Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Em Chipre, a União Europeia bate novamente no fundo
Texto enviado por Philippe Murer, Membre du bureau du Forum Démocratique,
Président de l’association Manifeste pour un Débat sur le libre échange
29 de Março de 2013
Naturalmente, o novo acordo a que as autoridades chegaram no domingo à noite é menos injusto do que o primeiro. No entanto, esta crise demonstra, novamente, como a União Europeia não é só apenas extremamente mal construída como é, além disso, praticamente não gerível, incontrolável.
Um parasita fiscal e um casino bancário (mais um ) na zona euro
Não há dúvidas de que a maioria dos cidadãos dos países europeus não tinham necessariamente em mente que a zona euro também incluía Chipre. A crise nos últimos dez dias terá então mostrado que a zona euro acolhe um parasita fiscal no seu seio, onde o dinheiro sujo da Rússia seria reciclado e em que se pratica um dumping fiscal porque a taxa de imposto sobre as sociedades é apenas 10%. Finalmente, o sector financeiro terá feito tudo o que que quis e levando-se assim a situação de falência, o que está na origem da crise, .
Com efeito, o sector bancário pesava mais de 7 vezes o PIB do país, conforme o relata Olivier Berruyer, no mais documentado paper sobre o assunto que tenho lido. O problema é que Chipre não é apenas um parasita fiscal / casino bancário na área. Malta parece satisfazer as mesmas características. Pior, o bicho parece estar sempre no centro da fruta uma vez que Olivier Berruyer revela que o sector bancário luxemburguês vale a bagatela de 21,7 vezes o PIB, três vezes mais do que a torre de Babel cipriota que acaba de se rebentar. Será curioso saber-se o que na verdade o que se passa.
Em síntese, em nome da “concorrência livre e não falseada”, a UE deixou absolutamente fazer tudo o que se quisesse no sector bancário e agora exige que os cidadãos venham pagar a factura, como muito bem o referencia Frédéric Lordon. Porque estes 17 mil milhões necessários ao plano cipriota devem permitir a recapitalização de um sector bancário que entrou em situação de falência. Não se trata pois de dívida pública a afundar o país mas sim do sector bancário demasiado importante e que perdeu muitas loucas apostas que neste sector habitualmente se fazem.
A verdadeira face desta má Europa
Também se permanece pensativo face à inconsistência destes eurocratas que levaram cerca de nove meses para responder ao pedido cipriota e cujo plano foi instantaneamente rejeitado tanto pela população como pelos parlamentares da ilha. O novo plano é melhor concebido pois que um banco é colocado na situação de falência declarada mas de forma ordenada o que irá penalizar sobretudo os seus accionistas. Naturalmente, os grandes depositantes irão perder (fala-se de 30% a mais dos cem mil euros), mas os pequenos serão totalmente poupados a este prejuízo.
De maneira halucinante, os ministros europeus das Finanças conseguiram apenas um aumento para 12,5% de imposto de rendimentos sobre as empresas como um prémio para os 10 mil milhões que serão disponibilizados a Chipre através do MEE . Em suma, eles deixam assim de continuar a praticar o dumping fiscal… Mas isto não é tudo, enquanto o euro era suposto ser capaz de proteger as nossas economias, os cidadãos dos países europeus compreenderam que este n-ésimo mito europeu era falso, quando os eurocratas reclamaram um imposto excepcional de 6,75% sobre todos os depósitos bancários.
Em suma, a UE não soube gerir o anuncio dum quinto plano (sobre 17 Membros), devendo regressar à estaca zero. A UE mostrou que ela era capaz de proceder a uma confiscação parcial da poupança de todos os aforradores e nestes incluindo os de rendimentos modestos . Felizmente, os parlamentares cipriotas tiveram o bom senso de negar à UE a aplicação desta medida, deste diktat ultrajante. Em suma, como resultado desta crise a União Europeia está nua. Não protege os nossos postos de trabalho, não protege as nossas poupanças também não nos protege sequer da especulação. E a irrisória reforma do sector bancário não mudou quase nada para um sector, o sector financeiro, que permanece praticamente sem controlo.
O novo plano é melhor do que o anterior, mas esta plano lembra-nos cruelmente que os eurocratas não recuam perante nada para salvar o seu bezerro de ouro, a menos que os políticos venham a despertar para o que estão a fazer, lembra-nos igualmente que a zona euro é completamente incontrolável e que é urgente transformar a moeda única em moeda comum.

