CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 51 -por José Brandão

Três minutos decorridos. Outra mensagem do posto n.º 8:

«5 horas e 23 minutos. Estação n.º 8. — Dizem como certo que mataram Sua Majestade el-rei D. Carlos. — Bombeiro n.º 231.»

No meio da maior confusão, o landau real procurava abrigo no Arsenal, enquanto os restantes carros da comitiva largavam à desfilada em todas as direcções. Para a carruagem real, que havia parado, subira a condessa de Figueiró, chorando e gritando, abraçada ao príncipe, que dava os últimos sinais de vida, amparado pelo Visconde de Asseca e pelo marquês do Lavradio.

Dentro do Arsenal, a muito custo o corpo de D. Carlos é retirado da carruagem, que estava alagada de sangue, e daí levado em peso para dentro da casa dos curativos, onde o príncipe real estava já estendido numa maca de ferro de tela crua. Acomodado o corpo do rei sobre um colchão no sobrado, colocando-lhe sob a cabeça uma almofada, tudo sem lençol nem fronha, alguns dos presentes tentam vedar com algodão em rama um fio de sangue que lhe assomava aos lábios. D. Carlos tinha o aspecto de ter morrido de congestão cerebral. Via-se-lhe as feições congestionadas e os lábios quase pretos.

Daí a uns 10 minutos, o médico Dr. Moreira Júnior que, depois de o auscultar, faz abrir os olhos ao rei, diante dos quais passou repetidas vezes a chama de um fósforo, e lhe aproximou a mesma chama das extremidades dos dedos da mão direita, declarava o que já se sabia: D. Carlos estava morto.

— E o príncipe? — Pergunta alguém.

— Está morto também.

Em seguida começam a guardar os objectos que o rei trazia consigo, encontrando-se um relógio oxidado na algibeira das calças, preso à cinta por uma corrente de ouro, um lenço e um charuto, e nas algibeiras do outro lado achou-se-lhe um saco de revólver, vazio, e nada mais. Não se viu carteira alguma.

Ao despir o corpo para o médico observar as feridas, verificou-se que uma das balas entrara justamente ao meio das costas, no ponto da comissura das espáduas, e saíra pela barba por baixo do queixo, deixando um orifício em cruz exactamente como uma lancetada; mais acima, perto da nuca e também no meio, havia outro buraco de bala. As costas das camisolas estavam ensopadas em sangue. Lavadas as feridas, procedeu-se à aplicação de ligaduras e em seguida, sem o tirar do colchão, depuseram o corpo sobre uma cama de ferro que ali rapidamente se armou. De seguida, trouxeram dois tocheiros e um crucifixo, que colocaram numa banca ao centro, e veio um eclesiástico, acompanhado de sacristão, que rezou o Ofício junto de cada um dos dois mortos.

A Acalmação.

Estava consumada uma das páginas mais dramáticas de toda a História de Portugal.

No dia seguinte ao regicídio subia ao trono D. Manuel II, então com 18 anos. O jovem rei começa por adoptar algumas medidas para tentar conter o ambiente de agitação que tomou conta do país, nomeando imediatamente um novo ministério. O facto mais saliente foi o imediato afastamento de João Franco, sobre quem recaía boa parte da impopularidade governativa da época. A morte do rei trouxera o desânimo às fileiras monárquicas que não poupavam o chefe do Governo, apontando-o como o principal culpado do que tinha acontecido no Terreiro do Paço.

O Governo de Ferreira do Amaral, que substituíra o de João Franco, nada fazia para evitar o aumento do número de descontentes, propiciando, assim, um vasto campo para os aliciamentos da Carbonária e de outras sociedades secretas.

A mais grave crise da história da monarquia portuguesa não conseguia ser resolvida a contento. Na verdade, a degradação da vida nacional, quer do ponto de vista político, como social e económico, afectavam a própria credibilidade da instituição, e não apenas os partidos monárquicos. A propaganda republicana estava mais activa do que nunca, tendo os apoiantes desta causa crescido significativamente desde os últimos anos. Em Agosto de 1910 realizaram-se eleições, tendo os republicanos duplicado o número de deputados presentes no Parlamento. Contudo, o problema mais grave com que D. Manuel II se defrontou não dizia respeito ao apoio dos republicanos nas urnas, mas sim ao descrédito em que o seu próprio governo acabou por cair, com uma série de escândalos financeiros, como a chamada “questão Hilton” e o desfalque no Crédito Predial.

O regime monárquico em Portugal sobreviveu ao assassinato de D. Carlos, mas a instituição estava já demasiado abalada para permitir uma regeneração completa.

Na Carbonária Portuguesa continuava o trabalho de sapa. A condenação que o Papa Pio VII entendeu lançar sobre as sociedades carbonárias não servira para outra coisa senão para aumentar ainda mais o ódio popular contra a opulência e o poderio das instituições religiosas, que viviam paredes-meias com a terrível miséria que atingia a maior parte da população do País.

Entre 1908 e 1909, a Carbonária Portuguesa quase dobra o número dos seus efectivos, só em Lisboa, e começa em força a «conquistar» a província. Luz de Almeida deixava raízes em todo o lado por onde passava. Bragança, Aveiro, Santarém, Vila Real, Coimbra, Barreiro, Almada, Setúbal, Évora, Beja, Faro e Portimão são algumas das localidades que não escapam às «visitas» do grão-mestre carbonário.

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