Hoje, em A Viagem dos Argonautas, voltamos novamente ao Rana Plaza, o edifício que tinha o nome do seu proprietário, Rana Sohel, que estará agora detido. O número total de vítimas ainda não está determinado, o número de mortos tem crescido aterradoramente, há muita gente ferida, uma quantidade de famílias foi gravemente atingida. O argonauta Júlio Marques Mota trouxe-nos um artigo do jornalista americano Zachary M. Seward, que aborda a ligação da Benneton, uma multinacional que pretende apresentar-se ao público com cores progressistas, ao Rana Plaza, e conseguimos num dos nossos “anúncios” do início da manhã publicar uma tarjeta da campanha da organização Clean Clothes/Ropa Limpia contra o uso da técnica do jacto de areia no tratamento das gangas, por causa do risco de causar silicose aos trabalhador(@)s que a utilizam no seu trabalho.
Tem havido numerosos e justificados protestos contra as grandes marcas que não hesitam em recorrer às firmas do terceiro mundo, que trabalham em condições tão precárias, e subsistem explorando violentamente os(as) seus(suas) trabalhador(@)s. Entretanto, o Bangladesh defende-se informando que é o segundo exportador mundial de vestuário, sector que emprega quatro milhões de pessoas e representa 80% das exportações. Isto quando se lamenta a irresponsabilidade que campeia a vários níveis, e que permite a ocorrência de situações como a do Rana Plaza, que não constitui de modo nenhum caso único. Nem o Bangladesh é o único país onde ocorrem situações destas.
Por detrás, ou acima, conforme preferirem, de situações destas (permita-se, a propósito, recordar a grande incidência de acidentes de trabalho em Portugal, embora em números mais baixos) estão determinadas orientações políticas. Recordem-se os discursos empolados dos diversos políticos sobre a competitividade, a desregulamentação, e outros tópicos de contornos vagos, mas que, no entender de Merkel, Barroso, Passos, Gaspar, Portas, etc. são fundamentais para a governança. O resultado está à vista. O Bangladesh (A Viagem dos Argonautas tem muito respeito pelo país e pelos seus habitantes) é muito competitivo. E catástrofes como a Rana Plaza tendem a ser tratadas como incidentes de percurso. O problema é este: as más condições que permitem ocorrer um desastre tão horrendo, e outros semelhantes, funcionam como um atractivo para as grandes firmas, e os políticos que as defendem. É a esta mentalidade que permite opções tão desumanas, tão injustas, que é preciso pôr cobro. Para defender os lucros a uns, põe-se em risco (e muitas vezes acaba-se com) as vidas dos outros, destrói-se a sua saúde, mantêm-se populações inteiras numa miséria abjecta. É este o grande problema do mundo moderno. Só talvez as alterações climatéricas poderão vir a constituir uma ameaça da mesma grandeza. Há aqui um avanço civilizacional muito urgente que é preciso pôr em movimento com primeira prioridade.

