“Poesia e crise econômica“
A crise econômica começada em 2008 e que continua a atormentar a vida dos países europeus, com particular incidência sobre aqueles componentes da Comunidade Européia, encontra em Veneza um seu cenário de particular realce. Isto não porque a cidade sofra em modo especial a atual situação da finança mundial, pois as mais recentes estatísticas referentes ao ano veneziano de 2012 indica que o movimento turístico, a sua indústria principal, teve um crescimento notável: 10 bilhões de Euros a mais em relação ao movimento de 2011 entraram para as caixas da cidade dos Doges. Verdade é que os venezianos reduziram de mais ou menos 5% as suas despesas de consumo geral. Mas isso transparece principalmente porque antes os mesmos viviam num ritmo consumístico alto. Verdade é que a riqueza imobiliária veneziana atravessa uma fase de queda. As vendas de apartamentos baixaram fortemente, assim como diminuiram os pedidos de casas em aluguel. Mais de mil apartamentos estão com suas janelas fechadas e os proprietários renunciam por longos tempos a vendê-los ou alugá-los. Porém, apesar de tudo isso, os venezianos seguem adiante nos próprios dias com relativa tranquilidade, frequentando os teatros, as salas de concertos musicais, os museus e as galerias de arte – muito menos os cinemas, dada igualmente a drástica diminuição das salas de projeção -, bem como convidando os amigos para jantares em casa, quando não o fazem diretamente num restaurante ou tratoria.
Porém, não tão assim tranquila vive a parte física da cidade. A crise econômica se mostra em modo visível pela suas ruas. Isso, em particular, por um determinado fenômeno visível nas calles venezianas, pelas quais a gente transita ombro a ombro, se faz mais notar do que em qualquer outra parte: a mendicância.
Veneza está desde há muito invadida por mendingos. Esses atuais são de diversos tipos, sendo representados não somente por imigrantes estrangeiros, mas igualmente por italianos. Mais do que em qualquer outra parte da península a cidade se mostra como um laboratório denotativo do aumento da pobreza dos italianos, pobreza essa crescida até o 7% da população nacional que hoje já supera os 60 milhões de habitantes. A desocupação aumenta diariamente, fazendo do trabalho – sobre o qual se apóia o artigo 1 da Constituição da República – o problema essencial da vida nacional, o mesmo que invoca por novos endereços que a confusa ação dos partitos, tanto os de tendências de centro-direita, como aqueles de linhas tradutoras de um espírito de centro-esquerda não sabem conquistar.
Nesse quadro desolador da vida veneziana, de repente apareceu um exemplo de mendicância que de certo modo faz esquecer por momentos as presenças dos outros: os dos velhos, principalmente as mulheres, da população rom que ocupam os degraus das dezenas e dezenas de pontes da singular paisagem urbana veneziana, desfrutados pelos homens jovens das correspondentes famílias; ou ainda aquele de jovens imigrantes africanos, de aspecto esportivo, razoavelmente bem vestidos, que imploram pela caridade pública.
Foi então que em determinado dia apareceu e ganhou realce uma nova presença de
mendicância, aquele da poesia.
Fenômeno dos fenômenos! Sabemos que a poesia sempre soube traduzir todas as circunstâncias da vida social e política do homem. Assim sempre foi para os momentos de paz, como para aqueles de guerras. Porém, faltava a poesia nascida para superar os limites de vida impostos por uma crise econômico-financeira.
Tudo isso aconteceu um dia quando, em pleno Campo Santa Margherita, a praça central citadina mais frequentada em toda a Veneza, apareceu um indivíduo magro, de estatura média, aspecto geral sacrificado pelos próprios problemas, de idade indefinível, entre 40 e 50 anos, que oferecia em venda … poemas! Vendia a sua poesia, os seus poemas devidamente impressos num papel leve, enrolado meticulosamente por um pedaço pequeno de cordão rústico. Naturalmente a gente se sentiu surpreendida pelo evento, mas igualmente curiosa.
Foi quando surgiu a polícia local que lutava com o poeta-mendigo, tentando tomar-lhe a sua mercadoria, ao mesmo tempo que lhe lavrava uma multa por comércio público sem a devida licença.
O poeta se debatia entre os três policiais, provocando de imediato grande reação da gente que invocava aos policiais de melhor considerar a particular situação do então mais mendingo que poeta. Assim se fez por quase uma hora, no final da qual os policiais relacharam da inicial multa, porém confirmando ao poeta-mendigo que ele não podia vender o seu produto assim como antes o fazia.
Tudo serenou e a praça retomou o seu ritmo normal.
No dia segunte, em meio ao Campo Santa Margherita reapareceu o exótico personagem perseguido pela polícia no dia anterior. Ele chegou tranquilo em meio à grande movimentação da praça veneziana. Trazia consigo um caixote retangular, da altura de 50 cm. Colocou o caixote no meio da praça, justamente por onde passava a maior onda de transeuntes; cobri-o com um toalha um pouco suja, ali colocando, em seguida, uma caixa cheia de poemas. Junto à caixa, uma caixinha com uma abertura, como um cofre, na qual o poeta escrevera:”Poesia para a gente toda. Por favor, deixem uma moeda.”
Num desses dias de magnífica primavera, eu parei diante da caixa dos poemas. Coloquei duas moedas no cofre de papel e tomei para mim um poema de Antonio Melis; assim se chama o poeta-pedinte da sempre surpreendente Veneza.
O poeta, mas também o pedinte, educamente à parte quase dez metro, movimentou sua cabeça na minha direção, num simpático agradecimento.
Eis o poema de Antonio Melis –
Sofrire Sofrer
e e
gioire alegrar-se
per pelo
l’ Amore Amor
mi me
fa faz
sentire sentir
vivo, vivo,
sento sinto
la a
sua sua
estasi êxtase
che que
all’anima à alma
e e
ai aos
primordi primórdios
non não
può pode
né nem
mancare faltar
né nem
esserne dela ser
privata. despojada.
