PATA ENSANGUENTADA – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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 Ainda em 53 decido casar e tu, ó Alexandre O’Neill, és um dos convidados para a festa. Bem sabes que eu e a minha mulher acabámos de dar um giro pela Europa. Puxas-me de lado. Perguntas, surdina:

 – Os vossos passaportes ainda estão válidos?

– Sim.

– Então pirem-se enquanto é tempo, que as coisas vão apertar por aqui.

 Realmente pensamos pirar-nos para o Brasil, mas sei que a raiz da tua ansiedade é outra. Em 1949 Nora Mitrani, surrealista francesa, passa por Lisboa. Vocês conhecem-se, convivem, apaixonam-se, l’amour fou às vezes deflagra fora dos livros… Depois de regressar a Paris, Nora convida-te a ir ter com ela:

– Vens, ficas por cá, logo se vê…

 Solicitas passaporte ao Governo Civil de Lisboa. Mas alguém da tua família antecipa-se, não quer que vás atrás da francesa e mete cunha na PIDE para que te seja negado passaporte. E o passaporte é-te negado. Que raio de país é este em que a polícia política até se dá ao luxo de contrariar amores?

 Eis Um Adeus Português, o teu amor frustrado, a tua raiva:

 Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

(…)

tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

 – Alexandre, bem entendo a tua preocupação com os nossos passaportes, gato escaldado de água fria tem medo, mas sossega, tem calma!

 Não tiveste, intuíste que não devias tê-la: eu e a minha mulher ainda a gozarmos a lua de mel e tu a seres preso pela PIDE. Quando partimos para o Brasil continuavas na choça. Durante quarenta dias ficarás à sombra, a contemplar aquela pata ensanguentada que vacila

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