POESIA AO AMANHECER – 183 – por Manuel Simões

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GUERRA JUNQUEIRO

(1850 – 1923)

O POETA

O agudo bisturi da nossa experiência,

a lança da razão inquebrantável, fria,

varou de lado a lado o olho da Providência.

A abóbada celeste é órbita vazia.

A crítica fatal da velha decadência

negou-te a divindade, ó filho de Maria.

Desamparou-me a fé. A nossa consciência

respeita simplesmente as leis da geometria.

O tempo, o grande verme, apodreceu a escada

por onde o visionário em noite constelada

viu anjos a descer da luminosa esfera.

No leito sensual do azul indefinido

há muito que exalou seu último gemido

o Deus omnipotente – essa ideal quimera.

Este soneto faz parte do poema dramático “A Morte de D. João” (1874), título que, só por si, é paradigma da posição da “geração de 70” sobre o “mito donjuanesco”. A poesia de Junqueiro é marcada por grandes contrastes, desde os temas ideológicos da luta antimonárquica e anticlerical (“A Velhice do Padre Eterno”, 1885; “Finis Patriae”, 1891) até à última fase de procura de uma simplicidade rústica: “Os Simples” (1892). Com Guilherme d’Azevedo dirigiu a revista “Lanterna Mágica” (1875) onde surge pela primeira vez a figura do “Zé Povinho”, a célebre criação de Rafael Bordalo Pinheiro.

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