José Luis Sampedro, escritor e economista catalão, morreu no passado dia 8 de Abril. Numa entrevista que concedeu há meses atrás ao diário digital Público (de Madrid), fez afirmações muito interessantes. Vamos recuperar algumas dessas palavras..
Julgámo-nos (os seres humanos) mais do que somos?
– Julgamo-nos deuses, fazemos o que não podemos fazer e que se fôssemos racionais não precisaríamos de fazer. Desde a Antiga Grécia, a humanidade progrediu tecnicamente de uma forma espantosa, mas não aprendemos a viver em paz, a conviver, a não matar o vizinho. As palavras favoritas desta cultura são produtividade, inovação e competitividade. Somos muito poderosos em técnica e muito ignorantes e faltos de sabedoria. O excesso de ciência não foi compensado pela maneira como a usamos.
Foi isso que se passou com a energia nuclear?
– É o que se passa com o nuclear: é uma energia importante, mas não a sabemos usar. Veja, não conseguimos com a energia nuclear o que conseguimos com o petróleo: o progresso do petróleo foi o motor de explosão, mas para a energia nuclear não inventámos nada equivalente ao motor de explosão. Não dominamos a técnica nuclear e entretanto arriscamo-nos a catástrofes como a do Japão.
(…)
O progresso deixou-nos sem controlo?
– Progresso é uma palavra que implica um fim um objectivo, como numa viagem. Mas, neste caso, não sabem para onde vão. E não só não sabem para onde vão, o pior é que nem sequer sabem para onde querem ir. Sarkozy, Berlusconi e outros que prefiro não nomear, em castelhano ou em inglês, não sabem o que querem. Viver em paz é um objectivo, mas para isso deviam educar-nos e estamos a fazer tudo ao contrário.
Perante esta catástrofe, ficaremos mais humanos?
– Oxalá ao menos servisse para isso, mas receio que não, porque somos muito mal dirigidos.
– Por outro lado, somos mal ensinados. A solução para tudo, no longo-prazo, está na educação, na preparação dos seres humanos. Seria desse modo que teríamos que construir o progresso e o desenvolvimento. A primeira coisa a fazer seria pôr as pessoas a raciocinar e a pensar por sua conta. Estão a educar-nos ao contrário, educam-nos para produzir e para consumir. Ninguém nos prepara para sermos mais humanos, para sermos melhores. Afirmam que não existe alternativa para este modelo de desenvolvimento, mas não é verdade – sermos melhores e vez de termos mais coisas. A alternativa é educar para sermos melhores,
,Creio que isso não aparece em nenhum plano de estudo.
Veja, a maioria das pessoas não chega a ser aquilo que poderia ser. Porque o desenvolvimento não consiste em ser tanto ou melhor do que os outros, mas sim tudo o que cada um possa conseguir ser. Quase ninguém (e eu também), nunca chegamos a ser o que podíamos ter sido. Ainda sou aprendiz de mim mesmo. Oxalá esta catástrofe nos tornasse mais humanos, para sabermos que fazemos parte da natureza e que não somos deuses,
As universidades a estão preparadas para isso?
Isto que acaba de se implantar, a universidade com molho à bolonhesa, é a morte da universidade. A universidade era um templo de sabedoria. Isto que agora fazem é uma escola politécnica. Deram a universidade aos financeiros ye os financeiros o que querem é ganhar dinheiro. Isso implica que o que se ensina é saber fazer coisas, mas não saber como são as coisas.
Passámos a falar da cultura como produto, legitimada pela sua contribuição para o PIB. Outras virtudes como a verdade ou a beleza, deixaram de ser importantes. Que lhe parece?
Isso só tem uma resposta: o PIB não é a medida do bem-estar.
Por que mudaram as reivindicações e agora se dá prioridade á defesa da liberdade em detrimento do fim das injustiças?
– Sempre que se use a palavra liberdade, temos de pensar para quem, A liberdade para o pobre significa “que não me oprimam”. Mas a liberdade para o rico é “deixem-me as mãos livres, que farei o que me der na gana e então explorarei os que precisam”. Quando me falam de liberdade, lembro-me sempre do lema da revolução francesa. Vou contar-lhe uma coisa que explicava nas aulas há anos atrás: a liberdade voa como os papagaios de papel. Voa porque está presa. Pegue num papagaio e lance-o – não voa. Mas ate-o a uma corda e então, resistirá ao vento e subirá.. Qual é a cauda do papagaio da liberdade: a igualdade e a fraternidade. Ou seja, a liberdade responsável perante os outros.
Por que não interessam as injustiças?
– Porque os valores se degradaram. Declarando que tudo é mercadoria, que tudo é dinheiro, que o PIB e a cultura são dinheiro… O que significa a corrupção generalizada? Simplesmente que há homens à venda e outros dispostos a comprá-los. Há maior degradação do que esta? Hoje em dia não se respeita nada: há altos responsáveis gabando-se de ser acusados e pensando que as pessoas acreditam que é um tipo tão grande que nada o pode fazer parar. Como pode um político acusado de corrupção ser um cidadão modelo?
José Saramago dizia que o capitalismo nos tinha amesquinhado
– Claro, e tinha muita razão. A democracia não é o governo do povo em nenhum lugar. Onde se vota? Onde nos dizem que votemos. Na infância, vem um padre e mete dogmas nas cabeças. Isso começa logo a condicionar o pensamento e o pensamento deve ser livre, mais do que a liberdade de expressão. Se com a liberdade de expressão o que exprimimos é o que nos dizem que digamos, não interessa. O importante é aquilo que pensamos.
Necessitamos mais do que nunca de uma revolução? .
– Do que necessitamos é de nos reeducar. Pode ser que catástrofes como a nuclear nos levem a pensar que o que estamos a fazer não está bem. Censura-se os jovens por não terem sentido político. No es que pasen, es que quieren otra cosa. Mire usted, que cambiaremos es seguro. Otro mundo es seguro, la Historia es cambio. Ahora mismo pasamos por un momento que yo llamo de barbarie porque se han degradado todos esos valores que comentamos. Es una etapa de desconcierto hacia otro modelo distinto. Esta cultura capitalista de cinco séculos já esgotou as suas possibilidades.
Sim, mas os culpados da crise saíram ilesos
– Claro, porque têm o poder. Qué faz a Europa nestas alturas? Nada. Não estamos já nas mãos dos financeiros, mas sim nas mãos das três ou quatro empresas de rating . ¿Qué fizeram os governos ? Suprimiram os paraísos fiscais? Corrigiram o comportamnento dos bancos? Nem pensar! Os bancos que criaram a crise em 2008 já se recompuseram la crisis en 2008 e anunciam os seus lucros, enquanto os desempregados continuam desempregados. Chamem-se como se chamarem, todos os governos actuam obedecendo aos interesses do capital. (…)
Por que estão os governos degradando o ensino público?
– Porque têm medo e fazem concessões à Igreja. Mas quanto mais concessões se fazem aos poderosos, mais eles exigem São insaciáveis. (…) O essencial do Ensino é o professor e devem criar-se professores, mas, claro, para isso é necessário apoios à escola. Reduzir os orçamentos para o Ensino é um desastre. (…)
Que conclusões tirar desta crise?
– Respondo com uma só palavra: entropia. Tudo o que nasce morre. (…) Todos os impérios anteriores entraram em decadência (…) O império norte-americano? Já acabou: os Estados Unidos não dominam como em 1945. Tem um Exército mais forte, mas já não é o dono do mundo, A China, o Brasil e a Rússia passaram-lhe à frente..
Quais são as perspectivas?
– O matemático Poincaré dizia: “O caos é uma ordem que não conhecemos”. Pois agora estamos numa ordem que não conhecemos. ¿E que perspectivas há? As da próxima ordem. Como será? Não sei. Tenho as minhas ideias, mas não sei..
