Falar-se do demónio, fez com que se referisse mais uma vez o caso estupendo do convento do Sacramento, em Alcântara: o caso que aterrara Lisboa, pela audácia de Satanás. Belzebu, sequaz do inferno, entrara em pessoa no convento por uma janela sobre o rio, e seduzira as freiras. Todos, arrepiados, com medo das bruxas, tremiam. Talvez, porém, que mais de um desembargador risse consigo, recordando as vezes que fora às grades visitar suas primas. Mas a decisão do arcebispo-confessor o primeiro ministro merecia o aplauso unânime: as freiras estavam na Inquisição; a janela por onde Belzebu entrara, entaipada; e sobre essa e todas as que dão sobre o rio, mandara o prelado pintar cruzes vermelhas, para afugentar o demónio…
Caso horrendo! E para não irem assim, com tão maus sonhos para a cama, lembraram a gracinha dos rapazolas que tinham posto fogo ao convento de Santa Clara, para meter medo às freiras. — «Para alguma coisa mais…» — observou, com benévola malignidade, Monsenhor Acciaioli. Eram uns maganões, os rapazolas. Verduras da mocidade.
À porta, em baixo, esperavam as liteiras e os criados com lanternas, no meio de um burburinho de mendigos leprosos. E, saindo com mesuras, o desembargador dizia — como o corregedor de Viseu a Link — «Portugal é pequeno, mas é um torrão de açúcar!»
No reinado de D. Maria I, apesar da reacção beata e do ódio ao marquês de Pombal, julgava-se necessário continuar o movimento de organização e fomento do reino. Martinho de Melo, Almada, e outros homens, discípulos de Pombal, prosseguiram ainda a sua política, como o rasto de um navio que passa. Daí veio a fundação da Academia das Ciências, da Academia de Marinha, a construção da Cordoaria de Lisboa, além de outras obras.
Projectaram-se também estradas; e o primeiro cuidado foi lavrar em Lisboa colunas monumentais para marcar as léguas. Cada marco tinha um relógio de sol; mas como, às vezes, a légua acabava à sombra, debatia-se qual era preferível: errar a medição, ou ficar o relógio de sol sem luz. Por se não chegar a um resultado, deixaram de fazer-se as estradas. Gastaram-se, em compensação, nove milhões de cruzados na construção do Convento Novo.
Apesar de todos os sábios que Pombal importara, a ignorância continuava na mesma. Um desembargador, conselheiro da fazenda, administrador da Alfândega, negou entrada a uma caixa, vinda de Génova, por haver peste em Marselha: estudando o mapa, e achando só meio palmo entre os dois portos, julgou perto de mais para não haver perigo. Outro desembargador não mandava para o Rio de Janeiro notícias do cerco de Gibraltar (1781), por que, estando-se no Brasil mais perto, as novas seriam mais frescas.
As famosas cabeças desembargatórias eram tão vazias como vazio de gente era o reino; e documentos de pouco mais tarde (1804) acusam este facto estupendo: ao longo da raia, as Misericórdias negociavam com os enjeitados da roda dos expostos, vendendo-os aos espanhóis, a moeda de ouro por cabeça, para crias. Essas rodas tinham nascido da necessidade de albergar a numerosa criação dos conventos. Quando a uma parte considerável da população se impunha o celibato, era indispensável instituir asilos para os milhares de filhos sacrílegos.
Tal era o Portugal-Bragança, restaurado, ao que se disse. Para consolidar uma dinastia, cedeu-se o Oriente aos holandeses; e se não se perdeu o Brasil, foi porque ele próprio soube defender-se. Depois enfeudou-se o reino aos ingleses; e por cima de tudo isto aceitava-se o santo e a senha dos jesuítas. Quando o Brasil começou a render, D. João V começou a reinar e a gastar. Devorou-se o que ainda restava em Portugal, devorou-se tudo o que veio da América. Portugal importava, só por Lisboa, 4 000 contos de pão cada ano.
E uma série de doidos, de maus, ou de idiotas, levados pelo braço dos negociantes jesuítas e ingleses, pupilos de uns, prebostes de outros, disseram-se reis de um reino que era uma sombra, animada por um único sonho: o Sebastianismo.
D. Maria I endoideceu de todo; e na cena portuguesa levantou-se a espessa figura do príncipe-regente, com o seu olhar vago, na imóvel contemplação da régia ociosidade, bocejando em permanência — a assistir com as mãos nos bolsos, indiferente e passivo, ao desabar ruidoso do carcomido edifício da nação. Casou-se com o príncipe herdeiro dos Braganças uma princesa castelhana, ou napolitana. Enxertou-se no trono roído de uma família, sempre estéril e agora moribunda, o rebento da família orgíaca em cuja seiva corria toda a podridão ardente da Itália do sul. Vieram daí, com um temperamento audaz e um carácter semelhante, os dois filhos que o acaso fez rivais. Esse cruzamento de sangue concorreu para determinar a nossa longa crise de trinta anos (1808-38), anunciada pelos ecos da grande revolução de França, já em esboço na dupla fisionomia do paço de Queluz.
Fora, nos jardins, reinava Carlota Joaquina; dentro, nos salões nus, tristes e sombrios, o príncipe-regente. Fora eram festas e esperanças, dentro ironias e tristezas. A princesa tinha uma corte de aias e criadas espanholas, e sentada à moda do Oriente num tapete de veludo sobre a relva, assistia às danças voluptuosas da Andaluzia acompanhadas de castanholas, ao som das cantigas sensuais da Península. Era um jardim da Síria com o seu cortejo de bacantes, com as suas ruas de limoeiros, de buxo, de murta, folhagem de um verde quente e escuro, quase carnal; com os repuxos e cascatas presididos por estátuas e grupos da mitologia amorosa dos gregos; com aviários, encerrando pássaros de cores rutilantes que embriagam e gritos estrídulos excitantes com a nota selvagem da malaguena; com estufas recheadas de plantas gordas do Brasil, tão extravagantes nas formas e nas cores como as talhas e jarras da Índia e do Japão espalhadas ao longo das ruas misteriosas. À noite, os bailados, os risos, o canto, o sapateio do bolero e o estalar das castanholas insinuavam-se em coro pelas avenidas umbrosas, onde timidamente luziam as velas ardendo em campânulas de cristal, como estrelas lúbricas incitando amantes. O jardineiro preto parecia um eunuco, e os bosques de Queluz, embalsamados pelo aroma das laranjeiras, jardins de uma Armida feia e já em moça mal reputada.
Dentro do paço, habitado pela sombra de um rei, vagueavam nas salas nuas as sombras de uma corte. Era um dó, uma tristeza mole sem nobreza. Era uma galeria enorme forrada de espelhos, para aumentar ainda o vago de uma realidade crepuscular. Ao fundo, em pé, o príncipe dava audiência a um inglês excêntrico e opulento (Beckford) e confessava-lhe tristemente a sua miséria com ironias pungentes. O reino era de frades, mas metade deles não estavam em seu juízo. Tudo enlouquecera, tudo emparvecera. E de longe ouvia-se o trovão medonho da França! «A nau do Estado, dizia o príncipe arcadicamente, naufraga: Deus sabe a que praia irá bater!» E retirou-se o príncipe como um sonâmbulo. As velas de cera, enfumadas, tristes e raras, alumiavam sepulcralmente o paço, e nas câmaras havia enxames de pretendentes, como os mendigos nas portarias dos conventos. Generais e magistrados, morgados, capitães de navios, nobres e plebeus, triste, passivamente, esperavam horas depois de horas, calados, encolhidos com a sombra dos muros. Uma vaga nuvem de tristeza caída envolvia o paço, envolvia a nação, moribunda e silenciosa.
De repente ouviram-se gritos de horror. Que era? Chegara o trovão de França, despedindo raios? «Ai, Jesus! Ai Jesus!» Era a rainha doida que se estorcia no leito com um acesso de medo. «Ai, Jesus! Ai, Jesus!» Eram as chamas do inferno invadindo o quarto; era o pai, ímpio cúmplice de Pombal, de pé, em cinzas, devorado pelo inferno e ainda vivo, eternamente padecente. Era o pai a cavalo, vestindo imperialmente: a majestosa estátua do Terreiro do Paço, negra, hórrida, sobre um pedestal de ferro candente, no meio dos coros de demónios, asseteando-a, perseguindo-a. «Ai, Jesus! Ai, Jesus!».
De joelhos, o príncipe chorava implorando sossego à mãe delirante; fora, nos jardins, ouvia-se o estalar das castanholas e o grito selvagem da «malaguena»; e de longe, pelas quebradas das serras, vinha reboando o trovão ameaçador da tempestade francesa, a aproximar-se.» *
* Oliveira Martins, História de Portugal, pp. 377-391.
