POESIA AO AMANHECER – 171 -por Manuel Simões

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MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE

(1765 – 1805)

SONETO

Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Quem faz que o teu influxo em nós não caia?

Porque (triste de mim!) porque não raia

já na esfera da Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora

a esta parte do mundo, que desmaia.

Oh! Venha… Oh! Venha, e trémulo descaia

despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,

oculta o pátrio amor, torce a vontade,

e em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;

nosso númen tu és, e glória, e tudo,

mãe do génio e prazer, ó Liberdade!

(de “Rimas”)

Autor complexo, Bocage é considerado pré-romântico e, por isso, poeta de transição mas com uma adesão profunda às aspirações sociais da época. Preso, como livre-pensador, em 1797, neste, como noutros sonetos, ergue a voz contra o despostismo, veiculando os ideais do liberalismo. A sua obra é vastíssima, conheceu várias edições, sendo uma das últimas a “Opera Omnia”, 6 volumes (1969-1973).

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