituição para o Estado Galaico», ou seja, são passados 105 anos desde a divulgação pública de tal projecto.

casa de Castelão em Rianxo
casa de Castelão em Rianxo

Para além do escritor que fiquei a saber ele ser, vim a tomar conhecimento de que era detentor de outras capacidades, não só na escrita –ensaísta, dramaturgo e desenhador artístico- mas também no exercício da cidadania, tornando-se um político comprometido com a sua terra, sendo considerado o pai do nacionalismo galego, para além de ser tido, no seu tempo de vida, como a personalidade mais importante da cultura galega.

Concluiu o curso de medicina, que se recusou a exercer. Lembremos uma das suas afirmações a este propósito:

«Tornei-me médico por amor ao meu pai; não exerço a profissão por amor à humanidade».

Ao recordar esta frase, logo a memória me faz reviver a leitura de um dos seus contos, dos primeiros que dele li, intitulado «O retrato», no qual o escritor se serve desta sua formação e da sua vontade de não exercer a profissão de médico e também de outra das suas facetas artísticas que era a sua capacidade para o desenho. Começa assim este conto:

«Por descargo de consciência atirei com o meu diploma de médico para o fundo de uma gaveta, e procurei outra maneira de me governar.»

Só que a personagem do taberneiro não procurava o médico mas sim o desenhador para lhe fazer um retrato do filho agonizante, não o real mas «um rapaz imaginário. Inventei um rapaz muito bonito, muito bonito: …», o que permitiu que a personagem do taberneiro pudesse dizer, com o que termina o conto: «Tive muitos filhos, mas o mais bonito de todos foi o que me morreu. Vede, aí está o retrato que não mente».

Contava três meses de vida quando o seu pai emigrou para a Argentina, ficando a cargo dos seus avós maternos, sendo o seu avô carpinteiro.

Com quase 10 anos, emigrou com a sua mãe para Bernasconi, na Argentina, onde o seu pai os aguardava, o que será inspirador para um outro conto, embora se refira nele a uma idade que ainda não tinha, «O segredo», que começa assim:

«Tinha eu onze anos quando o meu pai, que estava na Argentina, nos chamou para junto de si; …».

Ainda do conto, transcrevemos também:

(…). Minha mãe, a pobre, chorava de ver-se entre gentes sem religião. E os dois, feridos de saudade, considerávamos menos pesada a pobreza pura dos meus avós, que já se tornara da cor do céu diante da escura fartura do presente; e sempre que os nossos olhares se cruzavam, debulhávamo-nos em lágrimas».

Ainda na Argentina, interessa-se pela caricatura ao ler «Caras y Caretas», de Xosé María Cao Luaces, o que o leva, já em Rianxo, a ter aulas de desenho, dado que os seus pais decidem regressar à Galiza para que Castelao pudesse estudar medicina na Universidade de Santiago de Compostela, entre 1903 e 1909, tendo frequentado e completado, nos três anos anteriores, o bacharelato de Artes.

Tempos depois, o pai regressa à Argentina, onde se mantém até 1903, o que lhe permitiu fazer boas poupanças, melhorando a situação económica da família, permitindo-se não só suportar os estudos de medicina do filho mas também dedicar-se à política, vindo a ser alcaide de Rianxo por duas vezes.

O meio universitário abriu-lhe horizontes pelas vivências que lhe proporcionou, tomando consciência da necessidade de uma Galiza «mais justa, mais livre, mais fértil», levando a que mais tarde, ao recordar os anos de estudo de medicina, escrevesse: «a nossa mocidade empurrava-nos para o separatismo».

Mas o estudo de medicina não o afasta da verdadeira paixão pelas artes: pelo desenho, pela pintura e agora também pela música, fazendo mesmo parte da tuna, com a qual visita Portugal em 1908, o ano em que outro grande vulto da cultura, Ramón Del Valle-Inclán, publicou a peça «Romance de Lobos», a última da trilogia de «Comédias Bárbaras» (de que fazem parte «Cara de Plata» e «Águila de Blasón»), cuja primeira versão tinha sido publicada em folhetim do jornal El Mundo, entre 21 de Outubro e 26 de Dezembro de 1907. Neste mesmo ano, ainda a frequentar a Universidade de Santiago de Compostela, consegue expor os seus desenhos em Madrid, e, como a caricatura sempre teve a sua preferência, participou no II e no III Salão Nacional de Humoristas. Na Galiza, mais propriamente na Exposição Regional Galega de Santiago de Compostela, ganhou uma medalha de ouro, com o tríptico «Uma festa na aldeia». A sua paixão pelas artes dá-lhe coragem, levando-o a confessar ao seu pai que ser artista era a sua única ambição, tendo cursado medicina apenas para o satisfazer, acrescentando: «Eu sou artista e só ambiciono viver da arte, o contrário seria a minha desgraça». Apesar desta confissão, a vontade do seu pai viria a ser satisfeita quando concluiu o curso de medicina em 1909 e, mesmo consciente do que queria ser na vida, iniciou o doutoramento, o qual, esse sim, não completou.

O ano de 1909 viria a destacar-se na Galiza pela morte de sete camponeses em Oseira numa acção de protesto, vindo Chinto Crespo, líder agrário, a ser desterrado. Ainda neste ano, os tumultos camponeses vão também acontecer em Narón e Neda.

(continua)

8 Comments

  1. Parabéns! Celebro este inesperado interesse pelos autores galegos. Castelão deixou escrito que o seu apelido deveria ser escrito com til. Do resto, tanto faz Rianjo quanto Rianxo, ambos são galegos e ambos são língua portuguesa, como com certeza o próprio Castelão diria e reconheceria. Outro grande escritor e inteletual galego, Carvalho Caeiro, do qual hoje fazem 23 anos do seu falecimento, explicou por que o topónimo devia ser grafado “Rianjo”. Mas, realmente, TANTO FAZ. Se preferirmos Rianxo, Rianxo seja. Não é essa a chave que abrirá as fechadas portas do entendimento entre galegos e portugueses. Aguardo com curiosidade o resto do artigo. E só indicar que alguns dos desenhos de tão magnífico pintor acompanham os garavanços galegos que uma servidora apresenta cada semana neste blogue.

  2. Os meus cálidos parabéns para o autor, por esta primeira parte do que espero venha a ser iluminador para os portugueses contemporâneos sobre um dos mais importantes vultos da nossa reivindicação nacional (houve muitos outros, claro, uns que como ele conseguiram furtar-se às garras do fascismo espanhol, para morrer no exílio, outros que morreram na pátria, assassinados, ou nos campos de batalha);

    mas permita-me o caro autor assinalar (como já fica bem claro na primeira linha da apresentação) a vontade do nosso homem quanto à grafia do seu nome: pode parecer questiúncula para quem não sofre na carne, um dia sim e outro também, a colonização acelerada da nossa língua pela castelhana, e peço permisso para uma cita dele: numa carta, que se tornou famosa, de 1944, ao historiador espanhol Claudio Sánchez Albornoz y Menduiña, escrevia:

    ““Yo deseo que en Galicia se hable tan bien el gallego como el castellano y el castellano tan bien como el gallego. Deseo además que el gallego se acerque y confunda con el portugués, de modo que tuviésemos así dos idiomas extensos y útiles”” (A.R. Castelão, em revista Grial, no 47, 1975, p. 101, ““Dos cartas polémicas””; a reprodução facsimilar pode conferir-se no apêndice de “”Castelao na luz e na sombra””, por V. Paz-Andrade, p. 597, Eds. do Castro, Corunha, 1982, que está aqui: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=108869015824138&set=pb.100001031212338.-2207520000.1355640115&type=3&theater).

    Na mesma página, e sobre a grafia do seu apelido, escreveu: “”Termino esta carta felicitándolo a Vd. por tener una madre gallega.[…] Claro está que hace Vd. muy bien en usar en sus libros el apellido Menduiña, […] Pero mi caso es mucho más admirable que el de Vd. porque yo sólo uso el primer apellido de mi madre y me llamo Castelao a secas, (Castelão=Castellano) lo cual delata una ascendencia nada grata para la castellanofobia de que Vd. me supone poseído.””

    e termino eu, à minha vez, apontando para essoutra grafia, de “Rianxo”: com efeito assim é pronunciado entre nós, mas o topónimo original é “Rianjo”, e só pela esmagadora influência do castelhano os “nacionalistas” galegos reclamaram esse “x”, com o qual concordam muito bem os funcionários do Estado Espanhol, que simplesmente pronunciam “Rianso”… sic transit uma nobre estirpe!

    (não está clara a etimologia de Rianjo, mas podemos apontar outros tops. similares: Rianho, Rianjinho, nos docs. medievais Riannio, Riangulo… e o vocábulo “rianjo”, sem mais, significa hortaliça (e “rianjeira” significa [tb] vendedora de hortaliças): poderia ser um um *rigandio, mas prefiro deixá-lo aqui, só incidir em que nada nos impede manter a grafia tradicional Rianjo, e pronunciar rianxo…);

    uma aperta galega!

  3. Meus Amigos
    Não pretendo entrar em polémica, sobretudo numa matéria que conhecerão melhor do que eu. A razão por que escrevi sempre Castelao sem til foi por assim ver escrito no I Volume das Obras Completas de Castelao, edição AKAL EDITOR, 1975-1981, assim como no Volume 3 das Obras de Castelao, edição da Editorial Galaxia, S. A., 2000. Neste último volume vem também o que me parece ser o fac-símile da assinatura do nosso autor, o qual também não tem til.
    O Carlos Loures já me tinha dito que os amigos galegos escreviam o nome de Castelao com til; no entanto, a razão da minha escolha está acima justificada e pensando que estava a fazer bem.
    «Uma aperta galaico-portuguesa» do vosso
    António

  4. Caríssimo António, por muita justificação que veja publicada em livros espanhóis e por muito caso que faça V. ao próprio autor (que assinava provavelmente com o seu nome “oficial espaÑol”) nunca nos achegaremos o suficiente se não ousa ir além disso, além da fronteira espanhola. Precisamente todas essas justificações que justificam o injustificável (a castelhanização da Galiza) são as que não nos valem. Mesmo contra a vontade dos galegos há que ir para nos descobrir, tamanha é a lameira em que a Espanha nos meteu. Se eu fosse portuguesa, nada haveria de mais natural que colocar um til sobre o “a” na palavra “castelão”.
    Mas de novo parabéns!! Aguardo impaciente os novos capítulos.

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