ESTUDO DA MERCER DISTORCE A REALIDADE, MAS SERVIU NA CAMPANHA CONTRA A FUNÇÃO PÚBLICA. Por EUGÉNIO ROSA

 O ESTUDO DA MERCER SOBRE AS REMUNERAÇÕES DISTORCE A REALIDADE MAS SERVIU AO GOVERNO PARA MANIPULAR A OPINIÃO CONTRA OS TRABALHADORES DA FUNÇÃO PÚBLICA – II

O ESTUDO DA MERCER NÃO TEM QUALQUER CONSISTÊNCIA TÉCNICA E DISTORCE A REALIDADE

Comecemos pela representatividade da amostra das empresas privadas cujas remunerações serviram de base de comparação com as da Administração Pública utilizada pela MERCER. Na pág.46 do seu estudo, a MERCER diz que tem uma base “289 empresas do mercado português, englobando dados referentes a 38.325 colaboradores”. No entanto, nada esclarece como foram selecionadas estas empresas. Por outro lado, e contrariamente ao que fez a CAPGEMINI para elaborar o estudo solicitado pelo governo de Sócrates que utilizou todas as empresas daquela base, a MERCER utilizou, naturalmente porque isso era mais conveniente para os objetivos do cliente, apenas as empresas pertencentes ao “Percentil 25%”, ou seja, constituído por pequenas empresas (em média com 30 trabalhadores), naturalmente com remunerações mais baixas. Ao reduzir a amostra desta forma tornou-a menos representativa (o número de trabalhadores da amostra foi reduzido de 38.325 para apenas 2.167), o que tornou os resultados menos consistentes os quais já tinham sido enviesados (distorcidos) através da forma como os selecionou dentro das 389 empresas da sua base (apenas considerou os salários dos trabalhadores pertencentes a pequenas empresas).

Para que o leitor possa ficar com uma ideia como foram distorcidas as conclusões vamos comparar as remunerações do setor privado utilizados pela CAPGEMINI e pela MERCER nos respetivos estudos para as comparar com as do setor público. O quadro 1, construído com dados constantes do estudo da CAPGEMINI, permite ficar a conhecer quais os valores das remunerações do setor privado que a MERCER tinha fornecido à CAPGEMINI para esta elaborar o seu estudo para o governo de Sócrates, assim como as diferenças a que chegou entre as remunerações do setor privado e do setor publico que não agradaram o governo.

Mercer - I

Segundo o estudo da CAPGEMINI, realizado em 2006, excetuando o caso dos professores (e é um caso particular que esclareceremos mais à frente), em todas as outras profissões as remunerações no Estado são inferiores às do setor privado, atingindo em relação a certas profissões diferenças muito grandes. Por ex., a remuneração de um diretor geral na Administração era inferior entre -46% e 61,5% à praticada no setor privado; a dum analista informático era inferior entre -23% e -28%; a de um jurista era inferior entre -27% e -31%; a de um economista era inferior entre -10% e -16%; a de um engenheiro era inferior entre -40% e-43%; a de um médico era inferior em -16,6%; e a de um enfermeiro era inferior em -36,1%; a de um assistente técnico (assistente administrativo) era inferior entre -42,5% e-47,6%; no grupo de assistentes operacionais, a de um eletricista era inferior na Administração Pública entre -13,4% e – 47,6% à do setor privado; a de um mecânico era inferior entre -28,5% e -46,2%; a de um auxiliar de limpeza era inferior em -31%; a de um telefonista era inferior em -13,6%; e a de um motorista era inferior entre -37,9% e -38,8%.

AS REMUNERAÇÕES DO SETOR PRIVADO UTILIZADAS PELA MERCER EM 2012 SÃO MUITO INFERIORES ÀS UTILIZADAS, EM 2006, PELA CAPGEMINI

A questão que interessa esclarecer, e que não foi ainda esclarecida, é a seguinte: Como é que a MERCER conseguiu chegar a conclusões, em muitos caso, diferentes da que chegou a CAPGEMINI em 2006, apesar de ter apoiado esta última empresa pois tinha uma parceria com ela? O quadro 2, onde constam o valor das remunerações do setor privado utilizado por cada uma das empresas, mostra de uma forma clara como isso foi conseguido.

Mercer - II

Excetuando o caso dos médicos, em relação a todas as profissões os valores das remunerações do setor privado utilizados pela MERCER em 2012 são significativamente inferiores aos valores utilizados pela CAPGEMINI em 2006. Calculando a média dos valores constantes do quadro 2 da CAPEMINI e da MERCER conclui-se que os desta última são inferiores aos da primeira empresa (CAPGEMINI) em cerca de -22%. No entanto, existem profissões onde a diferença é muito maior. Por ex., a nível de técnicos superiores (TS) , os valores da MERCER são inferiores aos da CAPGEMINI entre -27.7% e -50,7%; em relação aos enfermeiros o valor utilizado pela MERCER é inferior ao da CAPGEMINI em 39,5%; a nível de assistentes técnicos (AT) são inferiores entre -30% e-35%; em relação a assistentes operacionais (AO) os valores da MERCER são inferiores entre -2,3% e -45,7%.

Estes dados mostram com clareza a forma como a MERCER elaborou o seu estudo, e também esclarecem por que razão as conclusões a que chegou esta empresa no seu estudo são diferentes das da CAPGEMINI. E tudo isto ainda se torna mais chocante, se se tiver presente que, entre 2006 e 2012, as remunerações no setor privado aumentaram cerca de 16% segundo o Banco de Portugal, enquanto no setor público subiram apenas 8% (sem ter em conta os cortes de 3,5% a 16% das remunerações em 2011-2012 e o confisco do subsidio de férias e do Natal em 2012). A pergunta que se coloca é naturalmente a seguinte: Como é que as remunerações no setor privado em 2012 são inferiores às de 2006 apesar dos salários nos privados terem aumentado no período 2006-2012, segundo o Banco de Portugal, cerca de 16%? A resposta deixo-a ao leitor.

(continua)

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