RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção, tradução e nota introdutória de Júlio Marques Mota

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Será Chipre mais importante do que o que pensamos?

Satyajit Das

Parte II

(conclusão)

Chipre desenvolveu serviços bancários e  outros serviços de apoio   ao seu sector de turismo . Em parte, isso reflecte a perda da sua base agrícola e industrial, depois da  invasão turca de 1974. Chipre utilizou as taxas baixas na tributação sobre empresas,  extensivos acordos sobre  dupla tributação extensa e uma política de  imigração liberal para atrair negócios da Europa, Médio Oriente e Rússia.

Mas Chipre não está sozinho neste enorme sistema bancário, envolvendo níveis substanciais de depósitos offshore. Os activos bancários  do Luxemburgo são mais de 21 vezes o valor do seu PIB, na Grã-Bretanha e na Suíça os activos  bancários  são mais de 5 vezes o valor do PIB e  os valores de  Malta são  comparáveis aos de  Chipre.

Chipre é uma jurisdição de baixa tributação e não  um paraíso fiscal. Apertados controles sobre a lavagem de dinheiro foram uma condição prévia para a entrada na União Europeia. Estes problemas não impediram previamente o BCE de disponibilizar apoio de financiamento na base do programa de financiamento de emergência  aos bancos cipriotas.

Muitas economias ocidentais, incluindo a Grã-Bretanha, Alemanha e a França, beneficiaram  das fugas de capital de várias partes do mundo, incluindo da Rússia. Um  certo número de bancos ocidentais foram já considerados como tendo tido  relações ilegais ou de interesses desagradáveis, incluindo com traficantes de narcóticos e com  estados da droga.

Em Janeiro de 2008, Jean-Claude Trichet, Presidente do BCE, na época, era loquaz   nos seus elogios a  Chipre: ”  hoje as comemorações do euro são o resultado das políticas macroeconómicas bem sucedidos que as autoridades cipriotas têm prosseguido nos últimos anos… O BCE e o Banco Central de Chipre, conjuntamente com National Changeover Board, com a Comissão Europeia e com as autoridades nacionais e internacionais cooperaram estreitamente de muitas maneiras a prepararem a introdução do euro.”

É então intrigante como é que Chipre poderia ter sido admitido  na  zona  Euro se incentiva tais práticas financeiras hediondas e odiosas como se diz agora .

Sétimo, a UE deliberadamente utilizou um regime de resolução saído de uma muito rápida e   muito recente promulgação a aplicar aos bancos em grandes dificuldades  para evitar a necessidade de aprovação no Parlamento  cipriota. A subversão da democracia que está assim a ser feita significa que a rejeição do resgate continua a ser possível. Isto é agravado pelo facto de que a maioria dos cidadãos  normais de Chipre está  irritada com o que o New York Times descreveu  como a  “ex-comunicação económica” feita pela UE. Isto é exemplificado pela estrutura a dois níveis da moeda euro em Chipre o que indirectamente desvaloriza os  euros cipriotas e deprecia  alguns dos seus  depósitos bancários.

Para a União Europeia,  Chipre representa a continuação usual dos  seus desajeitados esforços em série para lidar com países e bancos que estão insolventes. A União Europeia continua também a estratégia de garantir que perdas embaraçosas são diferidas para lá de eleições fundamentais ou até mesmo mais desejavelmente para quando alguém as venha a assumir quando chegar ao poder.

Chipre também marca uma nova e perigosa fase em lidar com as crises de dívida actual. Os altos níveis de dívida não podem ser geridos sem recorrer a repressão financeira. Até à data, esta repressão assumiu a forma de aumento dos impostos, de se ter as taxas de juros abaixo da taxa de inflação, do investimento directo e do  aumento da intervenção do governo na economia. Os governos estão agora a procurar  cada vez mais transferir directamente o fardo para os aforradores e investidores pela confiscação da poupança, tais como depósitos bancários e fundos de pensões (uma opção considerada em Chipre).

Contrariamente à mitologia popular, os depósitos  num banco estão sempre tão seguros quanto a própria instituição o está ou  quanto a capacidade do  fiador do depósito, incluindo os governos, para   responder  a qualquer obrigação correspondente  ao  seguro.

Na Europa, os depósitos dos bancos são garantidos por empréstimos concedidos a governos altamente alavancados, bancos, empresas e indivíduos com capacidade variável de reembolso.  As garantias de depósito são fornecidas pelos próprios governos alavancados.

O Presidente do Bundesbank Jens Weidman  considerou  Chipre como um exemplo bem sucedido de como lidar com bancos deliquentes.  O responsável, o Comissário  da UE para os Assuntos Económicos,  Olli Rehn,  confirmou  a abordagem, enquanto se colava à ideia sucessivamente repetida de que Chipre  era um caso  excepcional.  Olli  Rehn reafirmou a garantia dos depósitos de (até) EUR100.000 que os torna assim  “seguros”. Mas sem um sistema de garantia de depósito feito na EU, isso depende afinal dos  governos fracos.

As regras de resolução rápida, usadas em Chipre para a confiscação parcial dos  depósitos bancários, a sua depreciação,  são agora parte da nova regulação bancária, amplamente adoptado em todo o mundo. Nenhum aforrador nem nenhum  investidor  em qualquer lugar deve ter a segurança dos seus activos como garantido.

O contágio, através da fuga de capitais,  é agora um risco bem real. Como um banqueiro cipriota afirmou a  um repórter: “… Luxemburgo, Eslovénia estão a chegar… Nós podemos   vender-lhes  seminários sobre as questões de risco.”

Enquanto os  cipriotas trabalham no purgatório financeiro  a percorrerem o seu caminho  para o inferno económico, os cidadãos em países  bem distantes podem reflectir nas palavras de John Donne: “nenhum homem é uma ilha, nem totalmente dono de si-mesmo… Nunca queira saber por quem  os sinos tocam, tocam por si. “

Satyajit Das,   Is Cyprus More Important Than You Think?, 8  Abril de 2013, texto gentilmente cedido por EconoMonitor

Poema de John Donne:

“No man is an island,

Entire of itself.

Each is a piece of the continent,

A part of the main.

If a clod be washed away by the sea,

Europe is the less.

As well as if a promontory were.

As well as if a manor of thine own

Or of thine friend’s were.

Each man’s death diminishes me,

For I am involved in mankind.

Therefore, send not to know

For whom the bell tolls,

It tolls for thee.”

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