25 DE ABRIL DE 1974 – O CONTRIBUTO DAS PEQUENAS MIGALHAS – por Clara Castilho

Imagem1A vida corria. Na cidade, podia-se ir de um local a outro sem grande incómodo, quase igual a outras metrópoles. A um olhar mais atento, algumas fácies mostravam-se tristes, preocupadas. Se nos embrenhássemos por certos bairros, lá encontrávamos as crianças descalças e sujas que Eduardo Gajeiro tão bem documentou. E com fome, sem ir à escola… Ah! A escola… ou a falta dela…

Hoje achamos estranho alguém não saber ler nem escrever ( o que ainda me acontece, isto de encontrar pessoas com estes deficits). Então, ensinava eu a escrever, colocando a minha mão em cima de outra calejada, dura e sem conseguir os movimentos mais suaves necessários à caligrafia…Mãos que almejavam saber assinar o seu nome. Pessoas sem individualidade própria, preocupadas com a sobrevivência, sem lhes ser reconhecida a voz, sem lhes ser reconhecido o pensamento! Um facto simples que nos dizia tanto sobre o país.

Era a felicidade de dar algo que temos, porque verdadeiramente nosso e não um bem material – a disponibilidade, o tempo, e talvez o “saber”. A felicidade de dar algo que pode ser absorvido pelo outro e posto ao serviço do seu crescimento interior, pessoal e social. Era intervir, às vezes só sorrateiramente, debaixo de “chapéus” aparentemente inocentes para a vigilância do Estado, na procura de pensamento semelhantes, de locais de reunião aceites. Mas, mesmo assim, cuidado com o que se dizia, mordaça do verdadeiro pensamento…

Uma migalha, pequena e inocente. Outras, maiores e mais organizadas, que moeram e questionaram o regime, mais contribuíram para o que veio a acontecer.

Mas é na revolta individual de muitos que se criam as condições para que um acontecimento social seja aceite por uma maioria, sem sentimento de imposição e com a alegria da LIBERTAÇÃO!

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