AS CASCAS DE BANANA EM PUTREFACÇÃO: DE ROGOFF AO ECONOMISTA CAVACO SILVA
Por Júlio Marques Mota
IV
(CONTINUAÇÃO)
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Erro de código do Excel
Como HAP mostraram, “um erro de codificação na folha de cálculo Excel com que trabalhou R&R exclui totalmente cinco países, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá e Dinamarca, da análise que foi feita. [Reinhart-Rogoff] calcularam as médias utilizando as linhas de 30 até 44 em vez das linhas de 30 a 49… esse erro da folha de cálculo é responsável por (-0,3) ponto percentual do erro em R&R no cálculo da taxa de crescimento médio do PIB real do conjunto dos países situados então naquele intervalo de dívida pública/PIB, ou seja, acima dos 90%”. A Bélgica, em particular, tem 26 anos com o rácio da dívida pública/PIB acima de 90%, com uma taxa de crescimento médio de 2,6% (embora isto só conta como uma vez no total devido ao método de ponderação acima explicado).
Este erro é necessário para se obter os resultados que foram publicados e seria muito fastidioso explicar porque é que foi impossível para os outros replicarem esses resultados. Se este erro passa a ser um erro realmente feito por R&R, bem, então o que deveremos esperar é que os historiadores futuros sublinhem com clareza que um dos pontos-chave no estudo empírico que forneceu a base intelectual para a mudança global que nos levou a aplicar fortes medidas de austeridade desde o início doe 2010 foi baseado em alguém que acidentalmente não actualizou uma fórmula em algumas linhas na folha de cálculo Excel.
Como se ilustra com a tabela acima e com a caixa marcada na zona a azul, o erro da folha de cálculo excluía os países da linha 45 à 49, ou seja, eram excluídos por um erro na programação da folha de cálculo a Austrália, a Áustria, a Bélgica, o Canadá e a Dinamarca. Quanto aos países especificados da linha 30 à linha 44 há ainda a sublinhar as eliminações feitas por R&R. Por exemplo, a Nova Zelândia entra apenas neste grupo com um alto rácio da dívida pública/PIB apenas uma vez quando na verdade as observações feitas dizem-nos que esteve 5 vezes mas não são as 5 observações que entram nos cálculos de R&R. Ainda nas exclusões de R&R temos também de assinalar a exclusão da Austrália, nos anos de 1946 a 1950, exclusão que se deve apenas a R&R, pois a exclusão feita pelo erro da folha de cálculo que exclui da Austrália, por exemplo, os outros anos é outra coisa. A registar igualmente a exclusão decidida por R&R do Canadá, de 1946 a 1950.
O novo bando dos quatro dos tempos modernos
Como assinalam HAP, mais significativas são as exclusões feitas por R&R em três países, Austrália (1946-1950), Nova Zelândia (1946-1949) e Canadá (1946-1950). A exclusão da Nova Zelândia assume particular significado. E isto porque todos os 4 anos excluídos estão na categoria de altos rácios da dívida pública/PIB e altas taxas de crescimento, 7,7%, 11,9%, (-9,9%) e 10,8%. Com a exclusão teríamos já um erro que sai ainda mais reforçado quando em R&R a Nova Zelândia entra com um peso elevado na ponderação para a média encontrada para o grupo de países que estão na situação de elevados rácios da dívida/PIB. Esta exclusão de anos de observações significativas adicionada ainda ao facto de se ponderar de igual modo os países em vez de o ser pelo número de presenças observadas em cada grupo é responsável por uma subestimação da taxa de crescimento do PIB de quase (-2) pontos percentuais, enquanto os erros da transcrição da folha de cálculo representam (-0,4) ponto percentual. No total, a actual taxa de crescimento médio face ao rácio da dívida pública vem então de 2,2% e não de (-0,1%) como foi calculado por R&R. Como se assinala em HAP:
A diferença real entre a categoria de dívida/PIB mais alta e a que lhe está mais próxima é de um ponto percentual (ou seja, 3,2 por cento menos 2,2 por cento). Por outras palavras, a sua estimativa de crescimento médio do PIB no grupo acima de 90% de dívida pública do PIB é de (-0,1%) e, neste caso, R&R exagera a diferença entre as duas categorias em 2,3 pontos percentuais, ou seja, num factor de quase dois pontos e meio.
Repare-se agora na passagem do grupo de um rácio entre 60% e 90% para o rácio acima de 90%. No trabalho de R&R a passagem para o rácio mais alto é a queda no abismo, é a descida da taxa média de 2,8% para (-0,1%), ou seja, uma descida brutal no crescimento económico. Lamentamos, mas percebe-se aqui o discurso do candidato à presidência dos Estados Unidos contra Obama, percebe-se aqui o discurso do ministro alemão das Finanças Wolfgang Schäuble, percebe-se aqui o discurso de Olli Rehn, percebe-se aqui o discurso de Jens Weidmans. Em conjunto com Rogoff temos pios aqui o novo bando dos quatro, os homens que estão por detrás da destruição do continente europeu, na teoria e na prática. É necessário evitar o abismo, a linha vermelha de Rogoff, e nada mais importante do que baixar o endividamento público e reduzir o papel do Estados. Ora, entre as duas categorias mais elevadas de rácios da dívida, há apenas uma descida na taxa de crescimento em 1 ponto percentual ainda com taxa positiva de 2,2% em HAP, em vez de uma queda em 2,9 pontos percentuais, situando-se a taxa de crescimento em (-0,1%) na categoria mais elevada em R&R. Para chegar a este resultado, HAP fizeram entrar simplesmente nos seus cálculos dados que foram estranhamente omitidos nos cálculos de R&R, tais como os anos de taxas de crescimento muito fortes da Nova Zelândia enquanto a sua dívida pública atingia mais de 90% do seu PIB, como já explicámos com algum detalhe. Somente o ano de recessão de 7,6% do PIB tinha sido até aí incluído. Só por si, esse erro fazia descer cerca de 0,3 ponto percentual o crescimento médio global para lá do rácio de 90% da dívida pública em relação ao PIB. Mais ainda, o crescimento só desce muito regularmente: 2,4% em média para níveis de dívida entre 90% e 120% e 1,6% quando se está com rácios da dívida pública/PIB de 120%. O efeito “O Dia do Juízo Final” (fim do mundo com o inferno para os pecadores e o paraíso para os justos) de R&R que deveria fazer tremer as multidões de medo, esse evapora-se; na pior das hipóteses, a descida das taxas de crescimento é muito gradual e estas são sempre positivas.
Se funcionarmos à R&R, — à Passos Coelho, à Gaspar, à moda do economista Cavaco Silva do 25 de Abril que nos quiseram e querem roubar —, teremos que acelerar a criação de excedentes primários através do corte nas despesas sociais, na saúde, na doença, nos custos sociais do desemprego, reduzir a dívida pública e para acelerar o processo colocar ainda o país em hasta pública vendendo em saldo as jóias da coroa portuguesa pela mão de António Borges. Com isto, teremos uma baixa do rácio da dívida pública e assim a passagem de uma taxa de crescimento negativa para uma boa taxa de crescimento positiva conforme o quadro dos resultados de R&R. Na lógica do bando dos quatro e dos seus servidores, a solução, a redução drástica do rácio da dívida pública/PIB deve ser executada o mais rapidamente possível, ou seja, a palavra de ordem é a de que devemos empobrecer rapidamente o país para depois, seguramente e como prova a ciência económica criada por Rogoff, podermos enriquecer!





