Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Maria, os bancos e assassinos pagos para matar: o contrato sobre Vaxevanis (HOTDOC N°26)
Por Okeanos
18 abril 2013 – 13:59
Parte II
(conclusão)
No dia 8 de Setembro, Vaxevanis voltava para casa já tarde, na noite alta, no carro de um amigo quando eles se aperceberam que dois veículos muito suspeitos estavam estacionados na rua com as luzes ligadas. Ele evitou os carros e entrou em casa pela porta das traseiras sem ser visto. Muito cedo, na manhã seguinte, dia 9 de Setembro, ouviu o seu cão a ladrar. Vaxevanis acordou e viu no jardim um homem que estava escondido atrás da porta, como se esperasse que Vaxevanis entrasse em casa por essa porta. Vaxevanis chamou a polícia, cuja chegada na rua terá assustado os presumíveis atacantes – estes eram pelo menos 4 – mas eles conseguiram escapar, especialmente porque o centro de operações tinha dado um número errado da porta à patrulha da polícia. Quando os agentes da segurança de Estado vieram mais tarde durante o dia para recolher as declarações de Vaxevanis, o comandante recusou dar sequência ao processo afirmando que se tratava apenas de uma tentativa fracassada de roubo. Vaxevanis relatou as suas observações assim como as dos seus vizinhos à polícia sobre pessoas que “circulavam” pelo bairro, mas nunca foi convidado a indicar os nomes das testemunhas oculares. Ele também não beneficiou da protecção policial, de que muitos jornalistas proeminentes se servem na Grécia. Os media também ignoraram a questão, enquanto que algumas pessoas dos media começaram a sussurrar que Vaxevanis só queria era publicidade.
Em 17 de Setembro, uma mulher chamada Maria contactou HotDoc e pediu para se encontrar com Vaxevanis, dizendo que era uma questão de vida ou morte e que a “sua vida está em perigo, são os banqueiros”. Maria disse que um banqueiro tinha contactado assassinos contratados pela FYROMK com a ordem de matar Vaxevanis. Ela também afirmou que ela mesmo tinha assinado o recibo para a própria EYP e que o mesmo gang tinha por missão difamar o jornalista Tasos Telloglou, que tem também publicado relatórios críticos sobre o mesmo banco e, sobretudo, que esperam entrar no escritório dos jornalistas da Reuters para roubar as provas de um grave escândalo bancário. HotDoc sabia que uma tal intrusão já tinha sido praticada no dia 30 de maio na sede da Nikos Leontopoulos da Reuters, mas o acontecimento nunca tinha sido tornado público. Para que Maria esteja ao corrente deste acontecimento é porque ela estava envolvida de uma maneira ou de outra, e HotDoc considerou que a “confissão” de Maria merecia um inquérito.
Maria revelou que ela tinha sido contratada por uma empresa dirigida por um certo número de pessoas empregadas pela EYP. Ela tinha sido convidada no âmbito das suas funções para preparar recibos no nome de Vaxevanis, bem como de outros jornalistas e de um político do partido dos Gregos Independentes, tudo em nome do ‘interesse nacional’. Os alvos em questão têm em comum a investigação de escândalos envolvendo o banqueiro que recorreu a uma empresa ou às actividades ilegais do dono da própria empresa. Os recibos foram então não apenas enviados aos “jornais amigos” e a uma grande empresa de Atenas, mas também para a sede do partido Nova Democracia, onde um responsável do partido mostrou o recibo em nome de Vaxevanis a um jornalista estrangeiro que o entrevistou quanto à lista de Lagarde e à prisão de Vaxevanis.
Após a falha na tentativa de difamação pelo recibo, o bando de EYP, de acordo com Maria, lançou três operações paralelas. A primeira destinava-se a difamar Tasos Telloglou, a segunda para eliminar – fisicamente – Vaxevanis e a terceira para desacreditar a testemunha-chave de um julgamento contra o mesmo banqueiro que era Vaxevanis, escondendo drogas nos seus restaurantes para acusá-lo de tráfico de drogas, em seguida. Após a emboscada da casa de Vaxevanis, em 9 de Setembro, Maria compreendeu o que significava o contrato ‘ de que ela tinha ouvido falar, e, completamente em pânico, ela percebeu que, depois de Vaxevanis, provavelmente seria ela a próxima da lista. Portanto, tentou sair da quadrilha, sob diversos pretextos, mas uma fez que isso não era já possível, ela decidiu encontrar-se com Vaxevanis e dizer-lhe toda a verdade. A equipa de HotDoc pediu-lhe para manter sua posição na quadrilha do EYP a fim de poderem realizar a sua investigação em total segurança.
Depois destas revelações, Vaxevanis encontrou um notário para fazer uma declaração sobre toda a história, um documento que deveria ficar selado, lacrado, e seria somente aberto e publicado se e só se houve caso de morte ou sobre uma ordem explícita vinda da sua parte. A seguir, informou Tasos Telloglou que também foi um alvo. Depois, a equipe de HotDoc forneceu notas manuscritas, enviadas por Maria, a um perito em Grafologia, Ioannis Makris, que anteriormente era o chefe-adjunto da direcção da polícia helénica para as investigações criminais. Makris pode determinar que o autor das notas manuscritas foi, provavelmente, a mesma pessoa que passou o recibo na agência EYP. Em Dezembro de 2012, Makris encontrou Maria nos escritórios de HotDoc para receber novas amostras de escrita. Depois de as ter examinado detalhadamente, Makris, concluíu que Maria foi, sem dúvida, a autora do recibo e que a assinatura no recibo, obviamente, não era a de Vaxevanis.
A equipa de HotDoc também confirmou as declarações de Maria visitando os locais utilizados pela quadrilha de EYP para vigiarem a revista HotDoc onde encontraram peças escondidas atrás de grelhas de ventilação, como Maria lhes tinha indicado. Durante esse tempo, Maria tem desempenhado o seu papel e fingia executar a operação visando a testemunha no processo contra o banqueiro. Ela entregou-lhes documentos e fotografias de vigilância sobre essa operação e a equipe de HotDoc, uma vez mais foi capaz de verificar as informações. Depois de ter reunido provas suficientes de que a história de Maria também era bem fundada, a equipe de HotDoc levou o caso à justiça. HotDoc também recebeu um CD com conversas telefónicas gravadas entre os membros da quadrilha em que discutiam os detalhes das suas operações e nomeavam o banqueiro que estava por trás da história (por razões de segurança, cópias do CD foram dadas a colegas de Vaxevanis no estrangeiro.
No início de Dezembro de 2012, a revista HotDoc foi contactada por um e, em seguida, por dois outros membros da quadrilha, no que parecia ser uma tentativa de negar toda a operação sobre o conjunto dos membros. Depois de duas reuniões, HotDoc decidiu não continuar mais estes contactos.
A revista também refere que os ataques verbais contra Vaxevanis se espalharam nos círculos políticos, citando a acta de uma reunião da Comissão Parlamentar de inquérito sobre a lista de Lagarde, em que o chefe do PASOK, Evangelos Venizelos, em vez de discutir o seu próprio papel no processo insinua que um banqueiro rival financia secretamente HotDoc e que os “Serviços” (referência à EYP) devem ser capazes de o provar.
O número 26 de HotDoc inclui um artigo de fundo sobre todo este processo, juntamente com uma longa entrevista com Maria, em que ela conta a história em detalhe, uma lista das pessoas envolvidas no gang de EYP (dando apenas as suas iniciais) e uma documentação completa, incluindo fotografias, do processo de investigação da revista.
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