O POÇO PROFUNDO QUE É CHIPRE [2], por SATYAJIT DAS.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Parte II

(continuação)

Um enorme  queda e em grande velocidade

O imposto sobre os depositantes é uma expansão significativa do principal da  solução aplicada anteriormente na Grécia, chamada  PSI (envolvimento do sector privado – private sector involvement)  e apresentado pela União Europeia como sendo  “one off” uma medida de corte da dívida único, logo  sem repetição. Enquanto que na Grécia, os prejuízos recaíram sobre quem detinha valores da divida soberana  bem como os ligados ao valor  de obrigações júnior e subordinadas dos bancos detidos pelos privados, as medidas de Chipre agora determinadas estendem  a partilha desses mesmos prejuízos  também, aos  pequenos depositantes normais.

A UE irá  argumentar que os depositantes (e especialmente os depositantes estrangeiros)  financiavam  a sobre-extensão   do sistema bancário cipriota no mercado interno e no exterior, tendo essa expansão representado  cerca de oito vezes o valor alcançado como PIB. A EU poderá argumentar  que os depositantes deveriam  suportar perdas, contribuindo para o resgate. A UE também poderá argumentar sobre o risco moral ao estar a socorrer os depositantes. A EU também poderá argumentar que não havia, na realidade, nenhuma outra alternativa.

Seja qual for o caso, para o pacote de Chipre, corre-se o risco de fortes efeitos  colaterais.

Em primeiro lugar, pode-se  provocar a fuga de capitais de bancos em países como na Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e Espanha, tomando como base as  preocupações dos depositantes sobre a perda de capital em qualquer reestruturação da dívida no futuro.

A Europa tem depósitos bancários totais no valor de 8 milhões de milhões de euros, incluindo cerca de Euro 6 milhões de milhões  em depósitos nos bancos a retalho.  Cerca de euros 1,5-2 milhões de milhões desses depósitos estão nos bancos dos países periféricos.

No período que antecedeu Julho de 2012 os bancos destes  países periféricos perderam entre 10% e 20% dos  seus depósitos. Isso só diminuiu quando o BCE fez o seu anúncio em Julho de 2013 que iria fazer o que for preciso para proteger o euro.

Se os depositantes retiram os seus  fundos em volume  significativo e a fuga de capitais se  acelera, então o BCE, os bancos centrais nacionais e os governos terão que intervir, financiando bancos afectados e potencialmente restringindo os levantamentos, as transferências electrónicas de fundos e impondo controles de capitais transfronteiriços.

As corridas aos bancos e as fugas de capitais são difíceis de controlar, uma vez que elas se comecem a dar.  Como antigo Governador do Banco da Inglaterra, Sir Mervyn King argumentou que não é  racional iniciar uma corrida bancária, mas é  racional nela participar uma vez que esta esteja desencadeada.

Em segundo lugar, as provisões para suportar a  depreciação do valor dos  créditos sobre Chipre  tornará cada vez mais difícil para os bancos europeus, especialmente nos países vulneráveis levantar novos depósitos ou fazer a emissão de novos títulos. Haverá uma crescente preocupação com o risco de perda e de subordinação dos activos dos  investidores para os credores oficiais. O BCE, os bancos centrais nacionais e os governos terão de cobrir quaisquer falhas no seu financiamento.

Em terceiro lugar, os acordos de Chipre minam  a credibilidade do BCE e da UE assim como minam também a credibilidade sobre  as medidas anunciadas no ano passado para combater a crise, quando são estas  que tem sustentado a recente estabilidade relativa.

O programa das OMT do BCE (Outright Monetary Transactions) permite que este possa    comprar   títulos soberanos para ajudar as nações a se financiarem  e a  reduzirem o  seu custo de levantamento de fundos nos mercados . O programa para ser  utilizado exige    ainda que  o país afectado venha a solicitar a referida assistência. Depois do que aconteceu  em Chipre, será politicamente difícil para países como Itália e Espanha pedirem  ajuda, se necessária, sabendo que se uma futura reestruturação da dívida for  necessária, então, os contribuintes internos enfrentam  uma perda no valor dos seus depósitos bancários.

Chipre põe a nu as deficiências da “união bancária” da EU, projecto que tem sido tão alardeado. As cláusulas do acordo alcançado não fornecem recursos suficientes para empreender qualquer necessária recapitalização dos bancos, o que seria uma  alternativa à decisão tomada de taxar os depósitos. Por exemplo, Sigmar Gabriel, presidente do SPD alemão, afastou imediatamente qualquer utilização dos 500 mil milhões do Mecanismo Europeu de Estabilidade para recapitalizar os bancos cipriotas, porque seria  incompatível com a lei aprovada no Bundestag. Uma mudança poderia ser possível se e só se quando houver uma União bancária de pleno direito e com uma supervisão bancária rigorosa comum a entrar em vigor e  que está actualmente prevista  para 2014.

Chipre também põe em destaque  a falta de um regime de protecção aos  depósitos à escala da zona euro, apoiado por fundos comunitários.

Em quarto lugar, o pacote de Chipre destaca a crescente relutância dos países como a Alemanha, a Finlândia e a Holanda em  apoiar os membros mais fracos da zona Euro. Considerações de  política interna  e a resistência popular ao compromisso de mais fundos dos contribuintes para tais resgates fazem com que um tal apoio seja  cada vez mais problemático.

O tio Vladimir e o primo David não estão felizes

Existem ramificações geopolíticas mais amplas das medidas tomadas.

O pessoal militar britânico e altos funcionários sediados em Chipre, que se acredita terem à volta de 1,5 milhar de milhões de euros em contas bancárias locais, será afectado pela imposição do imposto sobre os depósitos. O governo do Reino Unido já anunciou que estes seriam  compensados, embora não os outros depositantes do Reino Unido. O custo inesperado de uma era de  verdadeiro desafio fiscal  e a abordagem com que foi tratado o resgate vai aumentar as divisões entre Grã-Bretanha e a zona-euro

O plano afecta os interesses russos. Os seus  cidadãos podem enfrentar  perdas de cerca de 2.000 milhões de euros. Além disso, os bancos russos têm uma exposição significativa a Chipre. Em 2011, a Rússia emprestou a  Chipre cerca de  2,5 mil milhões. Em Julho de 2012, a Rússia recusou um pedido de empréstimo de mais 5 mil  milhões de euros de empréstimo, afirmando que era da  responsabilidade da UE aplicar a Chipre  uma solução abrangente para os problemas deste país.

O presidente russo, Vladimir Putin, criticou o plano como “injusto, obra de amadores e perigoso”. O ministro das Finanças de Chipre está em discussão com Moscovo sobre a concessão de empréstimos, o que é um elemento do pacote. A Rússia já afirmou que: “a União Europeia tomou medidas para aplicar um imposto sobre os depósitos sem nos consultar e, por esta razão, vamos analisar melhor a questão da nossa participação, do ponto de vista da reestruturação do empréstimo anterior”. A não cooperação da Rússia pode exigir alterações no pacote de medidas a aplicar.

A UE pode estar a utilizar a proposta para obter concessões da Rússia e para obter uma maior contribuição adicional para o resgate cipriota. Mas, como um importante parceiro comercial e o principal fornecedor de gás para a Europa, os russos tem influência significativa em todas as discussões.

O problema de Chipre também cria uma incerteza geo-política significativa e mudanças nos equilíbrios de poder no Mediterrâneo Oriental.

(continua)

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