REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

…E durante este tempo, uma nova crise se prepara .

Georges Ugeux, Le Monde, 12 de Abril de 2013 

 Christine Lagarde

Há qualquer coisa de  surpreendente no debate político através dos media. Estes centram-se sobre os temas mais importantes para a opinião  pública, quer eles sejam essenciais ou marginais. Longe de mim  considerar o tema  casamento para todos ou  os paraísos fiscais ou a moralidade política como temas  marginais. São assuntos que  tocam o coração e a vida das  pessoas.

Mas a liderança política não está no acompanhamento, ou mesmo na hipérbole. A liderança política implica uma capacidade de antecipação dos  riscos e das crises. O mundo está numa  zona de risco. Nas palavras de Voltaire, na morte de César, ” Tu dormes,  Brutus, e  Roma em grandes  apuros, à beira de uma guerra!”

E se Christine Lagarde tem razão?

A presença da Directora Executiva do Fundo Monetário Internacional, no fórum de Bo’ao  estava longe de ser um incidente. Colocada  ao mesmo nível que os chefes de Estado,  ela aceitou , durante uma hora,  tratar  de temas  quentes da actualidade,   num  debate moderado pelo antigo embaixador chinês nos Estados Unidos, Zhou Wenzhong, secretário-geral do fórum. Ela identificou as prioridades para a Ásia:

  1. Investir em recursos humanos
  2. Criar um clima propício ao crescimento e ao investimento
  3. Garantir o crescimento sustentável pela protecção do meio ambiente

Mas a sua conferência em Nova York, na véspera das reuniões intercalares do FMI nesta quarta-feira ressoa como um aviso. Mesmo se ela reconhece que a situação está a melhorar, o  seu diagnóstico é inequívoco: o ritmo desigual do crescimento numa economia a  três velocidades cria novos desequilíbrios financeiros que poderiam semear as sementes de uma nova crise.

1. Duas áreas de preocupação parecem dominar nos países emergentes: os empréstimos em moeda estrangeira, que procuram tirar partido das taxas de juro baixas em dólares ou em euros e o recurso ao endividamento crescente nestes países. Este ciclo global, mundial, cujas consequências são infelizmente bem conhecidas, parece estar actualmente sob controlo.

2. Nos Estados Unidos, é a natureza insustentável das finanças públicas que preocupam.

3. O sistema bancário europeu permanece instável: insistindo sobre a necessidade de uma União Bancária Europeia, ela dirige-se directamente à Alemanha que quer uma melhor separação entre a função monetária e a função de supervisão do Banco Central Europeu.

Os centros de preocupação estão a multiplicar-se e a França continua a estar ameaçada

A experiência cipriota, seguida agora pela Eslovénia, confirma que a Europa ainda não encontrou  uma forma  de enfrentar  e de  lidar com as crises bancárias, apesar dos  seus esforços de recuperação e de resgate dos bancos.  A sua proposta de directiva do ano passado ainda não foi aprovada e levanta questões de fundo.

Na sua última intervenção, a Comissão Europeia incide criticamente em especial sobre a França, que acusa de endividamento excessivo e de falta de competitividade. Estes dois factores ameaçam, de acordo com a Comissão, toda a zona euro.

É a combinação de crescimento em recuo e de um défice que aumenta a dívida que preocupa. Se a França se inclui entre alguns Estados-membros da UE que terão evitado uma recessão em 2010 e 2011, a resistência da sua economia tem sido sujeita a difíceis  provas e um certo número  de desequilíbrios internos e externos têm surgido nos últimos anos.

O quadro destas observações é o relatório periódico sobre os equilíbrios macroeconómicos publicado pela Comissão Europeia.

Arnaud Montebourg  não gostará  certamente desta observação: “a rigidez no mercado de trabalho impede a capacidade de adaptação das empresas na economia”. Ele prefere não acompanhar  a mudança que  François Hollande   indicou para resolver a situação do país.

A França é o último baluarte face a uma crise global com origem na Europa. Se o dominó italiano enfraquecer, aquela não parece ser capaz de conseguir resistir.  A vigilância continua a ser fortemente necessária. Dê-se a palavra ao arcebispo de Canterbury: talvez seja necessário uma nova crise para que a City tome consciência das mudanças que ele deve fazer.

http://finance.blog.lemonde.fr/2013/04/12/et-pendant-ce-temps-la-une-nouvelle-crise-se-prepare/

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