Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Guerra pós-Irão: o fim de uma Era, não para o declínio, mas antes como detonante de uma mudança abrupta
Publicado por
em 12 de junho de 2026 (original aqui)
O Professor Michael Hudson, num debate recente, discorda daqueles que hoje falam do ‘declínio da hegemonia dos EUA’. Um declínio implica algo vai para cima e para baixo, diz Hudson, mas sempre se recupera. “Mas nunca houve tal coisa estatisticamente como um ciclo … não há declínio, sim um colapso”.
“Estamos a assistir ao fim de uma era, não um declínio, mas uma mudança abrupta. E esta mudança não decorre de fora: o fim do poder americano não resultou de qualquer guerra civil estrangeira ou outra guerra contra o domínio americano. O fim veio dos próprios Estados Unidos na tentativa de justapor o seu interesse como hegemonia contra o de todos os outros países“.
Paradoxalmente, o Professor Hudson diz:
“Cada movimento para escapar ao ‘declínio’ dos Estados Unidos tornou-se o mecanismo que o provoca. Os EUA entraram em guerra para reafirmar o domínio – e provaram que não podiam mais dominar … Exerceram quarenta anos de pressão máxima para quebrar o Irão e, em vez disso, forjou o próprio adversário que agora [enfrenta a dominação dos EUA]”.
A fim de preservar o poder dos Estados Unidos, o presidente Trump tratou de impor uma série de pontos de estrangulamento em toda a economia mundial “através do controle do petróleo – porque todos precisam dele“, diz Hudson.
O facto de Trump ter entrado em guerra contra o Irão, contra a Rússia e instituído a tentativa de estrangulamento contra a China, porém, não constitui, por si só, a matriz completa da preservação do poder americano. Essa matriz é mais ampla. Mas o petróleo é uma das suas principais dimensões – assim como a hegemonia do dólar. Trump quer claramente consolidar o controlo global da energia para que os EUA determinem quem pode ter acesso à energia (ou seja, não o Irão, nem a Rússia, nem a Cuba), e aqueles cujo fornecimento de energia será pressionado para restringir o potencial de concorrência (ou seja, a China).
Por outro lado, os fornecedores de combustível, como a Rússia, são sancionados precisamente para tentar limitar aqueles a quem o petróleo e o gás russos podem ser fornecidos. Os estados-clientes do poder imperial (ou seja, a Europa) parecem surpreendentemente contentes em actuar como o executor do domínio absoluto dos Estados Unidos sobre a energia, transformando-se a si mesma num prolífico emissor de sanções.
As outras facetas (além do domínio do petróleo) da tentativa dos Estados Unidos de estabelecer um estrangulamento sobre as economias do resto do mundo são, em primeiro lugar, a política tarifária – pela qual Trump esperava usar a ameaça de tarifas economicamente disruptivas para coagir Estados flexíveis a prestar lealdade a Washington; concordar com o alinhamento com as políticas dos EUA; e fornecer aos EUA as matérias-primas de que necessita — em troca de admissão à ‘rede interna’ de Washington (Estados clientes dos EUA).
Com efeito, existem duas ‘redes internas’ de Washington: uma constituída por Trump, a sua família e os seus parceiros comerciais alargados; e a outra a dos protegidos de Trump (Estados do Golfo, etc.).
A política tarifária é efetivamente uma maneira polida de dizer: “usaremos tarifas, ou um aperto de energia, ou um aperto financeiro para criar perturbações nas vossas economias, a menos que vocês concordem em juntar-se à rede liderada pelos EUA”.
No entanto, nem as políticas tarifárias nem as políticas de estrangulamento energético estiveram isentas de contratempos, até porque o Irão se recusou a cumprir e continua a fornecer petróleo à China e a outros aliados iranianos.
Assim, a nova ‘perna’ para a política de estrangulamento é a iniciativa ‘Pax Silica’. Arnaud Bertrand explica que a administração Trump ‘expôs explicitamente o seu propósito de ‘grupo’:
“Os países inscrevem-se, alinham as suas cadeias de abastecimento com Washington, excluem a China (polidamente chamados de “práticas não mercantis” e “dumping injusto”) – e, em troca, têm acesso ao ecossistema tecnológico imperial“.
“Para que não haja qualquer ambiguidade, o Subsecretário de Estado Jacob Helberg – um ex-Palantir que é o arquiteto por trás da iniciativa – explica claramente: quem controla “a computação e os minerais que a alimentam” vai controlar o século 21, e ele quer formar um grupo de países “alinhados” em torno de Washington num “novo consenso de segurança económica” para se certificar de que são eles que o controlam“.
A guerra de Trump do ‘Make America Great Again’ tem, portanto, implicações a nível mundial. O mundo não pode simplesmente voltar ao que era antes. Wall Street e os ‘mercados’ parecem acreditar que isso é provável e até inevitável (eles não podem imaginar um futuro diferente), mas o resto do mundo vê a guerra do Irão como uma mudança sistémica para uma nova era, precisamente porque os combustíveis fósseis, fertilizantes e outros produtos afins são os componentes que fazem o mundo ‘girar’.
A guerra do Irão vai provocar um maior reconhecimento em todo o mundo de que os países necessitam (no mínimo) de auto-suficiência alimentar para os salvar da militarização usada pelos EUA no comércio exterior em alimentos, petróleo, fertilizantes, e em qualquer coisa em que os EUA possam criar um ponto de estrangulamento — e usar como arma. Isto implica um regresso a economias auto-circulantes e auto-suficientes — em contraste com o modelo orientado para a exportação do Banco Mundial financiado pela dívida.
Andrey Bezrukov, Professor da Universidade russa MGIMO e ex-oficial de inteligência do SVR [n.t. principal agência de inteligência civil e espionagem da Rússia que opera fora do país], abordou especificamente os desafios de um mundo em mudança no fórum de São Petersburgo em 3 de junho de 2026. E embora tenha feito as suas observações no contexto da Rússia, as suas observações aplicam-se em todo o mundo.
No seu discurso — que Laura Ru resumiu — Bezrukov argumentou que a Rússia entrou num novo e prolongado confronto global com o Ocidente. Segundo ele, este conflito representa uma mudança fundamental na natureza da guerra que definirá a política e a sociedade russas no futuro previsível.
“Bezrukov enfatizou que na atual luta (militar) não se trata principalmente de capturar território, que ele descreveu como tendo perdido muito do seu valor tradicional. Em vez disso, é uma guerra de atrito focada em minar sistemas críticos, incluindo infra-estruturas, redes de comando, tecnologia, ativos espaciais, segurança biológica e o domínio da informação … ‘a estratégia do Ocidente nesta guerra é muito simples: evitar a colisão nuclear connosco, da qual eles emergirão como perdedores. Portanto, eles vão minando a situação lentamente‘”.
“Ele alertou que a Rússia deve esperar permanecer em estado de guerra por muitos anos, possivelmente 20 a 30 anos. Durante este período, a Rússia deve aprender a coexistir com a realidade da guerra, continuando ao mesmo tempo o seu desenvolvimento económico”.
“Um dos temas centrais do seu discurso foi a forte crítica à abordagem actual da Rússia. Bezrukov argumentou que o país tem sido muito tolerante com os seus adversários — ‘somos lentos. Nós permitimos [aos nossos inimigos] demasiado. Eles não nos temem … porque muitas, muitas linhas vermelhas de que falámos permaneceram apenas no papel‘”.
“Para se adaptar a esta nova realidade, Bezrukov apelou a uma reestruturação fundamental do estado e da economia. Instou a criação de um sistema de dupla finalidade capaz de prosseguir tanto o desenvolvimento como a defesa a longo prazo. As infraestruturas críticas — como centros de dados, instalações de armazenamento de petróleo e centros de comunicação — devem ser enterradas no subsolo ou protegidas de acordo com os mesmos padrões que as centrais nucleares. Sublinhou igualmente a necessidade de colmatar o fosso entre a sociedade militar e a civil e de adoptar políticas mais assertivas. A Rússia não pode esperar um rápido regresso às condições de paz e deve, por conseguinte, reorganizar a sociedade, a economia e a estratégia em conformidade.”
O discurso de Bezrukov chamou muita atenção pelo seu tom e pelo seu apelo para que a Rússia se adapte psicologicamente e estruturalmente a uma era geracional de confronto – um tema já abordado longamente pelo Professor Sergei Karaganov.
O que estas duas contribuições representam é um mundo em mudança que tenta reestruturar-se na sequência da face agressiva de uma hegemonia dos EUA em declínio, e que procura como isolar as suas economias das tarifas, energia, tecnologia e ataque do dólar dos EUA ao resto do mundo, e concomitantemente, adaptar-se à nova era de guerra geopolítica assimétrica que a guerra do Irão adotou.
Professor Hudson conclui,
“O Irão está a lutar por um modo de vida contra pessoas que querem negar-lhes … a capacidade de fazer o seu próprio futuro. É disso que se trata nesta luta. E é, em última análise, uma luta moral que se traduz numa luta económica e numa luta comercial — e está a conduzir a esta divisão [global]”.
É este modo de ser moral e civilizacional versus o vazio materialista radical Trumpiano-americano que provavelmente virá a definir as guerras civis e globais da nossa era.
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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou euniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).


