O POÇO PROFUNDO QUE É CHIPRE [3], por SATYAJIT DAS.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Parte III

(conclusão)

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Quente e pesado em Nicósia

A capacidade do recém-eleito governo de Chipre do primeiro-ministro Nicos Anastasiades para aprovar a legislação necessária que permita a aplicação do plano de resgate  não é evidente, dada a falta de maioria parlamentar clara. Ele pode enfrentar grandes dificuldades  para  persuadir os legisladores relutantes, especialmente desde o momento em que ele prometeu que “nunca” iria aceitar um corte no valor dos depósitos, “a tesourada”,  como condição para um resgate.

Se Chipre não concordar, então a situação de incumprimento  é provável e a economia pode entrar em colapso muito rapidamente. As empresas teriam de enfrentar a falência. Muitos bancos iriam falir  com a maioria dos cipriotas provavelmente a perder as suas poupanças e em que.   da mesma forma que o Estado   não vai estar em posição de poder  pagar,  a UE provavelmente também não vai ficar por detrás, como suporte,  de qualquer arranjo local para garantir os seguros de depósito.

Se o pacote for aceite, a medida vai evitar o colapso imediato, mas pode não estar a resolver o problema de Chipre. Tal como na Grécia e em Portugal, as receitas da privatização e as receitas do aumento de impostos podem não atingir os objectivos. A imposição do imposto pode não levantar os fundos necessários. Mas vai incentivar demais depósitos a fugirem de Chipre,

Tal como acontece com a Grécia, há aqui um risco de que Chipre vá  precisar de ajuda adicional, o que implica mais cortes nos dinheiros dos depositantes.

A reacção furiosa para com a proposta inicial obrigou a UE a reconsiderar o vergonhoso imposto sobre os depósitos. É completamente possível que o efeito sobre os pequenos depositantes podem ser reduzidos ou mesmo anulados.

Mas qualquer que seja o destino de Chipre, a solução adoptada irá exacerbar a crise da dívida na Europa.

 Euro - II

A solução é o problema

Como vários comentadores  já o referiram, as crises de dívida, especialmente na escala actual, não podem ser tratadas  sem outras medidas que não seja apenas a repressão financeira como tem sido até agora. Até à data, isto tem assumido impostos  mais elevados, mais  taxas de juros a ficarem  abaixo da taxa de inflação, um  investimento dirigido e uma maior intervenção do governo na economia. Chipre marca uma nova fase da repressão financeira, deslocando directamente a carga de modo crescente para os aforradores, confiscando-lhes a poupança.

Em qualquer crise da dívida, há vários métodos possíveis de utilização para a afectação dos prejuízos.  O mutuário suporta as perdas, através de austeridade ou da falência. Os credores suportam os prejuízos. Alguns ricos e meigos papazinhos   (na Europa, leia-se Alemanha) ajudam os mutuários devedores em extrema dificuldade. Uma outra opção é simplesmente a de ignorar as questões, falsificar os números, e esperar que algum feliz acontecimento possa vir dar uma solução aos problemas. A Europa já tentou todas estas opções .

Infelizmente, em cada tentativa de resolução, como se mostra pelo pacote aplicado a Chipre, as medidas tornaram-se o problema, em vez de serem a solução.

Albert Einstein  sublinhou  que “nós não podemos resolver os nossos problemas com o mesmo modelo  com que os  criámos”. Infelizmente, os europeus continuam a acreditar que eles são a excepção que confirma a regra.

Sajyajit Das, The Cyprus File, Texto publicado em vários sites, entre os quais o EconoMonitor.

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