CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 50 -por José Brandão

A tarde continua normal. À medida que o sol declina para o lado da barra do Tejo, a sombra invade a grande praça pombalina. Dignitários da Corte, altos funcionários públicos, duas dúzias de famílias nobres, as marquesas do Faial e do Lavradio, a condessa das Alcáçovas e a de Figueiró, os condes de Sabugosa, um herói das recentes campanhas de África, o capitão Roçadas, oficiais do Exército, conversam em grupos, para passar o tempo; em redor da duquesa de Palmela fala-se da estreia dessa noite: pela primeira vez vai cantar-se no São Carlos o Tristão e Isolda; em torno dos ministros o tema predominante é, ainda, a intentona revolucionária de terça-feira passada; e o tema dá margem para toda a espécie de conjecturas. Falava-se mesmo em atentados, mas o general Malaquias de Lemos, comandante da Guarda Municipal, parece ignorar os boatos que correram durante todo o dia pela cidade, segundo os quais a deportação dos chefes revolucionários presos irá provocar atentados bombistas.

Apontando para o landau descoberto, puxado a uma parelha, que espera a família real para a conduzir ao Palácio das Necessidades, o tenente-coronel Alfredo de Albuquerque explica aos que o rodeiam:

— Foi el-rei que quis assim. Eu tencionava mandar automóveis. Mas el-rei telegrafou-me a mandar o contrário. Por ordem de Sua Majestade é que a família real vai em carruagem aberta.

O navio D. Luís encontra-se agora frente ao Terreiro do Paço. Na viagem de comboio, um descarrilamento à entrada da estação de Casa Branca alterara a hora de chegada. Rapidamente aproxima-se do cais de desembarque. Um apito seco ordena o afrouxamento da marcha. Os guindastes das passadeiras, com dois homens à manivela, aprestam-se para franquear aos recém-chegados as suas pontes levadiças.

O rei, a rainha e o príncipe, sentados na popa, a estibordo, aguardam o termo da manobra. D. Carlos, de pequeno uniforme de generalíssimo, boné agaloado a oiro e capote de gola carmesim; D. Amélia, de grande chapéu enfeitado de flores, o casaco negro de marta com a gola soerguida, e luvas brancas; D. Luís Filipe, chapéu alto e sobretudo negro.

O príncipe, ao descortinar o vulto do irmão infante D. Manuel no aglomerado que os espera, clama lá de cima:

— Tivemos um descarrilamento!

Do lado oriental da praça o movimento é o normal àquela hora da tarde; do lado oposto, o enfiamento da Rua do Ouro que vai até ao cais fluvial, [situava-se à direita do Cais das Colunas, do lado oposto à actual estação do Sul e Sueste] está vedado ao trânsito de veículos para dar passagem, dentro em breve, às carruagens do rei e do seu séquito; ali há gente pelas janelas dos ministérios, gente ao longo da arcada, gente em grupos no passeio da placa central, junto às árvores e aos quiosques de venda de jornais.

Deveriam ter chegado às quatro e um quarto da tarde e passam das cinco quando a ponte é lançada entre o navio e o cais. Desembarcam. Vem à frente a rainha, seguida pelo rei e pelo príncipe real.

D. Amélia encaminha-se ao encontro do filho mais novo, para o beijar com ternura. D. Luís Filipe e o irmão abraçam-se. D. Carlos corresponde às continências militares, recebe os cumprimentos dos ministros e dos fidalgos, diz ao chefe do Governo João Franco que siga com a comitiva e que vá direito ao palácio. Uma pequena afilhada da rainha dá-lhe um ramo de flores, recebe em troca um beijo. À entrada da sala de espera detêm-se num discreto recanto em conversa confidencial com alguns fiéis. Pouco depois a rainha aproxima-se do grupo e intervém na conferência. Andam no ar mil suspeitas e incertezas. A conversação prolonga-se por vários minutos. O visconde de Asseca, estribeiro-mor, volta a perguntar a D. Carlos se prefere atravessar a cidade de automóvel ou de carruagem aberta. Escolhe a carruagem aberta.

Não demoram mais de um quarto de hora os cumprimentos. O conde de Figueiró anuncia que tudo está pronto para a partida. A família real sobe para o landau guiado pelo cocheiro Bento Caparica. O príncipe é o primeiro a subir. Sobe depois o infante, o rei em seguida — e os três conservam-se de pé nos seus lugares, aguardando a subida da rainha. Esta sobe, ramo de flores na mão, na face um sorriso enigmático. Sentado o rei à esquerda da rainha, enquanto em frente ficava o seu filho mais velho, ao lado do qual se sentava D. Manuel, o cortejo põe-se, finalmente em marcha.

Pairava um certo nervosismo. D. Carlos levava um revólver Smith & Wesson calibre 32, que mantinha na mão, fora do coldre, no bolso do capote. Atrás da carruagem régia vai a da casa civil, a dos dignitários de serviço. De súbito, do lado da praça, quase em frente do Ministério da Fazenda, agora estação dos CTT, ouve-se o estalido seco duma primeira detonação. Às cinco horas e vinte minutos, o comando dos Bombeiros de Lisboa recebe do posto n.º 8 a seguinte mensagem: «Ouvimos agora muitos tiros aqui no Terreiro do Paço. Próximo do Ministério da Guerra há muita gente em alvoroço. Foi o desembarque de Suas Majestades. Bombeiro 231.»

Um homem de longo varino e barbas, vindo da placa central do Terreiro do Paço, tira uma carabina da capa, assenta o joelho em terra e desata a disparar. Era Manuel Buíça com a sua Winchester, que se colocou à retaguarda da carruagem a cerca de cinco a oito metros de distância abrindo fogo sobre o rei. Logo ao primeiro tiro acertou no pescoço de D. Carlos, quebrando-lhe a coluna vertebral e matando-o instantaneamente.

Outros tiros soam pelo Terreiro do Paço que se transforma num campo de batalha, enquanto Buíça continuava implacável na sua acção. Dispara um segundo tiro atingindo o ombro esquerdo do monarca que cai para a direita sobre a rainha.

E logo, repentinamente, um vulto franzino de rapaz, de Browning FN, de calibre 7,65 em punho, corta o cordão de curiosos e polícias, põe o pé no estribo do lado esquerdo da carruagem real e dispara duas vezes sobre D. Carlos, já sem vida. Era Alfredo Costa que secunda Buíça. Apavorada, a rainha fustiga a cabeça do assassino, que procura alvejar de novo o monarca.

Estabelece-se a confusão do pânico. Soltam-se gritos de angústia. O príncipe D. Luís Filipe levanta-se e aponta o seu Colt, de calibre 38, mas, antes de poder disparar, já Costa abria fogo sobre ele, atingindo-o na região do externo atravessando-lhe o pulmão. Embora ferido, o príncipe consegue ainda disparar quatro tiros sobre o regicida, que caiu por terra, onde foi morto à espadeirada e a tiro pela polícia.

Entretanto, Buíça continua a disparar, e, revelando uma pontaria espantosa, atinge o príncipe na cabeça. A bala atravessou-lhe a face esquerda, saindo-lhe pela nuca. O príncipe tomba na bancada da frente. Estoiram mais tiros, quase simultâneos, cinco, dez. O infante, ao amparar o irmão, é atingido num braço por um projéctil. A rainha esforça-se por acudir aos filhos, recebendo nos braços o cadáver do marido. O cocheiro, ferido numa das mãos, lança os cavalos à desfilada. Na vertigem do terror o tenente Figueira abate o homem das barbas com uma estocada — recebendo, apontada por ele, uma bala na coxa.

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