Este texto de Paulo Rato foi postado na caixa de comentários ao artigo de D’Silvas Filho. Como temos feito, anteriormente, publicamos aqui textos que pelo seu desenvolmento ultrapassam a condição de simples comentários.
Assevero que não pretendo ofender ninguém. Mas é-me difícil perceber as razões pelas quais este senhor é membro do Conselho Científico da SLP. Já me é mais fácil admitir a sua condição de consultor do Ciberdúvidas – entusiástico apoiante de primeira hora do AO -, onde uma vez deparei com a espantosa “explicação” de outro consultor (ratificada pela coordenação do sítio) sobre a razão de não haver “ano zero” no Calendário Gregoriano (nem em nenhum outro, digo eu!), nem mais nem menos a de que o “zero” não era conhecido pelos romanos!
Que fique claro que também eu não duvido das boas intenções do autor deste artigo. Do que duvido é das bases científicas dos seus argumentos e da sua coerência.
Não vou remoer argumentos que já utilizei. Vou apontar algumas (e só algumas, que o tempo é escasso e o cansaço cresce) das fragilidades deste texto.
D’Silvas começa por nos tirar qualquer dúvida sobre as consequências de “acordos” destes, ao desvendar, logo de entrada (e ir espalhando pelo texto umas quantas variações sobre o “tema”) ao que vem o AO, escrevendo: “quando se altera uma língua”… Pois é disso mesmo que se vem tratando: da perversão congénita de um “acordo”, que se pretende ORTOGRÁFICO, cometer o abuso de “alterar a língua”, não de harmonia com a sua evolução natural, mas com a violência de uma intrusão que lhe é alheia! Creio que todos os opositores do AO agradecem a franqueza do esclarecimento.
Ficamos, pois, desde as primeiras linhas, entendidos, no que se refere ao que está, efectivamente, em causa.
Mas devo salientar algumas “variações” e dissonâncias mais agrestes, de tom e timbre.
Tomemos uma das mais interessantes: “A língua precisa de ser simplificada”. Palavra?! Que descanse o senhor conselheiro: a LÍNGUA está a simplificar-se, vertiginosa e assustadoramente, devido a diversos factores, desde as poupanças governamentais no ensino público e alterações taralhoucas aos programas escolares de português e literatura, até ao simplismo da linguagem usada nos “media”. Por este caminho, a pobre da língua não tardará a regredir a uns escassos e primitivos sons inarticulados, o que dispensará o estabelecimento de qualquer norma ortográfica, para sossego de académicos de curta andadura.
Uma curiosa dissonância surge quando o autor pretende abordar as “duplas grafias” que encontra num “Prontuário do mercado”, produzindo uma interessantíssima lista onde o que eu encontro – com uma excepção, se bem medi – são pares de palavras ou expressões (Alcorão/o Corão), mais ou menos aproximadas, mas que representam, na verdade, sinónimos: “aliciamento” e “aliciação” são dos exemplos mais claros de sinónimos que não se podem confundir com grafias diferentes de uma mesma palavra; se, no Prontuário, coexistem “abscesso” e “abcesso”, “abrótega” e “abrótea”, “amolgadela” e “amolgadura”, etc… é porque ambas as palavras de cada um desses “pares” são utilizadas, ou na linguagem corrente, ou uma na linguagem corrente e outra na erudita, ou porque uma delas corresponde a um regionalismo (assovio), ou ainda porque o organizador do Prontuário acolhe como aceitáveis, pela sua integração na linguagem comum, estrangeirismos (assassinato) ou deturpações populares de certos termos (aspiranta, astróide). Onde o senhor conselheiro descobre duplas grafias aos milhares, eu encontro milhares, sim, mas… de sinónimos. Confundir estes exemplos de sinonímia – com a única excepção, que revela, aliás, um Prontuário algo vetusto ou descuidado na elaboração ou actualização, de “andebol/handebol”, as únicas com idêntica pronúncia – com diferentes ortografias de uma mesma palavra em nada contribui para avalizar o rigor científico desta elucubração do conselheiro D’Silvas…
Acrescendo a referida confusão contumaz entre língua e ortografia, terei de me render à evidência de que a fiabilidade do restante deste esforço explicativo se aproxima da derrocada. Digamos que estes pecados mortais contra uma conceptualização bem definida e o rigor científico cortam cerce qualquer apetência de leitura mais alongada do texto, que de imediato se antecipa como uma perda de tempo. Conclusão talvez por alguns entendida como demasiado severa, mas que só por desonestidade (que não é de meu uso) esconderia em mortalha de mais amena expressão. Se alguma dúvida restasse, bastaria topar com a dureza de ouvido (sendo a capacidade auditiva uma das mais preciosas ferramentas do linguista) que leva o autor a não descortinar a diferença melódica, traduzida pelo hífen ou pela sua ausência, entre o “há-de” de Portugal e o “há de” do mais velho dos nossos países-irmãos.
Quanto a essa mítica unidade eterna de uma língua, passível de ser garantida por acordos ortográficos, seria outra conversa, com muito para pensar e dizer. Faço apenas o reparo de que parece haver demasiada (e erudita!) gente a esquecer-se de que já ninguém fala ou escreve latim (e esse, de morto, já não muda), a não ser no seio de algumas igrejas cristãs, com particular relevo para a Católica Apostólica Romana. Mas será, talvez, bizantinice minha, que tenho a tineta de não deixar bósforos por atravessar…

Senhor Paulo Rato,
Toda a sua argumentação é baseada no facto de D’Silvas Filho apresentar no seu texto de 2008 variantes que não são ortográficas. Consegue apresentar casos de variantes ortográficas criados pelo AO ou sequer por ele mantidas? É que me parece que não há casos desses, o que faz com que a sua argumentação não seja melhor… E poderá vir sempre D’Silvas Filho dizer agora com base nisso que também tudo o mais que diz não tem validade nenhuma.
Cumprimentos,
Pedro
http://ilcao.cedilha.net/?p=9253#more-9253
Pedro: penso que isto responde.