INTRODUÇÃO A UM TEXTO DE THOMAS PALLEY, por JÚLIO MARQUES MOTA. À PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA.

Coimbra, 23 de Maio de 2013

Excelentíssima Senhora Presidente da Assembleia da República, Excelentíssimos Senhores Líderes das Bancadas Parlamentares

Parte I

Thomas Palley, um grande economista americano publicou agora via Berlim um texto de economia extremamente importante, importante porque critica lapidarmente o pensamento económico dominante assim como as suas mistificações, importante porque desmonta igualmente as linhas de pensamento que aparecem conciliatórias com o pensamento dominante embora com outras roupagens, inspiradas em abordagens mais críticas, para vender o mesmo quadro de políticas económicas. E com uma roupagem diferente para nos convencer que é mesma uma teoria económica diferente, mas para se aplicar os mesmos instrumentos, para se fazer depois a mesma coisa. A esta última chama Palley o pensamento económico à Leopardo, a lembrar Lampedusa, a lembrar Visconti, a lembrar que é necessário mudar alguma coisa, a roupagem, para que intencionalmente se consiga que fique tudo na mesma. Um texto que tomo a liberdade de a todos enviar. Um texto onde se sugere que é chegado o tempo de dar lugar à economia e acabar com a mistificação. Um exemplo do pensamento à Leopardo encontramo-lo no PS português, quando o que pretende é o respeito do programa da Troika, contra os vendilhões do templo, como Passos Coelho e Gaspar, que querem ir mais longe e mais rápido que a Troika. Ora, nem era preciso Passos Coelho e Gaspar reclamarem-se dessa intenção, porque a austeridade do programa da Troika, levaria necessariamente a mais austeridade, que levaria depois a mais austeridade, e assim sucessivamente. Veja-se a Inglaterra, para quem tem dúvidas, onde com Osborne, tão feroz como Gaspar, se debate com essa realidade. O problema não é pois respeitar o programa da Troika, o problema é recusar o programa da Troika.

Eis pois um texto que envio, como cidadão de um país martirizado pelas políticas de austeridade, aos nossos líderes parlamentares para que o leiam, para que amanhã não digam que estavam enganados quando chegar a vigésima quinta hora, quando as ruas se encherem de gente como um rio quando se enche de água fica a transbordar, o que irá acontecer quando as gentes que mandam os filhos comer na sala quando eles comem na cozinha para discutir política fora do alcance das crianças, quando as gentes que compram alegremente peixe apenas para os filhos porque de peixe não gostam, quando as gentes se alegram por ver no fundo dos caixotes do lixo ou ao seu lado pedaços de metal que podem vender para matar a fome dos seus filhos e a sua também, como vi recentemente na Cova da Piedade, quando os desempregados em fim de linha e de subsídios perderem completamente o norte da vida, quando os doentes que ficaram privados de terem saúde por falta de dinheiro que nem ao hospital poderão ir perceberem que nada mais terão a perder, quando os jovens sem emprego e sem futuro perceberem que tudo isso pelas políticas de austeridade lhes foi destruído, quando toda essa gente reclamar o pão, a saúde, o emprego, o futuro a que tem direito e a dignidade de vida que lhes é devida, nessa altura senhores deputados, não poderão dizer, depois de lerem este texto de Thomas Palley, que não sabiam que as políticas de austeridade davam este resultado. Um texto que explica bem que é assim mesmo e que só por cinismo ou interesse é que estas políticas continuam a ser defendidas.

Depois do escândalo do engano do FMI sobre os valores possíveis para os multiplicadores orçamentais, depois do FMI ser confrontado sucessivamente com as enormes diferenças entre as projecções e os resultados verificados desde 2003 e muitas vezes de sinal contrário, eis que o actual economista-chefe Olivier Blanchard vem publicamente reconhecer o seu erro, muito tardiamente acrescente-se, e em que simultaneamente justifica que tudo pode ficar na mesma. É necessário pois acabar com toda esta manipulação, este deve ser o tempo para a reflexão, o tempo para as pessoas, o tempo para a economia, o tempo para lermos o que texto que se segue de Thomas Palley.

Depois do trabalho de Reinhart-Rogoff e do escândalo que com ele rebentou, trabalho que serve para justificar as políticas de austeridade para países com rácios da dívida pública/ PIB elevados, é necessário que desta vez as coisas sejam diferentes, o que eles nos dizem, para que depois fique tudo mesmo diferente, sem incumprimentos mas com uma trajectória de crescimento encontrada para estes mesmos países e populações sujeitos e obrigados a fortes políticas de austeridade primeiro e somente ao crescimento económico depois. É necessário pois acabar com toda esta manipulação, este deve ser o tempo para a reflexão, o tempo para as pessoas, o tempo para a economia, o tempo para lermos o que texto que se segue de Thomas Palley.

Depois dos defensores mais acérrimos das políticas de austeridade como Osborne, em Inglaterra, Wolfgang Schäuble, na Alemanha, ou mesmo os candidatos republicanos às primárias do seu partido primeiro e o candidato americano às eleições presidenciais americanas contra Obama se mostrarem defensores das teses de Reinhart-Rogoff, este é agora o tempo para outros políticos, para outras políticas. É necessário pois acabar com toda esta manipulação, este deve ser o tempo para a reflexão, o tempo para as pessoas, o tempo para a economia, o tempo para lermos o que texto que se segue de Thomas Palley.

Depois do trabalho de Reinhart-Rogoff, trabalho que serve para justificar as políticas de austeridade para países com rácios da dívida pública/PIB elevados, dois estudantes americanos mostraram que se tratava de um trabalho de pura manipulação, um trabalho hilariante, com erros que resultavam de erros de programa de computador, de eliminação de dados inconvenientes e feita pelos próprios autores, mas ao mesmo tempo mostraram também que para além disso tudo, a metodologia utilizada e sugerida explícita ou implicitamente pelos autores para justificar as políticas de austeridade era claramente primária e inadmissível. Desta vez foi diferente, foi na verdade diferente mas não pelas razões apontadas pelos autores mas sim pela desmontagem desse mesmo trabalho dos autores citados e sobre os quais se reclama terem sido altos funcionários do FMI, mais uma vez! É necessário pois acabar com toda esta manipulação, este deve ser o tempo para a reflexão, o tempo para as pessoas, o tempo para a economia, o tempo para lermos o que texto que se segue de Thomas Palley.

Numa explicação muito rápida vejamos, neste trabalho, só um pequeno detalhe, o do arrumar das observações dos rácios da dívida pública/PIB e das taxas de crescimento. As observações entre 1946 e 2008 entre dezenas de países eram agrupadas por rácios da dívida pública/PIB, com os seguintes intervalos: menor de 30%; entre 30 e 60%; entre 60 e 90%; acima de 90%.

Preocupemo-nos com este último intervalo. Imaginemos que nele ficavam sete países, um ou outro com uma só observação em que o rácio da dívida pública/PIB era superior a 90%, outro com 20 observações neste enorme intervalo temporal, outro com 10 observações, outro com 12 observações verificadas, e assim sucessivamente. Para cada país achava-se a média das suas taxas de crescimento verificadas neste tão grande intervalo temporal. O país que tinha só uma observação entrava com essa observação sendo então essa a sua taxa média (!) a entrar para a média agregada. Mas simplesmente, qual o significado de cada uma destas médias, país a país? Nenhum, pensamos nós. Exemplo: imaginemos nesse conjunto de observações um país com 3 observações, uma em 1948, outra em 1978, outra em 2004. Acha-se depois a média das três taxas de crescimento verificadas, mas francamente qual o significado do valor encontrado? Pessoalmente, penso que nenhum. Mas pior ainda, temos sete países nesse grupo de observações, por hipótese. Para a média ponderada, cada país tem o peso de um sétimo, pois são sete países e independentemente do número de observações de cada país nesse grupo. O peso é igual para cada país, no caso um sétimo, tenham-se verificado trinta observações ou tenha-se uma só observação! Qual a validade disto mesmo? Pessoalmente penso que nenhuma. É necessário pois acabar com toda esta manipulação, este deve ser o tempo para a reflexão, o tempo para as pessoas, o tempo para a economia, o tempo para lermos o que texto que se segue.

Hilariante portanto e percebe-se pois que seja com gargalhadas que jovens aceitaram que um ministro de nome Gaspar tivesse apresentado um livro que cientificamente vale uma grande gargalhada. E deram-lha.

O que já não merece nenhuma gargalhada são os efeitos dessas políticas sobre qualquer país, sobre Portugal, em particular.

(continua)

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