(Tradução de Manuel Simões. Este conto/fábula foi publicado pela primeira vez num jornal italiano em 19 de Janeiro de 1953, com o título “Desgraças de um País”)
Havia um país no qual tinha sido adoptado um estranho sistema eleitoral. Os votos para o governo contavam o dobro dos destinados à oposição. No dia das votações os eleitores “governativos” viam com afecto comovido, escorregando na abertura da urna, os seus votos bojudos e consistentes como ovos, dos quais deviam sair ninhadas de deputados peitudos. Os eleitores da oposição, pelo contrário, ai deles, sustinham a respiração de cada vez que a urna engolia um dos seus boletins frágeis e subtis como hóstias, de que era preciso acumular rimas altíssimas para mandar um deputado para o Parlamento. De qualquer modo, com o novo Parlamento – como previam os jornais bem-pensantes – a situação estabilizou-se. Os ministros e a classe dirigente, já tranquilos, treinavam-se no golfe, na canasta, na pesca à linha e no pingue-pongue; e os pobres-diabos que representavam a oposição deviam ficar imóveis na suas frias casas (dado que a maior parte estava desempregada), esperando que nevasse para serem contratados para limpar a neve.
Sinais seguros anunciavam que a reforma eleitoral fazia parte das leis da Natureza, tinha a ver com a ordem que guia o percurso dos planetas. Bastava, por exemplo, que um inscrito nos partidos do governo enterrasse um feijão dentro dum vaso e eis que nasciam duas plantas; aos opositores, pelo contrário, um feijão dava sempre uma planta de feijão, usualmente mais robusta e rica de vagens do que as dos “governativos”, amarelas e sem vigor; mas, seja como for: para eles uma, e para aqueles duas, por causa do prémio para a maioria. E, por exemplo, uma flor de pereiro sobre um ramo, se era do pereiro dum opositor não mais do que um fruto, se era da planta dum “governativo” dava dois (que, verdade se diga, depressa criavam bicho). E as galinhas dos “governativos” punham ovos com duas gemas. Pois é – dizia-se de cada vez –, existe o prémio para a maioria e já ninguém se admirava.
O conde Giancipace, assaz influente sobre o governo, voltando da caça com duas codornizes, a quem lhe perguntava como lhe faltasse só um cartucho na cartucheira, explicava que as aves, com a nova lei, tinham começado a voar à sua volta aos pares, e assim se deixavam chumbar duas a duas. A deputada Bonifazi-Ottavi, pesando-se numa balança pública, declarou que no peso de 120 quilos estava comprendido o prémio de maioria a que tinha direito.
Os párocos citavam estes episódios nas homilias; tudo sinais – diziam – que o céu estava de acordo com o sistema eleitoral. E aplicaram os mesmos cálculos às missas que celebravam para salvar um morto das penas do Purgatório; tantas, se era de família bem-pensante, tantas a mais se a família não aprovava aquele governo.
Entretanto, as pessoas das classes populares, que sofriam os danos da lei, continuavan bem ou mal a sua vida com o ritmo natural,e, para elas, um mais um eram sempre dois, e cada efeito correspondia à sua causa.
Depois de nove meses a partir da adopção da lei, muitas unidades amadureceram na família dos “governativos”. Os filhos concebidos no fervor daquela vitória eleitoral começaram a nascer e eram todos pares de gémeos. Ao princípio o facto suscitou alegria e entusiasmo. O prémio, portanto, era aplicado também às leis da reprodução! Mas passavam os meses e um tal privilégio começava já a preocupar sobretudo porque estes gémeos eram frágeis, engelhados, de carácter implicativo, irritáveis, ciumentos e inimigos um do outro. Pelo contrário, nas casas dos opositores, os esposos faziam os filhos um de cada vez; crianças honestas, reluzentes e joviais, a alegria de os ver era só ofuscada pelo pensamento de que nasciam em tempos tão míseros.
As famílias dos “governativos” estavam angustiadas. Por religião, não podiam subtrair-se à obrigação de fazer filhos e continuavam a nascer estes pares de gémeos.
O fenómeno era acompanhado por outros menos graves mas de qualquer modo aborrecidos. Se a Fulano doía um molar cariado, logo lhe doía também um molar da outra face e tinham que lhe fazer duas extracções, se Cicrano tinha um calo ou um olho-de-perdiz no pé direito, logo lhe nascia um outro no pé esquerdo; se faziam esforços surgiam as hérnias como figos num ramo; no rosto dos rapazes, na Primavera, despontavam duplos furúnculos como flores de prado, por fim as bichas-solitárias nunca apareciam sozinhas.
Não querendo alongar o conto, esta saraivada de prémios inesperados da maioria tornava difícil a vida a uma parte do país. E a oposição, serena e imune a fenómenos anormais, crescia de forma e importância.
Um dia um operário electricista, resolvendo um problema em casa do novo subsecretário De Cadrega, ouviu um suspiro na sala ao lado. Olhou e viu a senhora De Cadrega, um tanto gorda mas graciosa e ainda jovem, sentada sozinha e desconsolada. Perguntou-lhe o porquê de tantos suspiros e ela falou-lhe das angústias que a perseguiam desde que se adoptara aquela lei, com todas as naturais harmonias baralhadas. O operário, um jovem expansivo, fez quanto pôde para a consolar. Talvez tenha exagerado um pouco nos argumentos ou talvez a senhora se encontrasse num especial estado de espírito: o facto é que ficou logo grávida.
Tratando-se do subsecretário De Cadrega, foram preparados duplos enxovais e duplos berços e duplos carrinhos, como já se fabricavam em série. No entanto, nasceu uma só criança mas tão robusta, forte e risonha que o escândalo depressa alastrou. O subsecretário De Cadrega foi obrigado a pedir a demissão e expulsou a mulher com o filho da culpa. O operário abriu-lhes a sua mísera casa e assim viveram de amor.
O facto deu que falar. O juízo da gente simples foi de condenação do subsecretário e cada vez mais pessoas, que antes apoiavam o governo, passavam para o campo dos opositores. Como renunciavam às vantagens eleitorais, cessavam os fenómenos à sua volta e tornava a certeza das próprias forças; as galinhas punham os ovos com uma gema, os dentes cariavam-se um de cada vez. Então o país já não estava dividido em dois mas compreendia-se que queriam as mesmas coisas uns e outros. E então estava certo que o mundo devia tornar-se claro e bom, como da semente nasce a árvore e da flor o fruto.
