A ACTUALIDE DE UMA CARTA DE ANTÓNIO BOTTO – por Clara Castilho

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 António Sales proporcionou-nos uma série memorável sobre o que foram os anos que António Botto passou no Brasil. Clara Castilho, traz-nos hoje aqui um livro do grande poeta – Cartas que me foram devolvidas.

 N ão me atrevo a falar sobre este autor, depois dos longos, belos e detalhados textos que já aqui apareceram, escritos por António Sales… Mas aconteceu-me folhear de novo um exemplar de “Cartas que me foram  devolvidas”. E apeteceu-me partilhar uma delas que considero encaixar muito bem neste momento que estamos atravessando.Imagem1

Carta nº 24

Ninguém no mundo é mais rico do que eu. Os grandes banqueiros poderão dispor de quantias fabulosas e de cofres das mil e uma noites, mas nenhum deles dispõe de um mundo tão formoso como o que eu possuo quando vejo uma obra de arte. Trata-se de uma propriedade que não aparece registada na respectiva repartição de finanças, mas que me pertence inteiramente porque s frutos da minha emoção artística são sagrados e invioláveis. Eu sou daqueles que defendem o direito de que o homem seja o senhor absoluto das suas próprias emoções . E no dia em que esse direito lhe for negado – o homem deixará de ser uma coisa animada e viva. Ah! Quantas vezes eu emigro dos contactos demasiado violentos dos meus semelhantes e vou habitar o mundo das minhas arquimilionárias ilusões. Sim; a vida é de quem a souber contemplar, de quem a sabe entender… Lembro-me de que um dia disse a um materialista ricaço: não há fortuna maior do que a de um pobre se esse pobre for poeta. Olhou-me assustado como se eu com essas poucas palavras lhe tivesse roubado ao seu tesoiro e os seus haveres. E afinal, o que eu tenho, pode também ser de qualquer, apesar de que sinto que serei acima de todos o seu verdadeiro dono. Tal é, pelo menos, a minha ilusão; e uma ilusão sincera vale muitíssimo mais do que um direito legal.

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