Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
…E durante este tempo, uma nova crise se prepara .
Georges Ugeux, Le Monde, 12 de Abril de 2013
Há qualquer coisa de surpreendente no debate político através dos media. Estes centram-se sobre os temas mais importantes para a opinião pública, quer eles sejam essenciais ou marginais. Longe de mim considerar o tema casamento para todos ou os paraísos fiscais ou a moralidade política como temas marginais. São assuntos que tocam o coração e a vida das pessoas.
Mas a liderança política não está no acompanhamento, ou mesmo na hipérbole. A liderança política implica uma capacidade de antecipação dos riscos e das crises. O mundo está numa zona de risco. Nas palavras de Voltaire, na morte de César, ” Tu dormes, Brutus, e Roma em grandes apuros, à beira de uma guerra!”
E se Christine Lagarde tem razão?
A presença da Directora Executiva do Fundo Monetário Internacional, no fórum de Bo’ao estava longe de ser um incidente. Colocada ao mesmo nível que os chefes de Estado, ela aceitou , durante uma hora, tratar de temas quentes da actualidade, num debate moderado pelo antigo embaixador chinês nos Estados Unidos, Zhou Wenzhong, secretário-geral do fórum. Ela identificou as prioridades para a Ásia:
- Investir em recursos humanos
- Criar um clima propício ao crescimento e ao investimento
- Garantir o crescimento sustentável pela protecção do meio ambiente
Mas a sua conferência em Nova York, na véspera das reuniões intercalares do FMI nesta quarta-feira ressoa como um aviso. Mesmo se ela reconhece que a situação está a melhorar, o seu diagnóstico é inequívoco: o ritmo desigual do crescimento numa economia a três velocidades cria novos desequilíbrios financeiros que poderiam semear as sementes de uma nova crise.
1. Duas áreas de preocupação parecem dominar nos países emergentes: os empréstimos em moeda estrangeira, que procuram tirar partido das taxas de juro baixas em dólares ou em euros e o recurso ao endividamento crescente nestes países. Este ciclo global, mundial, cujas consequências são infelizmente bem conhecidas, parece estar actualmente sob controlo.
2. Nos Estados Unidos, é a natureza insustentável das finanças públicas que preocupam.
3. O sistema bancário europeu permanece instável: insistindo sobre a necessidade de uma União Bancária Europeia, ela dirige-se directamente à Alemanha que quer uma melhor separação entre a função monetária e a função de supervisão do Banco Central Europeu.
Os centros de preocupação estão a multiplicar-se e a França continua a estar ameaçada
A experiência cipriota, seguida agora pela Eslovénia, confirma que a Europa ainda não encontrou uma forma de enfrentar e de lidar com as crises bancárias, apesar dos seus esforços de recuperação e de resgate dos bancos. A sua proposta de directiva do ano passado ainda não foi aprovada e levanta questões de fundo.
Na sua última intervenção, a Comissão Europeia incide criticamente em especial sobre a França, que acusa de endividamento excessivo e de falta de competitividade. Estes dois factores ameaçam, de acordo com a Comissão, toda a zona euro.
É a combinação de crescimento em recuo e de um défice que aumenta a dívida que preocupa. Se a França se inclui entre alguns Estados-membros da UE que terão evitado uma recessão em 2010 e 2011, a resistência da sua economia tem sido sujeita a difíceis provas e um certo número de desequilíbrios internos e externos têm surgido nos últimos anos.
O quadro destas observações é o relatório periódico sobre os equilíbrios macroeconómicos publicado pela Comissão Europeia.
Arnaud Montebourg não gostará certamente desta observação: “a rigidez no mercado de trabalho impede a capacidade de adaptação das empresas na economia”. Ele prefere não acompanhar a mudança que François Hollande indicou para resolver a situação do país.
A França é o último baluarte face a uma crise global com origem na Europa. Se o dominó italiano enfraquecer, aquela não parece ser capaz de conseguir resistir. A vigilância continua a ser fortemente necessária. Dê-se a palavra ao arcebispo de Canterbury: talvez seja necessário uma nova crise para que a City tome consciência das mudanças que ele deve fazer.
http://finance.blog.lemonde.fr/2013/04/12/et-pendant-ce-temps-la-une-nouvelle-crise-se-prepare/

