15 de Abril de 2013
Hesitou-se durante algum tempo utilizar o filme, O Feiticeiro de Oz, numa das componentes do sistema de avaliação mista na unidade curricular de Economia Política Internacional II, do curso de Relações Internacionais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, contra outras alternativas possíveis. Havia sempre o perigo dos estudantes pensarem que, com a ideia que sendo um filme de crianças, não era um filme para o ensino universitário, podendo assim não ficar motivados para a sessão. Mas decidir segundo este princípio base era aceitar que de facto assim era, pactuando-se pois com a comodidade. Tratando-se de um filme fortemente alegórico convidou-se Joaquim Feio, especialista nas matérias que funcionaram como suporte a este filme, para o comentar e discutir com os estudantes. Foi, portanto, tomada a decisão da sua utilização neste ano lectivo de 2012/2013.
Tomada a decisão, seleccionaram-se os textos de apoio à altura do filme, da sua qualidade estética, assim como da obra literária que lhe serviu de suporte, vistas ambas as coisas pelo filtro do tempo. Estes textos de apoio serviriam como a base de trabalho fundamental para esta componente do sistema de avaliação de Economia Política Internacional II.
Organizou-se um caderno com os textos: de Satyajit Das, que percorre a história da Humanidade à procura do sentido de poder que a posse do ouro lhes poderá no seu imaginário transmitir e dar; de Quentin Taylor, que faz uma profunda análise da obra de L. Frank Baum, quer do ponto de vista literário quer do ponto de vista social e político da época; de Ellen Hodgson Brown, sobre a temática da política dos tempos de ontem, de hoje e lamentavelmente dos de amanhã que está relacionada com as alegorias inerentes a esta obra e a este filme, temática esta que, nos conturbados tempos de hoje, pode ser vista como equivalente à temática da prisão que representa o sistema euro na Europa actual em crise; e, por fim, de Rumeana Jahangir, jornalista dos quadros da BBC, que, apesar de curto, mostra a importância do filme para esta cadeia de comunicação social.
Ao se escolherem estes textos dá-se um sinal de reconhecimento aos grandes autores que pegaram em grandes questões políticas, económicas, sociais e monetárias e as souberam transformar em obras de arte, sob a forma de histórias de encantar, que nos ajudam a construir a capacidade do imaginário que a todos nós nos faz crescer. Entre estes autores encontram-se nomes como Lewis Carrol, com as histórias da Alice e dos seus mundos, ou Selma Lagerlof, com A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, ou ainda L. Frank Baum, já aqui referenciado.
Os textos escolhidos pretendem servir como referência a um debate sobre se será este o tempo do regresso ao mundo político, económico, social e monetário de Oz?
Alguns excertos dos textos citados:
Satyajit Das
Dorothy, a menina da quinta do Kansas, representa a América rural. O Espantalho sem miolos, o Lenhador de Lata e o Leão Cobarde representam os agricultores, os operários fabris e Bryan, respetivamente. A caminhada de Dorothy e dos seus companheiros de viagem ao longo da grande estrada dos ladrilhos amarelos para a Cidade das Esmeraldas, representa a marcha do “Exército de Coxey” em 1894 (assim batizada devido ao seu mentor, Jacob Coxey), com os homens desempregados para garantir uma outra emissão pública de 500 milhões de dólares de papel-moeda e a criação de empregos. Os feiticeiros e as bruxas são os diabólicos políticos e os banqueiros. O Feiticeiro de Oz é uma caricatura de Marcus Hanna, que era largamente visto como a força que dominava a política económica da administração McKinley.
Quentin Taylor:
L. Frank Baum afirmou ter escrito O Feiticeiro de Oz “para agradar às crianças” da sua época, mas os académicos encontraram semelhanças suficientes entre a odisseia de Dorothy na estrada de ladrilhos amarelos e as políticas populistas dos anos de 1890 que sugerem adicionalmente uma outra leitura também. Será que Baum pretendia colocar no papel uma sátira política subtil sobre a reforma monetária, ou simplesmente uma fantasia divertida?
Ellen Hodgson Brown
A linha mestra do enredo de O Feiticeiro de Oz foi traçada para a primeira marcha de sempre sobre Washington, liderada por um obscuro homem de negócios de Ohio que, em 1894, procurou persuadir o Congresso a retornar ao sistema de Lincoln de dinheiro emitido pelo governo. Além de disparar um século de marchas de protesto e o mais famoso conto de fadas do país, este visionário pouco conhecido e o bando de desempregados que ele liderou podem realmente ter tido a solução para todo o problema monetário, então e agora.
Rumeana Jahangir
Mas, à história estão subjacentes referências económicas e políticas que a tornam uma ferramenta popular para o ensino secundário e universitário – principalmente nos Estados Unidos, mas também no Reino Unido – da história da depressão económica do final do século XIX.
Numa altura em que alguns economistas temem o início de um período de deflação e em que as certezas económicas se derretem tão rapidamente como a Bruxa Malvada se derreteu, o que pode ser aprendido com Oz?
Com a passagem do filme, hoje, poderíamos discutir também quem das figuras de agora poderiam ser tipificadas no filme Feiticeiro de Oz. E muitos poderiam ser os nomes, neste Universo atolado numa profunda crise e ainda sem solução à vista. Poderíamos apontar alguns nomes e entre eles estariam certamente Durão Barroso, Angela Merkel, Tony Blair, John McCain, nomes estes que estão entre os principais responsáveis pela arquitectura neoliberal que se vê no mundo de hoje, nas instituições internacionais e na regulação ou desregulação internacional. A história tem também ironias amargas e ela acabou por colocar como referência um nome, um nome que é irrecusável, Margaret Thatcher, nome que é tipificado, no filme, por uma das bruxas presentes no mundo de Oz, que representa os “diabólicos políticos e os banqueiros”.
Se se que quisesse indicar não uma pessoa, mas um acontecimento actual, esse acontecimento seria o levantamento dos paraísos fiscais através do projecto chamado Offshore leaks, projeto de um consórcio de jornalistas de investigação e vários grupos de media internacionais – onde se incluem Washington Post, BBC, The Guardian ou Le Monde. Este acontecimento tem uma sequência semelhante no filme, a abertura das cortinas, e o desvendar do segredo do Feiticeiro de Oz, que permite revelar que afinal é tudo uma vigarice. O projecto Offshore leaks permite revelar também isto.
Com os textos que aqui se apresentam, propõe-se uma longa viagem a um mundo de encantar, mas uma viagem dolorosa por ser uma viagem que tem como partida o mundo de hoje.
Tudo isto a propósito da história de crianças O Feiticeiro de Oz!
