“O LIVRO DA TILA” DE MATILDE ROSA ARAÚJO – por Clara Castilho

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Matilde Rosa Araújo, pelo seu valor como escritora, pela sua postura ética e coragem cívica, é uma daquelas figuras que merecem não ser esquecidas. Lembrar Matilde Rosa Araújo e, em particular, a sua relação com o público infantil, é o que faz Clara Castilho.

Foi através de um poema deste livro – História do senhor mar – que entrei na primeira fase das minhas relações com a Matilde, pois  foi a poesia escolhida de “O livro da Tila” para eu dizer, andava ainda na primária, num palco de uma vila (Belas), junto do adro da igreja, na festa anual. Vestidinho branco, como mandava o figurino da época, fitinha no cabelo…Imagem1

Mais tarde, quando com ela trabalhei no Instituto de Apoio à Criança, muito nos divertimos a ver as minhas fotografias…

 “O Livro da Tila”… Tila, nome pelo qual Matilde era conhecida entre os amigos.

Este livro foi o seu primeiro na literatura para crianças, em 1957. Foi escrito nas viagens de comboio entre Lisboa e Portalegre, onde leccionava, e cujos poemas foram musicados por Lopes Graça. Nele se pode ver o universo de uma infância,  feito de pequenos deslumbramentos perante o mundo e a natureza. A voz é ora a da infância, ora a de adulto que observa o real e as relações que a criança com ele estabelece.

Já aqui vemos uma faceta que mais tarde Matilde irá desenvolver, a da atenção muito especial que dedica à criança que sofre,  numa aproximação às poéticas neo-realistas.

Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica (1945), fez carreira docente como professora do primeiro Curso de Literatura para a Infância na Escola do Magistério Primário de Lisboa, bem como do Ensino Técnico Profissional em diversas cidades do país.

Com o seu 1º livro em 1943, “A Garrana”, venceu o concurso “Procura-se um Novelista”, do jornal O Século, em cujo júri de encontrava Aquilino Ribeiro.

Colaborou em diversos jornais como A Capital, O Comércio do Porto, República, Diário de Lisboa, Diário de Notícias e Jornal do Fundão e nas revistas Távola Redonda, Graal, Árvore, Vértice, Seara Nova e Colóquio/Letras.

Os seus livros foram ilustrados por vários ilustradores portugueses, de Maria Keil a Gémeo Luís e a João Fazenda.Imagem2

A defesa dos direitos da criança sempre foi uma das suas preocupações. Daí ter sido sócia fundadora do Comité Português da UNICEF e do Instituto de Apoio à Criança.

Foi membro da Sociedade Portuguesa de Escritores (actual APE), com cargos directivos. Assinale-se a actuação desta sociedade, em 1965, quando premiou José Luandino Vieira, então preso no Tarrafal, o que teve como reacção a invasão das suas instalações pela PIDE e a demissão da direcção.

Entre os numerosos prémios que recebeu, conta-se o Grande Prémio de Literatura para Criança da Fundação Calouste Gulbenkian (1980), ex-aequo com Ricardo Alberty. Em 1991, recebeu o Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro da Associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo, Brasil, por “O Palhaço Verde”, e cinco anos depois viu a obra de poesia “Fadas Verdes” ser distinguida com o prémio Gulbenkian para o melhor livro para a infância publicado no biénio 1994-1995.

Em 1994, fora nomeada pela secção portuguesa do IBBY (Internacional Board on Books for Young People) para a edição de 1994 do Prémio Andersen, considerado o Nobel da Literatura para a Infância. Em 2003, foi condecorada, a 08 de Março, Dia da Mulher, pelo Presidente Jorge Sampaio. Em 2004, quando recebeu o Prémio de Carreira da SPA.

A obra “Matilde Rosa Araújo – um olhar de menina”, de 2009, é uma biografia romanceada da escritora com texto de Adélia Carvalho e ilustração de Marta Madureira.

Matilde Rosa Araújo morreu aos 89 anos, em 2010.

Mais informações em: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/

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