O PIONEIRISMO DE JOÃO DOS SANTOS NO OLHAR À RELAÇÃO MÃE-BEBÉ por clara castilho

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Depois da homenagem feita em Lisboa, a Barry Brazelton e Daniel Stern, não posso deixar de referir o pensamento do nosso português João dos Santos. Médico pedopsiquiatra, psicanalista, há muitos, muitos anos que se vinha pronunciando sobre a relação mãe-bebé, a sua importância e os cuidados que todos deveríamos ter para proteger esta díada. Mas, para além de falar do assunto, trabalhou em serviços onde pôs em prática as suas ideias. E imaginem quando? Há precisamente 60 anos!

Lembremos que nessa altura não havia profissionais de saúde mental infantil e ele teve que os formar. Formava grupos de pessoas, que observavam determinada situação e depois discutia-se, todos dando a sua opinião.

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Considerava ele que os sintomas das crianças que lhe apareciam nas consultas começavam muito mais cedo. Para além disso, “para que uma criança seja recebida pela mãe em condições favoráveis ao seu desenvolvimento e equilíbrio é necessário que a gravidez decorra tranquilamente e portanto que a grávida se sinta apoiada e protegida”.

Fomentou a integração da saúde mental na Seccão de Higiene Mental do Centro materno-Infantil Sofia Abecassis. Tratava-se de uma experiência única e perfeitamente original no nosso país. A ideia partiu da enfermeira Rosélia Ramos que o procurou no Hospital Júlio de Matos, ao tomar conhecimento, através da Imprensa, da chegada a Lisboa de um psiquiatra da infância

Pretendia que se não esperasse pela idade escolar pra compreender e intervir sobre as perturbações do comportamento das crianças. Daí a necessidade de se conhecer a mãe desde a gravidez, em conjunto com os técnicos de saúde que a acompanhavam. Para a colaboração deste trabalho inovador e inédito, obteve a colaboração da pedopsiquiatra Margarida Mendo, do psiquiatra Pistaccini Galvão e da pedagoga Maria Amália Borges.

Esta ideia foi curiosamente, na mesma época, mas sem terem disso conhecimento, posta em prática no Brasil, em S. Paulo, pelo psiquiatra Mário Yan.

Como se calcula, críticos não lhe faltaram…Inclusive (diz-nos o próprio João dos Santos, 1982) técnicos da Fundação Rockefeller que tinham vindo a Portugal, condenaram esta experiência por estar fora dos parâmetros habituais das suas intervenções. Mas “mais tarde, no fim da década de 50, Matic, um conselheiro jugoslavo da O.M.S., que então nos visitou, aprovou-a vivamente”.

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Mas, mais do que a necessidade de harmonia na relação bebé-mãe, João dos Santos realçou a necessidade de essa harmonia se estender também ao meio social. Referia que a mãe só está disponível para o seu bebé quando apoiada pela figura paterna. A mãe abandonada tenderá a abandonar afectivamente o seu filho, ou a servir-se dele como objecto de compensação da sua frustração. “A protecção materno-infantil tem que ser obra de instituições que apoiem simultaneamente a mãe e o filho e que visem a consolidação deste binómio e do triângulo mãe-pai-filho”.

A este propósito e como curiosidade, junto uma informação sobre um acontecimento que muita força veio dar a este tipo de intervenção junto do bebé. Acontece que, não se sabe bem porquê,  um grupo de psiquiatras americanos decidiu escolher Portugal para realizar o 1º Congresso Mundial da 1ª Infância, em 1980. Estamos a falar de técnicos ligados a Margareth Malher, célebre psiquiatra americana (autora de  La Naissance psychologique de l’être humain.”).

O facto é que contactaram com João dos Santos que criou uma comissão local para com eles o prepararem (nomeio as que conheço, Maria José Vidigal e Maria José Gonçalves). E no Estoril se reuniu uma multidão, vindo também Barry Brazelton e Daniel Stern, do outro lado do Atlântico, e os psiquiatras deste lado, sobretudo franceses. Foi com a energia daqui resultante que se criou a “Unidade de 1ª Infância”, como uma equipa da Centro de Saúde Mental Infantil, sob o impulso de Maria José Gonçalves.

 

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