O DIA DO LIVRO – por Carlos Loures

Temos dito com frequência o que pensamos dos “dias internacionais” – maneiras de aquietar consciências e/ou de promover o consumo. O Dia Internacional do Livro não foge a essa regra. Se em vez de comemorar um dia  mundial, houvesse uma política de protecção ao livro e aos autores, bem melhor seria. Andamos há tempos a projectar um debate sobre o livro, sobre as diversas profissões que, de montante a jusante, do autor ao leitor produzem esse insuperável meio de difusão de ideias. Mas hoje vou apenas abordar a questão simples do porquê da data escolhida pela UNESCO para comemorar o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor.

Segundo a UNESCO, o objectivo da celebração é o de  promover o prazer da leitura, incentivar a publicação de livros e proteger os direitos de autor. A decisão foi tomada na 28ª Conferência Geral da UNESCO realizada em 1995. Por que motivo foi escolhido o dia 23 de Abril? Porque nesse dia em 1616 morreram, nada mais nada menos, que três grandes escritores – Miguel de Cervantes e William Shakespeare. Um dia negro, em que se apagavam dois faróis da cultura europeia. Não me parece que comemorar falecimentos seja boa ideia. Bem, e depois há aqui uma pequena trapaça. É que em 1616, em Inglaterra, não se utilizava o calendário gregoriano

No caso do escritor inglês, tal data não é precisa, pois que em Inglaterra, naquele tempo, ainda se utilizava o calendário juliano, havendo uma diferença de 10 dias apara o calendário gregoriano usado em Espanha. Assim Shakespeare faleceu efectivamente 10 dias depois de Cervantes.

O papa Gregório XIII, mandara reunir uma comissão de sábios, e o calendário juliano em uso desde os tempos de Roma foi substituído pelo gregoriano. Estava-se em 15 de Outubro de 1582, ou melhor em 5 de Outubro que por decisão papal passou a ser o dia 15. As nações católicas apressaram-se a adoptar o novo sistema. O resto do mundo ignorou a decisão. Em Inglaterra as decisões de Roma não valiam nada.  Pelo que, realmente Cervantes, pelo calendário juliano morreu no dia 13 de Abril e Shakespeare, pelo calendário gregoriano, terá morrido a 3 de Maio. Bem sei que estou a ser desmancha-prazeres. Mas já repararam que se um morreu em 13 de Abril e outro em 3 de Maio, que sentido tem a comemoração em 23 de Abril?

Uma solução – se mudarem a celebração para o dia 10 de Junho, dia em que morreu Camões, evitam problemas, pois em 1580 ainda todos se regulavam por um mesmo calendário .

Leave a Reply