REFLEXÕES SOBRE IDEIAS PERIGOSAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

Flexibilidade e desvalorização interna:

Algumas considerações  sobre ideias perigosas que estão na moda e sobre um debate em Portugal sobre a saída do euro

Parte V

(CONTINUAÇÃO)

Nada disto tem a ver com a soberania dos mercados defendida pelo professor já bem referido. Mas agora que os alemães começam a sentirem-se ameaçados nas suas estruturas produtivas com os efeitos da concorrência selvagem que a União Europeia e o seu Banco Central têm aplaudido porque lhes baixa o nível geral de preços, agora que a América, sob a mão do Presidente Obama  se propõe voltar a ser o gigante industrial que já foi, agora,  e ao que parece, a Europa começa a querer despertar da longa letargia, do longo torpor e da longa inactividade que a este nível a levou o modelo de referência que os dois grandes sábios, porque grandes práticos são, tanto parecem defender frontal ou de forma um pouco mais velada: o domínio dos mercados, agora como pensa ela fazer face ao cemitério de fábricas que tem estado a gerar?

Dizem-nos de Wall Street[1] :

  “A União Europeia propôs uma expansão dos seus poderes para proteger as empresas europeias contra a concorrência desleal das empresas estrangeiras, sinal de uma atitude cada vez mais combativa para enfrentar o poder crescente dos exportadores chineses”.

A proposta aparece ao mesmo tempo que a Comissão Europeia considera que se deverá litigiar com a China em disputas comerciais da maior importância, envolvendo painéis solares e equipamento de telecomunicações. Com efeito, uma delegação de funcionários da Comissão Europeia voou para Pequim na quarta-feira a pedido do governo chinês para discussões sobre esses dois casos, disse um porta-voz da União Europeia.

Os dois sectores representam indústrias de alta tecnologia que a Europa gostaria que fossem fonte de crescimento e de criação de emprego. Agora, com essas indústrias em dificuldade face à severa concorrência dos rivais chineses, funcionários europeus debatem sobre as possibilidades de lutar contra essa situação.

A proposta de quarta-feira implicaria um aumento das tarifas de importação contra empresas estrangeiras que beneficiam de subsídios irregulares dos respectivos governos. Também aumentaria o poder da Comissão para iniciar investigações sobre comércio desleal sem ter de receber antecipadamente queixas de empresas europeias, que têm sido cada vez mais relutantes em protestar por causa do risco de retaliação dos governos estrangeiros.

A este respeito, a UE tem tido várias disputas com a China sobre os dois temas. Karel De Gucht, comissário europeu para o comércio, considera os subsídios da China à sua indústria um problema grave. Mas, funcionários e executivos europeus dizem que o governo chinês retalia contra as empresas que apresentam queixas, impondo tarifas às importações ou penalizando os seus investimentos na China.

“A Comissão pretende reagir fortemente, considerando tais acções inaceitáveis”, disse um funcionário europeu.”

Neste texto sublinho a seguinte passagem: “Uma delegação de funcionários da Comissão Europeia voou para Pequim na quarta-feira a pedido do governo chinês para discussões sobre esses dois casos, disse um porta-voz da União Europeia”. Tudo bem claro, portanto.

Sobre este tema consideremo-lo encerrado, deixemo-lo por aqui. Mas com uma certeza, a de que Jorge Bateira tinha razão quando falou de política industrial, quando falou de política comercial. Os novos ventos de mudança já se começam a sentir lá longe, no outro lado do Atlântico, em Washington, enquanto as nossas autoridades europeias correm para Pequim, e os nossos dois grandes sábios vivem bem abrigados pelas boas  remunerações que os mercados lhes têm bem garantido, ao passo que milhões de desempregados e precários, entre muitos outros, aspiram por uma outra Europa, pela Europa dos cidadãos.

Aliás, numa pequena rasteira feita ao Jorge Bateira a propósito da decote sobre os títulos portugueses saudáveis, este meu antigo colega teve o feeling do que estava por detrás: as expectativas racionais, o que o senhor negou! Aliás o Professor Doutor Nogueira Leite sugere-lhe ler um texto de Cadilhe, mas da forma como se refere nem nota que a decote significa que o mark to market para os tais investidores não tem nada a ver com o facto de serem activos de qualidade mas o que conta são as suas expectativas que toma como válidas, reflectidas nos preços propostos pela decote, como sejam válidos ao valores de mercado quando estes mercados estão completamente disfuncionais desde 2008. E a apostarem na rotura do euro ou na saída de Portugal do quadro da moeda única. Essa tem sido a política da União Europeia e em tudo, com o resultado bem à vista.

Mas os grandes sábios porque grandes práticos são, ao racionarem assim, tão sobranceiramente a recusarem a teoria do crítico em frente, o Jorge Bateira no caso, fazem-me lembrar dois ou três autores que acabo hoje de ver citados e que passo a reproduzir, cujas posições parecem assentar que nem uma luva aos sábios práticos assumidos:

“Reparem bem, orgulhosos homens de acção: os senhores não serão nada mais do que os agentes inconscientes dos homens de pensamento, que muitas vezes, no silêncio da sua auto-anulação, marcam com antecedência e de forma exacta todas as vossas acções”

— Heinrich Heine’s History of Religion and Philosophy in Germany (1834)

“O mundo movimenta-se em torno dos inventores de novos valores, invisivelmente mas movimenta-se. Mas em torno dos actores movimentam-se as pessoas e a fama: esse é o caminho do mundo “.

— Nietzsche em Assim Falava Zaratustra.

” As ideias dos economistas e dos filósofos políticos, sejam elas certas ou erradas, têm um alcance mais  poderoso  do que habitualmente se pensa. De facto, o mundo é governado por elas e por pouco mais. Os homens práticos, objectivos, que se julgam livres de qualquer influência intelectual são, em geral, escravos de algum economista defunto. Os insensatos, que ocupam posições de autoridade, que ouvem vozes a pairar no ar, destilam os seus frenesis inspirados dos escritos deixados por algum académico de certos anos atrás. Estou seguro  de que se exagera extremamente a força dos interesses escusos, adquiridos, que se exagera  muito em comparação com o gradual entranhamento  das ideias. (…).

– John Maynard Keynes, Teoria Geral, cap. XXIV

Ah, talvez me digam que são académicos ou que o poderiam ser. Irrelevante portanto. Talvez seja esta a resposta destes dois sábios por grandes práticos que eles são.

A nenhum deles, hoje sábios porque grandes práticos são e por contrapartida aos académicos por eles tão desprezados, vi críticas face aos comportamentos da banca portuguesa face à crise que muito anda a viver das taxas remuneratórias da dívida pública por essa engrenagem diabólica concebida em Frankfurt de emprestar a baixas taxas de juro aos bancos privados para comprarem a dívida pública de Estados soberanos postos em dificuldade pela crise e pelos ataques especulativos e de Estados  que entretanto serviam de garantia à dívida desses mesmos bancos.

A nenhum deles, hoje sábios porque grandes práticos são e por contrapartida aos académicos, vi, ouvi ou li críticas face aos comportamentos dos grandes agentes financeiros e às suas estruturas, na verdade os verdadeiros responsáveis pela crise, os grandes práticos, afinal.

A nenhum deles, hoje sábios porque grandes práticos são e por contrapartida aos académicos por eles tão desprezados, vi críticas face à existência dos paraísos fiscais, enquanto se discute os mais ou menos cortes nos subsídios que quem vai atirado para as galeras do desemprego e se deixam impunemente escapar brutais receitas que bem poderiam aliviar a carga de impostos que aos debilitados da crise são impostas, a nenhum deles eu vi exigirem o desaparecimento dos responsáveis nem a instalação de processos judiciais aos que têm organizado as montagens financeiras que permitem a fuga fiscal.

É curioso ouvir os seus argumentos críticos à situação presente sem que com isso sejam capazes de dizer não à situação presente e esse não só poderia ser a saída de Portugal da zona euro, sozinho ou acompanhado pelos países ditos da periferia, uma vez que assumiram que não há estadistas a nível europeu capazes de nos fazer sair do atoleiro em que estamos colocados. Os argumentos a esse nível foram tantos que a Fátima Ferreira se espantou e terá mais ou menos dito então, com tantas críticas como é que se pode defender a permanência no euro. Inteligente a questão, significativa a ausência de reacção ou de resposta por parte destes nossos dois sábios, grandes práticos, pois então.

Ao João Salgueiro parece que até Keynes o incomodava, mesmo que falasse aparentemente no contrário quando se refere ao abrir e fechar de buracos. Por outro lado, Keynes quando fala nisso é como exemplo à la limite para desbloquear o problema da procura efectiva deficitária face à oferta, mas sobre este tema voltaremos a falar dele[2]. Incomoda-me falar de abrir e de tapar buracos a propósito do New Deal pois contrariamente ao que diz João Salgueiro, Roosevelt com o New Deal não andou a abrir e a tapar buracos. A este senhor, ao outro nem isso vale a pena, sugiro-lhe reler a Teoria Geral e podemos fazê-lo em conjunto, pois nunca se perde nada e mais actual ainda ele está hoje, mas se me dizem que Keynes está velho, leiam-se então os trabalhos de Marshall Auerback, Senior Fellow em Roosevelt Institute,  que é um homem dos mercados financeiros, ou ainda Brad Delong e, por fim, leia-se o último livro de  Paul Krugman  sobre o tema dos buracos, sobre o tema da procura efectiva, sobre o tema da Grande Recessão que nos destrói actualmente. É certo que falou nisso mas o tom que lhe deu foi claramente pela negativa o que pensamos não ser nada sério[3].

(continua)

[1] Wall Street Journal,  Europe Seeks New Trade Weapons, 10 de Abril de 2013.

[2] Com efeito diz-nos Keynes: “ Enquanto os milionários se comprouverem a construir vastas mansões  para albergarem os seus corpos enquanto vivos e pirâmides para os abrigarem depois de mortos, ou, arrependidos dos seus pecados, erguerem catedrais e fizerem doações  a mosteiros ou missões no estrangeiro, poderá ser adiado o dia o dia em que a abundância de capital virá interferir com a abundância de produção. “Cavar buracos no chão” à custa da poupança não só aumentará o emprego, como também o rendimento nacional em bens e serviços úteis. Contudo, não é razoável que uma comunidade sensata se contente com paliativos tão fortuitos e frequentemente inúteis, uma vez que saibamos de que influências depende a procura efectiva” Keynes, Teoria Geral, edição Relógio de água, Lisboa.

[3] Paul Krugman, Acabem com esta crise, já! Editorial Presença, Lisboa,2012.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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