Chipre é uma pequena ilha europeia no Mediterrâneo, não chega a ter um milhão de habitantes e, além disso, sobrevive com o sector Norte do território ocupado militarmente e colonizado, na prática, por uma potência vizinha e da NATO, a Turquia.
Apesar deste quadro, Chipre pode ser o prego que faltava para sepultar a moeda única europeia, o euro, esse instrumento inventado em Berlim à imagem e semelhança do marco e que tem servido de arma decisiva da guerra económica da Alemanha contra o resto do continente.
É difícil que o euro sobreviva, sem sequelas, à operação de saque montada pelos chefes da Zona Euro, através da troika e dos colaboradores direitistas cipriotas, a pretexto da concessão de uma “assistência financeira” (piedosa designação) de dez mil milhões de euros a Chipre.
O caso de Chipre não é apenas mais um no processo de criação de protetorados económicos dentro da União Europeia montado por Berlim e Bruxelas, com apoio do FMI. À austeridade, à colonização orçamental e ao ataque aos direitos sociais mais elementares soma-se agora um assalto ao setor bancário através do congelamento das contas superiores a cem mil euros. O ataque foi idealizado contra todos os depósitos bancários, mas a reação do Parlamento cipriota ainda conseguiu travar essa operação. Por isso, por exigência de Bruxelas, Berlim e FMI, a nova fórmula foi acrescida da condição de não ser submetida ao Parlamento, onde também não passaria. Coisa mais democrática não pode haver.
A receita para Chipre é um teste estratégico. A Comissão Europeia estuda já a possibilidade de a aplicar a outros países asfixiados pelas dívidas soberanas e/ou problemas nos setores bancários, sabendo-se que Portugal, Grécia, Itália, Eslovénia e outros estão na calha. Além de não confiarem nos governos que os arrasam com a austeridade social e fiscal, os povos destes países desconfiam cada vez mais de Bruxelas e temem agora pelo destino dos seus depósitos bancários.
O edifício desmorona-se. O euro como moeda forte foi criado pela Alemanha no seu próprio interesse como único país exportador da União Europeia. Depois disso, os setores produtivos dos pequenos e médios países foram arrasados e, como consequência, as suas economias mergulham em penosas recessões, irreversíveis a médio prazo. Prevê-se, por exemplo, que o PIB de Chipre caia 20 por cento em seis meses. As realidades dos outros países são bastante mais negras ainda do que eram as previsões.
Quando a União Europeia e a Zona Euro integraram Chipre sabiam que grande parte da economia deste país era sustentada pelo facto de ser um “paraíso fiscal”. Agora, o pretexto do ataque à economia do país é por ter um setor bancário desproporcionado e servir para “lavagem de dinheiro”, principalmente das máfias russas. A União Europeia sempre conheceu esta realidade, presente em outros países, como o Luxemburgo, aliás Estado fundador. Agora usa-a como mero pretexto de chantagem e intimidação em todo o espaço europeu; diz-se ainda que a senhora Merkel abriu uma frente de guerra económica contra a Rússia depois de a ter ganho no espaço da União. Verdade ou mentira, o certo é que o jornal espanhol El País, um dos faróis europeus dessa coisa ainda inexplicada que é a “informação de referência”, censurou um artigo de um colaborador onde, através de factos, se explicava como Merkel estendeu a influência alemã, através da economia, de uma maneira que Hitler não conseguiu pela guerra. Diga-se que, com ou sem censura, esta interpretação deixou de ser um tabu para milhões de europeus.
Neste momento torna-se cada vez mais claro aos europeus submetidos às perseguições económicas feitas pelo fundamentalismo neoliberal que só existe um de dois caminhos, qualquer deles penoso nas circunstâncias a que se chegou, mas antagónicos em termos de honra, dignidade e respeito pela democracia: continuar no euro ou sair do euro. Também isso começa a deixar de ser tabu.
Logo que isso aconteça num país, o efeito de dominó será incontrolável. Perceber-se-á então, a partir daí, que da União Europeia construída em nome dos mercados e dos poderes financeiros internacionais pouco ou nada restará.
